Por Eça de Queirós (1925)
Continuaram ao longo do Rossio, agitando os braços, erguendo a voz, num apelo à multidão escura. Mas nenhum gesto lhes respondeu; toda a massa se apinhava a ver passar aqueles entusiasmos solitários; lojas apagaram-se logo, fecharam num susto de bernarda; e naquele silêncio frio, que vinha da indiferença da gente e da mudez das fachadas, parecia que o canto se extinguia por si mesmo, que o entusiasmo se abatia, como uma bandeira a que falta a brisa, caindo ao longo do mastro! Quando chegaram perto do Teatro de D. Maria, o hino quase cessara, os archotes apagavam-se... Aquilo sumiu-se, perdeu-se entre a massa escura da gente, como um esforço efémero de heroísmo numa vasta indiferença pública.
Recolhi-me para dentro, pensando, com a garganta apertada, que estávamos para sempre perdidos.
Enfim, como a noite se adiantava, foi necessário fazer alguma coisa para dissipar aquele pavor ambiente. Eu, o Nunes, o Correia, abancámos a um voltarete. Na sala, também decerto se sentira a necessidade de sacudir o torpor apavorado das senhoras: houve uma escala no piano, acordes abafados, e, daí a pouco, uma voz que eu conheci pela dum oficial de cavalaria, amigo da casa, ergueu-se, branda e plangente, recitando a Judia:
Dorme que eu velo, sedutora imagem...
Então aquela melodia, aquela voz mórbida e saudosa pareceram-me singularmente estranhas naquela hora. Era como que um som antigo, obsoleto, a voz dum mundo extinto, passando em sonhos. Em redor da mesa as vozes monótonas continuavam: passo, dou cartas... De baixo, do Rossio, vinha o mesmo rumor surdo da multidão que.87 enchia a praça, e na sala, no langor amoroso do acompanhamento, balançada e com requinte, a voz do alferes suspirava:
Dorme que eu velo, sedutora imagem...
E já a essa hora o exército inimigo pisava o solo da Pátria! Pobre alferes!
Encontrámo-nos mais tarde... Eu seguia então com os meus companheiros da milícia nacional. E que milícia! Tudo o que tínhamos de uniforme era um capote esfarrapado! E que armas as nossas – armas de caça! Mas enfim lá íamos, nessa fria manhã de Abril, sob a chuva torrencial.
Parece que se estava dando uma grande batalha, mas não sabíamos nada. Encontrávamo-nos ali, a meia encosta duma colina que nos escondia a vista da frente, ao pé dum casebre abandonado. Ali permanecíamos havia duas horas, com lama pelos joelhos, encharcados, depois de termos marchado toda a noite, idiotas de fadiga, esfomeados, encostando-nos uns aos outros para não adormecer. Em volta de nós, dum céu baixo e lúgubre, caía um dilúvio; e o casebre parecia, entre as suas quatro árvores, todo envolvido de chuva, tão encolhido e tão sonolento como nós. A distância, a artilharia troava; outras vezes eram descargas secas, que pareciam o rasgar repentino duma grande peça de seda; mas nem víamos o fumo, naquela névoa de ar e de chuva. Nem sei onde estávamos, nem o que defendíamos.
Quem comandava a companhia era o alferes – o mesmo que recitava a Judia! Amarelo, encharcado, encolhido no seu capote, ia e vinha defronte de nós. Ai! Não se parecia com o alferes que torcia o bigode junto do piano, revirando olhos ternos nos versos mais tocantes.
De repente, na terra molhada, um galope surdo: é um oficial, com a farda desapertada, de espada em punho, a face acesa duma cólera de batalha; belo rapaz, com um fio de sangue a cair-lhe da orelha. Estaca o cavalo, berra com uma voz furiosa:
– Quem comanda este destacamento?
– Sou eu, meu capitão – responde o alferes, aprumando-se.
– Com um milhão de diabos! Roda pela esquerda, por trás do casebre, a tomar posições na estrada, ao pé da valeta!
E partiu a galope. E lá seguimos nós, a marche-marche, na lama onde os pés se enterravam, fazendo um esforço brutal para galgar aquele terreno duma resistência mole, arquejando sob a tormenta de chuva e o estrondo da artilharia que parecia agora aproximar-se.
Passámos defronte do casebre: à porta, carros de ambulância e de dentro, gritos de feridos.
Era a primeira vez que ouvíamos aqueles brados dilacerantes de dor abandonada, e houve no destacamento como que uma impressão, uma hesitação: era a nossa carne de paisanos, de burgueses, que se recusava, àquela evidência tão brusca da morte e da dor!
– Marche! – berrou o alferes.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.