Por Eça de Queirós (1870)
As que têm um salão, uma carruagem, um camarote na ópera, um cofre cheio de jóias,um quarto cheio de vestidos, não podem ser as singelas mulheres que passam a vida a dar de mamar aos filhos e a vender cerveja, como diz o lago, de Shakespeare; nem podem resumiro seu destino fácil em ter filhos, chorar e fiar na roca, co mo diz Sancho Pança. Esta não vendia cerveja, não a ensinaram a fiar... Chorou apenas.
Quem sabe se na sua dourada existência a amargura das lágri mas a não compensouhoje de tudo quanto ignora da amargura da vida!
E tive uma compaixão sincera com um remorso profundo das palavras cruéis que lhedissera. Que poderia eu fazer para a salvar? Não o sabia. Achava-me, porém, resolvido a tudo, a sacrificar-me inteiramente, para lhe valer.Devo dizer também que, vendo-a, ouvindo-a, eu não supus nem por um momento que no homicídio de que ela se acusava pu desse haver o que se chama verdadeiramente umcrime, isto é, uma intenção infame ou perversa. Um criminoso, um cobarde, um assassino, nem chora assim, nem fala assim, nem se denuncia, nem se inculpa, nem se entrega por esta forma a uma pessoa quase estranha, quase desconhecida. Ela tinhamo dito com a mesmasimplicidade com que o gritaria da janela para a rua, sem a míni ma preocupação de se salvar. Cheguei a pensar por um momento que não tinha diante de mim senão uma estranhanevrose, um caso de alucinação, de delírio raciocinado. Mas o delírio não faz pade cer tanto. Tenho visto muitos loucos no hospital. A expressão de les, ainda a mais dolorida, não apresenta nunca a profundidade desta. É preciso ter toda a integridade da sensibilidade e darazão para sofrer assim. No padecimento dos loucos há um não-sei-quê, sem nome talvez na sintomatologia do sofrimento, mas a que poderíamos chamar — a isolação da alma.Ao voltar a si, a condessa parecia um pouco mais calma. Para evitar um recrudescimento de excitação proveniente de uma longa narrativa de episódios que me pareceu discreto evitar, um pouco como estudante de medicina, principalmente como homem honrado, disse-lhe: — Sabe mais alguém deste caso? — Sabe-o a minha criada de quarto, a que me acompanhava ontem quando nos viu, esabê-lo-á dentro em pouco meu primo H... a quem hoje escrevi. Meu primo, porém, está em
Cascais. O morto é um estrangeiro. Ninguém, a não ser meu primo, o conhe ce em Lisboa. Ignorava-se mesmo que ele existisse aqui. Entregá-lo aos trâmites policiais, ter de revelar oseu nome, descobrir a sua naturalidade, a sua família, eis o que principalmente eu quereria evitar. Conseguido isto, entrego-me aos tribunais, mato-me, fujo, enterro-me viva... comoquiserem!
— E sabe seu primo como ele morreu? — Não. Vai saber apenas que está morto...- Pode contar com o silêncio da sua criada, por alguns dias ao menos?
— Posso. Por toda a vida.- Evite, se pode, que seu primo receba hoje a sua carta. E... ele, onde está?- Na mesma rua em que nos encontrámos ontem, no pré dio n-o...
— Para entrar na casa...- Há uma chave — respondeu ela. E tendo meditado um momento:Ontem — prosseguiu — quando lhe disse que viesse hoje a minha casa, estava louca de desesperação e de honor. Parecia-me que tudo quanto se aproximava de mim me trazia a punição, o castigo, e que tudo quanto se afastava fugia para longe como meu úl timo amparo,com o derradeiro socorro que eu ainda poderia ter neste mundo!... Foi neste delírio que lhe pedi a V..., um estranho, um desconhecido, que viesse ver-me... Para quê?.. Nem eu sabia para quê... Para contar isto a alguém, para me decidir, para ter uma solução, para apressarum desenlace qualquer, para fugir de mim mesma.. Ir à polícia era entregar esse infeliz à mais horroro sa das profanações. Dirigir-me a alguma das senhoras que conhe ço, ir bater àporta de uma família tranquila, que me receberia na casa de jantar ao levantar da mesa, que me apertaria as mãos, que me traria os seus filhos para eu beijar, e depois dizer-lhes de repente: «eu, que aqui estou, tinha um amante, e matei-o; venho con vidá-los para esta festa dedesonra e de ignomínia!...» Não. Era melhor fugir para o desconhecido, entregar-me ao acaso... Em tudo isto pensei confusamente, não sei como, sem continuidade, sem nexo, aospedaços, depois que o vi, durante esta noite medo nha. Não tenho hoje mais lucidez de espírito do que tinha ontem... Não sei o que hei-de fazer... Sinto apenas que estou perdida, que é preciso que alguém venha, que é preciso que me levem... O senhor parece-me umhomem generoso, leal, compadecido e bom... Sabe já o que me sucedeu, sabe onde ele está.
Disse-lhe qual era a casa, disse-lhe o número da porta. Aqui tem a chave.E tirando do seio uma corrente de ferro, de elos angulosos como de um cilício, que trazia suspensa do pescoço por dentro do roupão, abriu uma argola que lhe servia de remate, soltou uma pequena chave, e entregou-ma.Deixou-se cair num fauteuil, inclinou a cabeça para trás e ficou prostrada, silenciosa, no abatimento, no abandono, no entorpeci mento profundo que de ordinário se sucede àsgrandes crises ne vrálgicas.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.