Por Raul Pompéia (1881)
"Comparados Romeu e D. Juan, o nosso Romeu não passa de um principiante, que não entende do riscado, e que ainda suspira, à luz de alvoradas, como a gata ao cio.
"É que D. Juan sabe rir.
"Certo é também que na comédia de Shakespeare há sangue; mas isso não obscurece o grotesco.
"Triboulet, que começa por fazer rir, acaba por fazer chorar.
"De mais, o sangue da comédia inglesa é a última conseqüência da ridícula soberania do fole circulatório. É requinte sui generis do desfruto.
"Quando aquela gente suicida-se, ou cai assassinada e mesmo quando assassina, ouve-se o bom senso positivo, burguês e prático dizer: - pobres diabos!
"O positivo é que é o verdadeiro. É preciso conciliar-se tudo com ele.
"As nevroses constituem a praga da humanidade.
- Guerra às nevroses!
"A cidadela das nevroses é a famosa víscera.
"Arrasemos a cidadela!
"Sim, meu caro doutor, já é tempo de lançar-se mão aos freios da estafada cavalgadura de D. Quixote, que vai desastradamente passeando a gesticulação ossuda do seu entusiasmo cavalheiresco, por entre a vaia das gerações!
"Já é tempo de suspender-se este espetáculo do cavalheiro da Mancha, eternamente bom, mas eternamente tolo!..."
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O médico, que acompanhava extasiado a estranha dissertação do louco, concentrou-se por momentos, e disse-lhe:
- Esteja tranqüilo, meu amigo, não pense mais nisto; eu vou extirpar-lhe o coração... vou curá-lo. S. Paulo, junho de 1883.
Raul Pompéia
O MODELO DO ANJO
I
Estava aberta a exposição.
O bonito frontispício da Academia de Belas-Artes arregalava as janelas, como grandes olhos satisfeitos, e, com fome pantagruélica, ia devorando a multidão que se lhe enfiava pelo pórtico. A fachada despia-se de sua melancolia de pedra, e parecia abrir-se num vasto sorriso. E as flâmulas e bandeiras fincadas nas cornijas, com que atiravam das suas dobras multicores punhados de alegria sobre os que entravam.
Na área semicircular que existe diante do edifício apertava-se o povo, arquejando aos calores da mais límpida soalheira. Ali suava a impaciência, debatendo-se aos empurrões.
Acabava de ser franqueado ao público o ingresso no edifício.
O imperador, que assistira à abertura da exposição acompanhado dos visitantes de convite especial, tinha já ido embora, feita a sua visita às salas de trabalhos. Chegara a vez de todos. Todos queriam entrar.
Um homem, entretanto, se conservava à distância, e estava parado junto de uma das paredes do conservatório, olhando para o povo.
Era notável pela alvura dos cabelos e das longas barbas, que um sol das três horas varava de cintilações de cascata. Trajava de preto, calça e sobrecasaca, numa correção excepcional. Apesar de encanecido, este homem tinha a pele fresca e pouco enrugada. Não podia ser muito velho. Era simpático e de uma elegância esquisita. A cabeleira ia-lhe aos ombros em duas ondulações reluzentes; as barbas caíam-lhe abandonadas artisticamente à natureza. Tinha uma das mãos no peito, em atitude napoleônica, e a outra segurando ao longo do corpo uma bengala de junco, castoada de prata. Semeava olhares por aquela multidão sufocando-se para entrar no templo das artes. Um sorriso vago passeava-lhe nos lábios:
- Que entusiasmo! murmurou, não me é possível entrar hoje...
Estas palavras, ditas distraidamente, foram ouvidas pelas pessoas mais próximas, que viram-no depois retirar-se andando compassadamente, e desaparecer no Rocio.
O interessante personagem encaminhou-se para a rua do Ouvidor. No adro de S. Francisco de Paula um moço que passava, saudou-o, tirando o chapéu:
- Sr. comendador!...
Pouco mais adiante um homem parou-lhe em frente.
Era Vítor Meireles.
O nosso comendador fez um gracioso cumprimento ao pintor, que, sem preâmbulos, perguntoulhe:
- Então, caro mio, como vai a sua Visão?
- Apenas desenhada...
- Olhe, Giacometo, afianço-lhe que vai ficar um quadro sublime... Já se pode ver pelo croquis... Aquele pequenino túmulo coberto de rosas, meio na sombra!... O jorro de luz celeste que cai da direita, vai dar ao quadro um brilho encantador... As roupinhas transparentes da menina e a túnica abundante e leve do anjo que arrebata a criança através da luz, prestam-se para um ensamble majestoso, não falando nas lindas combinações de reflexos que virão por .... Oh! eu imagino!.. O seu quadro vai fazer barulho... Vamos ver aqui no Rio um painel religioso digno da Renascença...
- Ora, Vítor!...
Qual ora!... Eu não o conheço e você não me conhece?... Quer ouvir o que eu digo?... Entusiasmo e perseverança, que você terá um sucesso...
- Qual! Não espero grande cousa..
(continua...)
POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.