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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Eu sabia que esta oferta era uma cortesia consagrada, em compras e vendas, desde o tempo dos patriarcas.

Cumpri também o cerimonial; declarei que Jeová, o muito forte, me ordenava que, com o dinheiro cunhado pelos príncipes, eu pagasse os frutos da terra... Então o hortelão abaixou a cabeça, cedeu ao mandamento divino; e pousando o cesto nas lajes, tomando um figo em cada uma das mãos negras e cheias de terra:

- Em verdade - exclamou - Jeová é o mais forte! Se ele o manda, eu devo pôr um preço a estes frutos da sua bondade, mais doces que os lábios da esposa! Justo é, pois, ó homem abundante, que por estes dous que me enchem as palmas, tão perfumados e frescos, tu me dês um bom traphik.

Oh Deus magnífico de Judá! O facundo hebreu reclamava por cada figo um tostão da moeda real da minha pátria! Bradei-lhe: -"Irra, ladrão!" Depois, guloso e tentado, ofereci-lhe uma dracma por todos os figos que coubessem no forro largo de um turbante. O homem levou as mãos ao seio da túnica, para a despedaçar na imensidade da sua humilhação. E ia invocar Jeová, Elias, todos os profetas seus patronos quando o sapiente Topsius, enojado, interveio secamente, mostrando-lhe uma miúda rodela de ferro que tinha por cunho um lírio aberto:

- Na verdade Jeová é grande! E tu és ruidoso e vazio como o odre cheio de vento! Pois pelos figos do cesto inteiro te dou eu este meah. E se não queres, conheço o caminho dos hortos tão bem como o do templo, e sei onde as águas doces de Enrogel banham os melhores pomares... Vai-te!

O homem logo, trepando ansiosamente até ao parapeito de mármore, atulhou de figos a ponta do albornoz que eu lhe estendera, carrancudo e digno. Depois, descobrindo os dentes brancos, murmurou risonhamente que nós éramos mais benéficos que o orvalho do Carmelo!

Saborosa e rara me parecia aquela merenda de figos de Betfagé no palácio de Herodes. Mas apenas nos acomodáramos com a fruta no regaço, reparei embaixo num velhito magro, que cravava em nós humildemente uns olhos enevoados, queixosos, cheios de cansaço. Compadecido ia arremessar-lhe figos e uma moeda de prata dos Ptolomeus - quando ele, mergulhando a mão trêmula nos farrapos que mal lhe velavam o peito cabeludo, estendeu-me, com um sorriso macerado, uma pedra que reluzia. Era uma placa oval de alabastro, tendo gravada uma imagem do templo. E enquanto Topsius doutamente a examinava, o velho foi tirando do seio outras pedras de mármore, de ônix, de jaspe, com representações do tabernáculo no deserto, os nomes das tribos entalhados, e figuras confusas em relevo, simulando as batalhas dos macabeus... Depois ficou com os braços cruzados; e no seu nobre rosto, escavado pelos cuidados, luzia uma ansiedade, como se de nós somente esperasse misericórdia e descanso.

Topsius deduziu que ele era um desses guebros, adoradores do fogo e hábeis nas artes, que vão descalços até ao Egito, com fachos acesos, salpicar sobre a esfinge o sangue de um galo negro. Mas o velho negou, horrorizado - e tristemente murmurou a sua história. Era um pedreiro de Naim, que trabalhara no templo e nas construções que Antipas Herodes erguia em Bezeta. O açoute dos intendentes rasgara-lhe a carne; depois a doença levara-lhe a força, como a geada seca a macieira. E agora, sem trabalho, com os filhos de sua filha a alimentar, procurava pedras raras nos montes - e gravava nelas nomes santos, sítios santos, para as vender no templo aos fiéis. Em véspera de Páscoa, porém, viera um Rabi de Galiléia cheio de cólera que lhe arrancava o seu pão!...

- Aquele! - balbuciou sufocado, sacudindo a mão para o lado de Jesus.

Eu protestei. Como lhe poderia ter vindo a injustiça e a dor desse Rabi, de coração divino, que era o melhor amigo dos pobres?

- Então vendias no templo? - perguntou o terso historiador dos Herodes.

(continua...)

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