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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pátio, desembocávamos da alameda de plátanos, e adiante de nós se dividiam matutinamente, mais brancos entre o verde matutino, os caminhos coleantes da Quinta, toda a sua pressa findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentidão de quem penetra num Templo. E repetidamente sustentava ser “contrário à Estética, à Filosofia e à Religião, andar depressa através dos campos”. De resto, com aquela sutil sensibilidade bucólica que nele se desenvolvera, e incessantemente se afirmava, qualquer breve beleza, do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente poderia ele entreter toda uma manhã, caminhar pôr entre um pinheiral, de tronco a tronco, calado, embebido no silêncio, na frescura, no resinoso aroma, empurrando com o pé as agulhas e as pinhas secas. Qualquer água corrente o retinha, enternecido naquela serviçal atividade, que se apressa, cantando, para o torrão que tem sede, e nele se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve meio Domingo, depois da Missa, no cabeço, junto a um velho curral desmantelado, sob uma grande árvore – só porque em torno havia quietação, doce aragem, um fino piar de ave na ramaria, um murmúrio de regato entre as canas verdes, e pôr sobre a sebe, ao lado, um perfume, muito fino e muito fresco, de flores escondidas.

Depois, quando eu, velho familiar das serras, me não abandonava aos mesmos êxtases que a ele lhe enchiam a alma ainda noviça – o meu Príncipe rugia, com a indignação dum poeta que descobre um merceeiro bocejando sobre Shakespeare ou Musset. Eu ria.

-Meu filho, olha que eu não passo dum pequeno proprietário. Para mim não se trata de saber se a terra é linda, mas se a terra é boa. Olha o que diz a Bíblia! “Trabalharás a Quinta com o suor do teu rosto!” E não diz “contemplarás a Quinta com o enlevo da tua imaginação!”

-Pudera! – exclamava o meu Príncipe. – Um velho livro escrito pôr Judeus, pôr ásperos semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro! Repara, homem, para aquele bocadinho de vale, e consegue não pensar, pôr um momento, nos trinta mil-réis que ele rende! Verás que pela sua beleza e graça ele te dá mais contentamento à alma que os trinta mil-réis ao corpo. E na vida só a alma importa.

Recolhendo ao casarão, já o encontrávamos com as janelas meio cerradas, os soalhos borrifados para aquelas quentes réstias de Sol de Junho, que depois do almoço docemente nos retinham na livraria, preguiçando.

Mas realmente a alegre atividade do meu Príncipe não cessava, nem amolecia, sob o peso da sesta. A essa hora, enquanto pelo arvoredo mudo os mais agitados pardais dormiam, e o Sol mesmo parecia repousar, imóvel na rutilância da sua luz, Jacinto com o espírito acordado – ávido de sempre gozar, agora que reconquistara essa faculdade – tomava com delícia o seu livro. Porque o dono de trinta mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de ressuscitado, o homem que só tem um livro. Essa mesma Natureza, que o desligara das ligaduras amortalhadoras do tédio, e lhe gritara o seu belo Ambula, caminha! – também certamente lhe gritara et lege, e lê. E libertado enfim do invólucro sufocante da sua Biblioteca imensa, o meu ditoso amigo compreendia enfim a incomparável delícia de ler um livro. Quando eu correra a Tormes (depois das revelações do severo na venda do Torto), ele findava o D.Quixote, e ainda eu lhe escutara as derradeiras risadas com as coisas deliciosas, e decerto profundas, que o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o meu Príncipe mergulhara na Odisséia – e todo ele vivia no espanto e no deslumbramento de assim Ter encontrado no meio do caminho da sua vida o velho errante, o velho Homero!

-Ó Zé Fernandes, como sucedeu que eu chegasse a esta idade sem Ter lido Homero?... -Outras leituras, mais urgentes... o Fígaro, George Ohnet...

-Tu leste a Ilíada?

-Menino, sinceramente me gabo de nunca Ter lido a Ilíada.

Os olhos do meu Príncipe fuzilavam.

-Tu sabes o que fez Alcibíades, uma tarde, no Pórtico, a um sofista, um desavergonhado dum sofista, que se gabava de não Ter lido a Ilíada?

-Não.

-Ergueu a mão e atirou-lhe uma bofetada tremida.

-Para lá, Alcibíades! Olha que eu li a Odisséia!

(continua...)

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