Por Franklin Távora (1878)
Dentre umas moitas emergiu então a alguns passos de Joaquina a rapariga, por quem ela acabava de chamar. Os matos tinham-lhe rasgado a coberta em que se envolvera na ocasião de fugir com medo do malfeitor.
Vinha chorando, e estava pálida, triste, tremula. Do grande susto o coração parecia querer sair-lhe pela boa. Ela semelhava rolinha espantada por tiro de caçador.
- Minha mãe! minha mãe! Que desgraça foi esta?
- Não podia ser maior, minha filha.
- Não fale assim, que ainda pode ser pior, minha mãe!
- Olha. Lá vai o malvado com tua irmã.
E Joaquina apontou para uma baixada, onde nesse momento apareceu o Tunda-Cumbe.
- E lá vai meu pai, lá vai meu pai já a pegar seu Manoel Gonçalves. Oh meu Deus! Que é que me está dizendo baixinho, minha mãe?
- Nada, Marianinha. estou rezando, para que Deus se lembre de nós neste cruel transe.
De repente, aquela mãe e aquela filha, como se tivessem a mesma impressão e a mesma idéia, ou se deixassem vencer pela mesma força intuitiva e fatal, deram alguns passos violentos para diante, com os olhos, para não escrevermos o coração, a alma, postos nos dois cavalheiros que corriam na baixada. Ambas tinham visto o que ia na frente, voltar arrebatadamente o animal e esperar o segundo; tinham visto este atirar-se para aquele com sua arma de fogo em uma das mãos e na outra o facão desembainhado; tinham ouvido a detonação de um tiro, á qual se seguira uma nuvem de fumo que envolveu os dois contendores.
Mas não se meteu muito que as mulheres recuaram espavoridas, levantando alto brado de dor, que atroou todo o deserto. O Tunda-Cumbe acabava de desaparecer no mato com sua presa, enquanto Victorino ficava caído na baixada, estorcendo-se nas convulsões da morte.
XXII
O engenho, que ainda defendido por Victorino, teria de render-se às armas numerosas e práticas dos agressores , não podia, na ausência dele, sustentar-se a não ser por poucos momentos.
De feito não era ainda de todo claro o dia, quando as portas da casa grande abalada em seus fundamentos caiam a poder de machados e por cima delas entravam em borbotões os malfeitores impacientes pelo saque.
Este foi feito com desabrimento incrível. Aquela malta de homens perdidos que, no rancho do Sipó, explorados pelo chefe, se haviam acostumado a odiar os nobres e a cobiçar os seus haveres, deparava enfim, depois de esforços e tentativas malogradas, ocasião oportuna para matar a sede de vingança e ouro que os abrasava. Para quase todos havia sabor especial nesta negra vitoria. A casa, que destruíam, saqueavam e humilhavam, era propriedade de João da Cunha, dentre os nobres o mais odiado, por ser talvez o mais poderoso e vingativo deles. Por isso destroem e aniquilam o que não lhes excita a ambição ou não podem conduzir em seus sacos. Moveis preciosos são jogados das janelas ao pátio, onde se despedaçam. Cada queda, cada destruição serve de objeto a indecentes motejos e dá lugar a indignos comentários. Enfim, longe iríamos se quiséssemos descrever as cenas aviltantes e lastimáveis que dentro de horas se representaram na aristocrática vivenda do sargento-mór.
Tinham eles dado com o deposito dos vinhos – a rica adega do fidalgo – e já se entregavam aos deliciosos espíritos, quando, trêmulos e aterrados, entraram correndo alguns dos espias que, por ordem do Tunda-Cumbe, estavam vigiando nos cantos mais importantes do cercado.
- Fujamos, fujamos, que ai vem uma grande força.
- Bem se dizia que ela havia de vir – disse Pedro de Lima.
- Vamos a seu encontro – gritou Gonçalo Ferreira.
- Não, não – replicou Pedro de Lima. ganhemos o mato sem demora. Quando tiver passado, iremoa atrás dela, que ficará entre dois fogos – o nosso, pela retaguarda, e o de Luiz Soares pela vanguarda. Luiz Soares a esta hora, se entrou pelo Tanquinho, já deve estar senhor da vila. Faremos a junção e queimaremos os pés-rapados um por um.
- Está dito.
‘Sair’ foi o grito que irrompeu de todos os peitos.
Ao grito seguiu-se o exemplo.
A força, como o leitor já deve ter compreendido, era a que Gil Ribeiro comandava.
Vendo da estrada abertas as portas e janelas do sobrado, espalhados pelo pátio os moveis, alguns dos quais, formando pequenos adjuntos, eram nesse momento presa das chamas, não pode Francisco acabar consigo que não fosse de perto verificar este lastimoso espetáculo.
Quando esbarrou na frente da casa e reconheceu a terrível verdade, uma idéia lhe atravessou o cérebro, iluminando-o como relâmpago. Esta idéia lhe dizia que a sua casa tinha sido abandonada por Lourenço e Marcelina, como o engenho lhe pareceu que o fora por João da Cunha.
- Eles não morreram. Estão todos no sobrado. Oh meu Deus! Permiti que assim seja.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.