Por Eça de Queirós (1878)
- Não me digas, não venhas com as tuas! Olha que eu sei de casos...
E erguendo-se:
- Mas são sete moedas! Sete moedas! - exclamou, arregalando os olhos.
Juliana apareceu à porta, e muito baixinho, com um sorriso:
- A senhora faz favor?
Chamou-a para o corredor, em segredo:
- Esta carta. Que vem do hotel.
Luísa fez-se escarlate.
- Credo, mulher! Não é necessário fazer mistérios!
Mas não entrou no quarto, abriu-a logo no corredor; era a lápis, escrita à pressa:
"Meu amor" - dizia Basílio - "por um feliz acaso descobri o que precisávamos, um ninho discreto para nos vermos...
E indicava a rua, o número, os sinais, o caminho mais perto.
...Quando vens, meu amor? Vem amanhã. Batizei a casa com o nome de Paraíso; para mim, minha adorada, é com efeito o Paraíso. Eu espero-te lá desde o meio-dia; logo que te aviste, desço.
Aquela precipitação amorosa em arranjar o ninho - provando uma paixão impaciente, toda ocupada dela - produziu-lhe uma dilatação doce do orgulho; ao mesmo tempo que aquele Paraíso secreto, como num romance, lhe dava a esperança de felicidades excepcionais; e todas as suas inquietações, os sustos da carta perdida se dissiparam de repente sob uma sensação cálida, como flocos de névoa sob o sol que se levanta.
Voltou ao quarto, com o olhar risonho.
- Que te parece, hem? - perguntou logo D. Felicidade, a quem a sua idéia ocupava tiranicamente.
- O quê?
- Achas que mande o homem a Tui?
Luísa encolheu os ombros; veio-lhe um tédio de tais enredos de bruxaria, misturados a amores caturras. Na vaidade da sua intriga romântica, achava repugnante aquele sentimentalismo senil.
- Tolices! - disse com muito desdém.
- Oh, filha! Não me digas, não me digas! - acudiu desolada D. Felicidade.
- Bem, então manda, manda! - fez Luísa, já impaciente.
- Mas são sete moedas! - exclamou D. Felicidade, quase chorosa.
Luísa pôs-se a rir.
- Por um marido? Acho barato...
- E se a sorte falha?
- Então é caro!
D. Felicidade deu um grande "ai!" Estava muito infeliz, naquela hesitação entre os impulsos da concupiscência e as prudências da economia. Luísa teve pena dela, e, tirando um vestido do guarda-roupa:
- Deixa lá, filha! Não hão de ser necessárias bruxarias!... D. Felicidade ergueu os olhos ao céu.
- Vais sair? - perguntou melancolicamente.
- Não.
D. Felicidade propôs-lhe então que viesse com ela à Encarnação. Visitavam a Silveira, coitada, que tinha um furúnculo! E viam a armação da igreja para a festa; estreava-se o frontal novo, um primor!
- E estou também com vontade de ir rezar uma estaçãozinha, para aliviar cá por dentro ajuntou, suspirando.
Luísa aceitou. Apetecia-lhe ir ver altares alumiados, ouvir o ciciar de rezas no coro, como se os requintes devotos dissessem bem com as suas disposições sentimentais. Começou a vestir-se depressa.
- Como tu estás gorda, filha! - exclamou D. Felicidade admirada, vendo-lhe os ombros, o colo.
Luísa diante do espelho olhava-se, sorria com o seu sorriso quente, contente das suas linhas, acariciando devagarinho, voluptuosamente, a pele branca e fina.
- Redondinha - disse, namorando-se.
- Redondinha? Vais-te a fazer uma bola!
E acrescentou, tristemente:
- Também com a tua vida, um marido como o teu, regaladinha, sem filhos, sem cuidados...
- Vamos lá, minha rica - disse Luísa -, que as tristezas não te têm feito emagrecer.
- Pois sim, pois sim! Mas... - e parecia desolada, como curvada sob as suas próprias ruínas - cápor dentro é uma desgraça, estômago, fígado...
- Se a mulher de Tui faz o milagre, põe tudo isso como novo!
Felicidade sorriu, com uma dúvida desconsolada.
- Sabes que tenho um chapéu lindo? - exclamou de repente Luísa. - Não viste? Lindo!
Foi logo buscá-lo ao guarda-vestidos. Era de palha fina, guarnecido de miosótis.
- Que te parece?
- É um primor!
Luísa mirava-o dando pancadinhas com as pontas dos dedos nas florzinhas azuis.
- Dá frescura - fez D. Felicidade.
- Não é verdade?
Pô-lo com muito cuidado, toda séria. Ficava-lhe bem! Basílio se a visse havia gostar, pensou. Era bem possível que o encontrassem...
- Veio-lhe, sem motivo, uma felicidade exuberante; achava tão delicioso viver, sair, ir àEncarnação, pensar no seu amante!... E toda no ar, procurava pelo as chavinhas do toucador.
Onde tinha deixado as chaves? Na sala de jantar, talvez! Ia ver! Saiu correndo, tontinha, cantarolando:
- Amici, ta notte e bella...
La ra la la...
Quase topou com Juliana, que varria o corredor.
- Não deixe de engomar a saia bordada para amanhã, Juliana!
- Sim, minha senhora. Está em goma!
E seguindo-a com um olhar feroz:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.