Por Inglês de Sousa (1891)
E acrescentou falando muito tempo e desabafando a contrariedade sofrida no incidente, que estava resolvido àquela história de catequese, e a levaria a efeito, custasse o que custasse. Não perderia cinco dias de viagem. Que diriam na vila se o vissem voltar da foz do Canumã sem ter avistado um só mundurucu? Pensariam que inventara a história da fuga dos canoeiros e o cachorro do Chico Fidêncio divertir-seia com o episódio no Democrata de Manaus, fazendo-o passar por um charlatão religioso. Não era homem que prometesse fazer uma coisa e a não fizesse, principalmente tratando-se de coisa tão santa como a conversão de selvagens ao cristianismo e à civilização, a ponto de o senhor bispo pretender ocupar-se dela muito a sério. S. Ex.a Rev.ma imaginara a construção de um navio-igreja, que se chamaria Cristóforo, isto é, o que leva a Cristo, e navegaria todos os grandes afluentes do Amazonas, evangelizando os povos. Era uma idéia grandiosa, digna do cérebro do ilustre prelado paraense, e, levada à prática, prestaria os maiores serviços à civilização daquelas paragens. Infelizmente a construção demandava muito dinheiro; era preciso fazer um grande barco a vapor, apropriado às solenidades imponentes do culto católico, com o luxo que o senhor bispo gostava de desenvolver nas cerimônias cultuais para exaltar a imaginação dos crentes e agradar aos indiferentes de bom gosto que o lado estético da cerimônia atrai e concilia. Enquanto o fervor religioso, invocado pelo senhor bispo, não vinha derramar na Caixa Pia as quantias necessárias à construção do Cristóforo, forçoso era que os missionários isolados, para não deixar interrompida a obra de catequese, se aventurassem pelos sertões ínvios do Amazonas com o meio de locomoção que as circunstâncias lhes deparassem, pois quanto maior fosse o sacrifício mais meritório seria e mais digno da consideração de Deus.
— Demais, concluiu, gesticulando animosamente, para voltar a Silves é preciso uma canoa, e desde que eu a tenha à minha disposição, nenhuma razão me impedirá de prosseguir na viagem.
E andaram ambos para a casa, padre Antônio cabisbaixo e pensativo, Macário sentindo que não tinha a energia necessária para resistir à vontade do superior, acostumado, como estava, a respeitá-lo, não só pela posição como pelas suas raras virtudes entre as quais sobressaíam, impondo-se à sua profunda admiração, a castidade e o desinteresse nas coisas de dinheiro. Um padre que era uma coisa espantosa, mas que infelizmente dera agora para aquela história de catequese, que não havia como tirar-lhe da cabeça. Mas in petto Macário afagara a esperança de, com alguma nova artimanha do seu maquiavelismo, safar-se da rascada, para o que ia desde já prometendo dez réis a Santo Antônio, não duvidando chegar ao sacrifício das suas duas patacas se não soubesse que o santo só recebia dez réis.
A tia Teresa, a mulher do pescador, ficara muito admirada da fuga dos remeiros, mas não vira remédio pronto. O seu homem estava no furo de Uraná ou no lago da outra banda, e só poderia regressar daí a uma semana, se não ficasse lá todo o mês.
— Não haverá aqui por esta vizinhança alguma embarcação? perguntou padre Antônio de Morais.
Não havia. Onde havera de sê incontrá ua igarité por estes mondo? respondera-lhe a tapuia na linguagem dura e arrastada.
Para cima do rio, continuou, gesticulando gravemente, cantando as palavras uma a uma, prolongando as vogais, na impassibilidade de quem fala somente para se ouvir a si próprio; para cima do rio não havia morador nenhum, e lá para baixo eram poucos, o Chico Pequeno, o Pipirioca e o Jacaretinga. E depois, respondendo a uma pergunta que adivinhava nos olhos do padre:
— 'Stão na sarga, disse com um gesto largo, indicando distância.
E prosseguiu no tom dolente e monótono das caboclas, cortando as frases para acentuar uma palavra, prolongando o som das vogais até penetrarem bem no ouvido do interlocutor.
— Havera de achá ....... canua. Só sê fosse alguma... montarizinha... de pescá, como seu Guierme... tem... uma... munto... velha, bem velhi....nha.... que nem nhá vó.
— Onde está essa montaria? indagou sofregamente padre Antônio.
— 'Stá nu purto, respondeu a tia Teresa. E continuou a deleitar os ouvidos do Macário com a sua melopéia plangente.
— Saberá vence, nhã branco... que é...p’ra ....... us la... drão dus ta. .. puios...
não ....... 'stá iscondidi....nha.... nas cana... rana...
E voltando-se para o vigário, a convencê-lo da inutilidade da pesquisa:
— Havera dê... servi... não serve. O dia... cho da muntari... a é ve... lha, e peque... tita, que só p'ra cu.... . rumi.
Macário e padre Antônio foram ver a canoa. Era um pequeno casco, feito toscamente de um tronco de cedro, medindo doze palmos de comprimento sobre dois e meio de boca. Estava encalhada entre as canaranas do porto. Era velha, como dissera a tia Teresa, e tinha apenas um banco além do jacumã. Era impossível arriscar a continuação da viagem naquela casca de noz. Padre Antônio voltou para a casa, impaciente.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.