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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Depois de três meses de Caxambu voltamos à casa de Laranjeiras, e de novo entrou definitivamente nos seus eixos a nossa vida doméstica, mais completa agora com a presença de César. Pouco a pouco, à vista da atitude que guardávamos, eu e meu esposo, Leandro foi compreendendo a nossa verdadeira situação. Deixou de rir; e, tanto ele como Palmira, começaram a envolver o meu venerável companheiro na mesma atmosfera de carinhoso respeito em que ela sempre me teve e em que aquele ultimamente me firmava.

A minha aliança com César era a de dois velhos irmãos amoráveis; e o exemplo do nosso mútuo respeito, da inalterável delicadeza de palavras e maneiras que mantínhamos um pelo outro, e principalmente a ação constante daquela nossa profunda amizade, casta, sagrada e puramente espiritual, não tardaram a dar de si os frutos que eu pressupunha, refletindo-se diretamente no ânimo de minha filha e de meu genro. Foi para eles tão eficaz e poderoso o efeito desse exemplo de amor impoluto, que no fim de alguns meses se tornava de todo desnecessária a minha intervenção para obrigá-los a cumprir o regime de vida que eu lhes impusera, sem haver, não obstante, desfalecimento de amor sensual por parte de nenhum dos dois. Ou porque tivessem afinal se habituado às periódicas separações de leito, ou porque compreendessem já o seu valor e eficácia; ou fosse enfim que o alto exemplo da nossa calma ternura lhes apurasse o espírito e lhes aperfeiçoasse o coração, o certo é que eles iam agora, sem esforço, naturalmente, vivendo como lhes ensinara eu a viver, e confessavam-se felizes; e, pela primeira vez, mostravamse gratos ao meu maternal desvelo.

Com a convivência Leandro foi cada vez mais se fazendo filho de César; afinal, muitas vezes, nos seus regulares afastamentos do tálamo, meu genro dormia no mesmo quarto com o padrastro, e Palmira e meu neto dormiam comigo. E iam-se assim os dias passando, sem a mais ligeira nuvem de desarmonia, sem o menor atrito de caracteres, nem sombras de descontentamento, porque, ao contrário do que em geral sucede nas famílias ainda mesmo pouco numerosas, não formávamos pequenos grupos conspiradores; não havia segredos entre todos nós, nem por conseguinte podia haver ressentimento.

A liberdade moral e física de cada um era completa, sem despertar nos outros o vislumbre de uma ofensiva suspeita. Leandro entrava e saía de nossa casa livremente; ora dormia, ora não dormia perto da mulher, e deixava de aparecer-lhe nos dias que lhe convinha, sem que isso nela despertasse ciúmes ou enfados de despeito.

Sem o preclaro exemplo da minha comovida e amorosa castidade, não sei se poderia, apesar do empenho que pus em dirigir a felicidade de Palmira, ter evitado entre ela e o marido as ridículas contendas e as enervantes misérias do matrimônio. E com efeito — que bela lição de amor e que virtuoso exemplo de ventura não era esse casal de velhos, assim vivendo unidos só pelo coração e pelo espírito, sem jamais se fatigarem da presença um do outro, sem nunca precisar nenhum dos dois fingir nos seus sorrisos e nas suas palavras de ternura!... Ah! tínhamos sempre o que conversar, porque bem pouco falávamos de nós mesmos, o que eqüivale a falar dos nossos instintos ou dos nossos interesses materiais. Podíamos penetrar desassombradamente em todos os assuntos, discutir os pontos mais elevados da moral e da razão porque não nos tínhamos jamais incompatibilizado intelectualmente pelas grosseiras animalidades do corpo. Podíamos olhar-nos bem de face um para o outro, sem corar ou sem rir, porque éramos igualmente puros aos nossos olhos, porque nunca entre nós esvoaçou a asa do mais fugitivo menoscabo, e porque tínhamos sido sempre, na mocidade, e éramos e continuávamos a sê-lo na velhice, os mesmos amigos castos, os mesmos irmãos amorosos, cujas idéias e cujas revelações de gestos e palavras jamais foram postas entre nós ao serviço da luxúria e das vergonhosas e inconfessáveis imundícias da carne!

Oh! juro que eu era, como esposa, ainda mais feliz que minha filha, para cuja felicidade trabalhei eficazmente durante toda a minha vida de mulher.

Sim, fui e sou feliz, apesar da moléstia que me vai minando a existência. Sou agora, neste momento em que escrevo estas palavras, a mais venturosa das mães, a mais enternecida das avós e a mais bem-aventurada das esposas. Enquanto escrevo isto, sinto perto, bem perto de mim, o meu amigo amado, que aí está a dois passos, descansando numa poltrona, a fumar o seu charuto, enquanto lê um jornal. Ouço-lhe com volúpia o fraco e curto resfolegar de velho, afinado pela minha respiração de enferma e pela débil respiração do meu netinho. Sinto, pensando nisto, invadirem minha alma a paz e o amor que cercam os meus gemidos e os meus cabelos brancos... Sei que Palmira é feliz e sei que ela me ama; sei que meu genro me fará justiça e me amará um dia tanto quanto minha filha; sei que morrerei abençoada por eles e...

Mas não posso continuar a escrever: César acaba de levantar-se e vir ter comigo. Tomou-me a mão esquerda e disse-me com autoridade de médico:

— Bem! por hoje basta! Qualquer abuso de trabalho, minha amiga, pode prostrar-te de cama... Vamos antes dar um passeio pela chácara... A tarde está magnífica!

CAPÍTULO XXV

(continua...)

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