Por Adolfo Caminha (1893)
Era preciso então tomar dinheiro a juros aos agiotas, correr toda a cidade atrás de alguém que lhe emprestasse alguns mil-réis até o fim do mês, contar as suas necessidades, as pequeninas misérias domésticas, inventar situações incríveis. Porque os seus “amigos do coração”, o Perneta e o Guedes, da Matraca, também eram pobretões e perdulários, sentiam muito as necessidades do Janjão, mas não lhe podiam ser úteis por forma alguma, senão dando-lhe a ganhar no jogo quando a sorte não os protegia.
— É. Eu bem sei que vocês também têm família como eu e precisam também. É o diabo, é o diabo!
Daí as dissensões, os conflitos, em casa, com a mulher por causa de dinheiro. Ele já não conseguia impor à D. Terezinha a sua autoridade de chefe de casa, como dantes; ao contrário, agora suportava-lhe as impertinências, as saraivadas de impropérios, com uma passividade de animal submisso.
— Tenha vergonha, homem de Deus, tenha vergonha, que você já não é criança, dizia-lhe ela nas bochechas, quase lhe abanando o queixo. Olhe para as barbas que tem na cara, porte-se como gente!
E ele ouvia tudo aquilo sem dizer água vai, caladinho como um prego, murcho, impotente!
Como os tempos mudam! Há poucos dias era ele forte, o mandachuva naquela casa; bastava um olhar seu, por cima dos óculos escuros, para que todos, D. Terezinha, Maria do Carmo e a Mariana, estremecessem com medo, porque sabiam de quanto ele era capaz nos momentos de cólera; agora não, tinham-se trocado os papéis: bastava um olhar de D. Terezinha para que ele lhe desse as costas disfarçadamente para evitar barulho.
— Basta, basta, basta! costumava dizer quando a mulher dirigia-se para ele com os olhos chamejantes, de mãos fechadas.
E escafedia-se até o fundo do quintal para não lhe ouvir os disparates.
Estava magro, muito magro, e queixava-se de dores nos intestinos.
Diabo da repartição não lhe deixava tempo para nada. Era um trabalhar sem descanso, sentado a uma banca, das nove às três, copiando ofícios, riscando papel estupidamente. Se ao menos tivesse quem lhe arranjasse com o ministro uma aposentadoria ainda que fosse com a metade do ordenado... Mas, qual! tudo uns políticos sem importância, uns lagalhés que iam para a câmara proferir barbaridades, a repetir que o país estava à beira de um abismo e nada mais! Até estimava que lhe demitissem do emprego, porque iria fazer pela vida noutra parte, e escusava perder tempo e emporcalhar papel, para no fim do mês — tome lá o seu ordenado, uns míseros vinténs que mal chegavam para o boi. Uma desgraça!
De resto a Maria não lhe dava muito cuidado. A princípio ainda lhe fizera uns carinhos, dera-lhe uns cortes de chita e um rico vestido de cassa da Índia “para agradar”, porque também seria uma ingratidão vê-la para um canto a se acabar, magra e amarela que nem uma lesma. Achava até que tinha feito muito. Outros havia piores do que ele, ora!
— Meu bem, tristezas não pagam dívidas. É andar, é andar sem olhar para trás.
Mas quando, um belo dia, Maria declarou-lhe positivamente que estava prenhe, que sentia “uma coisa” bulir-lhe na barriga, João estremunhou. — Que se há de fazer, filha? Agora é ter paciência. Foi uma fatalidade, foi uma fatalidade. Há de se arranjar a coisa do melhor modo possível. Vais aí para qualquer sítio, fora da cidade, e ninguém saberá de coisa alguma. Dá-se tanto disto...
— E depois? murmurou Maria mordendo a ponta do lenço, cabisbaixa.
— E depois? E depois... ora adeus! e depois dá-se a alguém para criar o trambolho e tu voltas à tua santa vidinha.
Maria soluçava baixo, fungando numa crise nervosa.
— Já te pões a chorar como uma criança! Tolice! Estou a dizer-te que o caso é muito simples.
Uma tarde em que os Mendes, o juiz municipal e a mulher, tinham ido passear ao Trilho, João da Mata entrou alvoroçado, sem fôlego, com uma notícia a escapulir-lhe da boca. — Sabem quem está muito doente?
Todos voltaram-se surpreendidos, com o olhar cheio de curiosidade. — Não, ninguém sabia. Algum conhecido?
— O presidente, o Dr. Castro, teve um ataque há pouquinho. A rua está cheia.
Diz que está bem mal.
— De quê, menino? interrogou o juiz muito admirado e já nervoso.
Houve logo um interesse comovido nos circunstantes.
E João, sentando-se, sem apertar a mão aos Mendes, pálido, limpando a testa, foi dizendo o que sabia: — Muita gente defronte do palácio. Tinham sido chamados todos os médicos, e todos, menos o Dr. Melo, eram de parecer que se tratava de um caso de febre amarela. O presidente tinha acabado de jantar e lia à cabeceira da mesa a correspondência do sul chegada naquele momento, quando começou a sentir-se mal — embrulho no estômago, tonteira, calafrios.
Imediatamente, ergueu-se lívido, e, ao dar o primeiro passo, caiu fulminado!
— Ai! fez D. Terezinha cruzando as mãos sobre o regaço. E depois?
— Depois conduziram-no à cama, sem sentidos, vomitando uma coisa preta...
João fez esgares de nojo. Todos cuspiram.
— ... E quando os médicos chegaram já o encontraram sem pingo de sangue no rosto, vomitando ainda golfadas de bílis sobre a esposa que o amparava, coitada, nem sei mesmo como...
— Coitado! lamentaram num tom arrastado as duas senhoras.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.