Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Farinha-de-guerra se diz, porque o gentio do Brasil costuma chamar-lhe assim pela sua língua, porque quando determinam de a ir fazer a seus contrários algumas jornadas fora de sua casa, se provêm desta farinha, que levam às costas ensacada em uns fardos de folhas que para isso fazem, da feição de uns de couro, em que da Índia trazem especiaria e arroz; mas são muito mais pequenos, onde levam esta farinha muito calcada e enfolhada, de maneira que, ainda que lhe caia num rio, e que lhe chova em cima, não se molha. Para se fazer esta farinha se faz prestes muita soma de carimã, a qual, depois de rapada, a pisam num pilão que para isso têm, e como é bem pisada a peneiram muito bem, como no capítulo antes fica dito. E como têm esta carimã prestes, tomam as raízes da mandioca por curtir, e ralam como convém uma soma delas, e, depois de espremidas, como se faz à primeira farinha que dissemos atrás, lançam uma pouca desta massa num alguidar que está sôbre o fogo, e por cima dela uma pouca de farinha da carimã e, embrulhada uma com outra, a vão mexendo sobre o fogo, e assim como se vai cozendo lhe vão lançando do pó da carimã, e trazem-na sobre o fogo, até que fica muito enxuta e torrada, que a tiram fora.
Desta farinha-de-guerra usam os portugueses que não têm roças, e os que estão fora delas na cidade, com que sustentam seus criados e escravos, e nos engenhos se provêm dela para sustentarem a gente em tempo de necessidade, e os navios que vêm do Brasil para estes reinos não têm outro remédio de matalota-gem, para se sustentar a gente até Portugal, senão o da farinha-de-guerra; e um alqueire dela da medida da Bahia, que tem dois de Portugal, se dá de regra a cada homem para um mês, a qual farinha-de-guerra é muito sadia e desenfastiada, e molhada no caldo da carne ou do peixe fica branda e tão saborosa como cuscuz. Também costumam levar para o mar matalotagem de beijus grossos muito torrados, que dura um ano, e mais sem se danarem, como a farinha-de-guerra. Desta carimã e pó dela bem peneirado fazem os portugueses muito bom pão, e bolos amassados com leite e gemas de ovos, e desta mesma massa fazem mil invenções de beilhós, mais saborosos que de farinha de trigo, com os mesmos materiais, e pelas festas fazem as frutas doces com a massa desta carimã, em lugar da farinha de trigo, e se a que vai à Bahia do reino não é muito alva e fresca, querem as mulheres antes a farinha de carimã, que é alvíssima e lavra-se melhor com a qual fazem tudo muito primo.
C A P Í T U L O XLIII
Em que se declara a qualidade dos aipins.
Dá-se nesta terra outra casta de mandioca, a que o gentio chama aipins, cujas raízes são da feição da mesma mandioca, a rama e a folha são da mesma maneira, sem haver nenhuma diferença, e planta-se de mistura com a mesma mandioca, e para se recolherem estas raízes as conhecem os índios pela côr dos ramos, no que atinam poucos portugueses. E estas raízes dos aipins são alvíssimas; como estão cruas sabem às castanhas cruas da Espanha; assadas são muito doces, e têm o mesmo sabor das castanhas assadas, e, davantagem, as quais se comem também cozidas, e são muito saborosas; e de uma maneira e de outra são ventosas como as castanhas. Destes aipins se aproveitam nas povoações novas porque como são de cinco meses se começam a comer assados, e como passam de seis meses fazem-se duros, e não se assam bem; mas servem então para beijus e para farinha fresca, que é mais doce que a da mandioca, as quais raízes duram pouco debaixo da terra, e como passam de oito meses apodrecem muito.
Destes aipins há sete ou oito castas; mas os que mais se estimam, por serem mais saborosos, são uns que chamam jerimus. Os índios se valem dos aipins para nas suas festas fazerem deles cozidos seus vinhos, para o que os plantam mais que para os comerem assados, como fazem os portugueses.
E porque tudo é mandioca, concluamos que o mantimento dela é o melhor que se sabe, tirado o do bom trigo, porque pão de trigo-do-mar, de milho, de centeio, de cevada, não presta a par da mandioca, arroz, inhames e cocos.
Milho de Guiné se dá na Bahia, como ao diante se verá; mas não se tem lá por mantimento, e ainda digo que a mandioca é mais sadia e proveitosa que o bom trigo, por ser de melhor digestão. E por se averiguar por tal, os governadores Tomé de Sousa, D. Duarte e Mem de Sá não comiam no Brasil pão de trigo, por se não acharem bem como ele, e assim o fazem outras muitas pessoas.
C A P Í T U L O XLIV
Em que se apontam alguns mantimentos de raízes que se criam debaixo da terra na Bahia.
Como fica dito da mandioca o que em breve se pode dizer dela, convém que declaremos daqui por diante outros mantimentos que se dão na Bahia debaixo da terra.
E peguemos logo nas batatas, que são naturais da terra, e se dão nela, de maneira que onde se plantam uma vez nunca mais se desinçam, as quais tornam a nascer das pontas das raízes, que ficaram na terra, quando se colheu a novidade delas. As batatas não se plantam da rama como nas Ilhas, mas de talhadas das mesmas raízes, e em cada enxadada que dão na terra, sem ser mais cavada, metem uma talhada de batata, as quais se plantam em abril e começam a colher a novidade em agosto, donde têm que tirar até todo o março, porque colhem umas batatas grandes e ficam outras pequenas, que se vão criando em quinze e vinte dias.
Há umas batatas grandes e brancas e compridas como as das Ilhas; há outras pequenas e redondas como túberas da terra, e mui saborosas; há outras batatas que são roxas ao longo da casca e brancas por dentro; há outras que são todas encarnadas e mui gostosas; há outras que são cor azul anilada muito fina, as quais tingem as mãos; há outras verdoengas muito doces e saborosas; e há outra casta, de cor almecegada, mui saborosas; e outras todas amarelas, de côr muito tostada, as quais são todas úmidas e ventosas, de que se não faz muita conta entre gente de primor, senão entre lavradores.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.