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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

O primeiro movimento da população foi correr às igrejas! Já se imaginava ver os regimentos inimigos espalhando-se pelas ruas... Não creio mesmo que tivesse havido a ideia duma resistência séria. Disse-se, é certo, que tentaríamos dar uma batalha junto a Caminha, ou em Tancos, unicamente para mostrar à Europa que tínhamos ainda alguma vitalidade: mas era apenas uma demonstração, porque a ideia seria recolhermos às linhas de Torres Vedras e defender Lisboa. Eu, de resto, não estava nos segredos do Estado-Maior nem do Governo, e apenas sei o que se dizia nos grupos que enchiam as ruas, apavorados, falando baixo.

Nessa noite fui ao Rossio. O Nunes dava uma soirée... Na sala pesava a mesma tristeza soturna da rua. Havia nas faces, nas vozes, como que uma expressão desvairada de espanto e de terror: uma singular maneira de perguntar – então? com os olhos muito abertos nas faces pálidas...

Apesar de haver duas salas, a de visitas e uma outra onde se jogava, estavam todos aglomerados em redor do sofá, como um rebanho que sente o lobo... A dona da casa, que tinha um filho militar em Tancos, apesar do seu vestido azul, decotado, mostrava uma face de pasmo e os olhos vermelhos e inchados... Chorara todo o dia. E nas mulheres, nos homens, havia como que um abatimento invencível, na aceitação muda da derrota futura, na passividade inerte das almas fracas... Como não se sabiam notícias, os boatos eram absurdos; a todo o momento se faziam silêncios, silêncios lúgubres, que davam a sensação do recolhimento cerimonioso dos dias de enterro. O Nunes, coitado, muito pálido, ia ao acaso pela sala, com as abas da casaca a bater, esfregando nervosamente as mãos, querendo distrairnos daquelas preocupações dolorosas, propondo que se fizesse alguma coisa. Houve o pedido duma quadrilha... Sentou-se uma senhora ao piano, mas os primeiros compassos dos lanceiros soaram, perderam-se no sussurro geral das conversas apavoradas: ninguém tirou par –não se dançou... Alguém lembrou um jogo de prendas, uma charada figurada: faces espantadas sorriam, murmuravam com esforço:

– Vamos a isso, não era mau...

Mas ficava-se sentado, com as mãos inertes, os pés parados.

Eu vim para a sala de jogo conversar com alguns sujeitos. Havia jornalistas, magistrados, políticos, e agora, através das frases, sentia-se em todos, o abatimento das almas. Ninguém acreditava na resistência possível, e, diante do perigo, o egoísmo erguia-se feroz e brutal. O ódio ao inimigo era violento – menos pela perda possível da Pátria livre do que pelos desastres particulares que traria a derrota: um, tremia pelo seu emprego, outro, pelo juro das suas inscrições. Até aí o Estado dera o pão ao País, e na perda do Estado, via-se o fim do pão de cada dia. Mas esta indignação em frases parecia esgotar toda a quantidade de patriotismo que podiam dar aquelas almas: porque em cada proposta que sugeriam as frases aterradas – ceder as colónias em troco duma aliança inglesa imediata, ou fazer a cessão de duas províncias – havia, no fundo, a ideia imutável da capitulação, o horror da luta, a ansiedade de não perder o emprego, o terror de perder as inscrições! E, de resto, cada um, sentindo a fraqueza egoísta da sua alma, julgava instintivamente o País tomado do mesmo abatimento. A ideia dum levantamento em massa, da criação de uma guarda-móbil, de milícias, era recebida com um encolher de ombros: para quê? Não se pode fazer nada! Somos esmagados!.

Enquanto falavam assim, ao pé da mesa de jogo onde jaziam, esquecidas, as cartas do antigo voltarete pacato, cheguei-me à janela: todo o vasto céu estava toldado duma névoa esbranquiçada; mas sob o Arco do Bandeira alargava-se um grande espaço azul, como a entrada circular dum imenso pórtico, e no centro brilhava uma larga Lua triste, muda, lívida. A colina, ao lado, com o seu castelo, recortava em escuro a sua linha mole sobre a palidez azul do fundo. Uma tristeza imensa parecia cair daquela decoração. Invadiu-me a alma uma piedade vaga pelas desgraças pátrias, e, sem saber porquê, senti-me tomado duma saudade angustiosa, a saudade de alguma coisa que desaparecera, que findara para sempre e que eu não sabia bem o que era... Em baixo, o Rossio brilhava surdamente entre as linhas iluminadas das lojas: o largo, em torno da coluna, que o luar tocava dum traço pálido, negrejava de gente: nem um grito, nem uma voz... era uma massa escura, que parecia estar ali amodorrada, arrebatada no terror instintivo que congrega os animais, esperando resignadamente a tormenta; e das casas brancas, altas, desconsoladas, caía a mesma sensação de abstenção aterrada e de concentração egoísta num medo obscuro.

De repente, do lado da Rua do Carmo, veio um rumor: era como que uma melopeia ritmada, que se sentia, que vinha no ar, que se aproximava; luzes de archotes, destacando-se no caiado das casas, apareceram à esquina do Rossio, e um grupo desembocou, marchando vivamente, ao compasso dum hino patriótico, cujo ritmo o impelia, num passo largo:

Guerra, guerra, a guerra é santa,

Pela santa independência...

Eram talvez vinte e pareciam, de cima, da janela, pelos chapéus altos, serem rapazes das escolas ou de alguma das associações que então abundavam na cidade.

(continua...)

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