Por Eça de Queirós (1878)
- Mas muito bem conservado! - E os olhos luziam-lhe. uma mulher muito feliz!
- Muito...
- Um homem de apetecer! - suspirou D. Felicidade. E Luísa então:
- Tu esperas um instantinho? Vou lá dentro e volto já.
- Vai, filha, vai.
Luísa correu ao escritório, direita ao sarcófago. Estava vazio! E a carta dela, Santo Deus?
Chamou logo Juliana, aterrada.
- Você despejou o caixão dos papéis?
- Despejei, sim, minha senhora - respondeu muito tranqüilamente.
E com interesse:
- Por quê, perdeu-se algum papel?
Luísa fazia-se pálida.
- Foi um papel que eu atirei para o caixão. Onde o despejou você?
- No barril do lixo, como é costume, minha senhora; imaginei que nada servia...
- Ah! Deixe ver!
Subiu rapidamente à cozinha. Juliana atrás, ia dizendo:
- Ora esta! Pois ainda não há cinco minutos! O caixão estava mais cheio... Andei a dar umaarrumadela no escritório... Valha-me Deus, se a senhora tem dito...
Mas o barril do lixo estava vazio, Joana tinha-o ido despejar abaixo naquele instantinho; e vendo a inquietação de Luísa:
- Por quê, perdeu-se alguma coisa?
- Um papel - disse Luísa, que olhava em redor, pelo chão, muito branca.
- Iam uns poucos de papéis, minha senhora - disse a rapariga -, eu deitei tudo ao despejo.
- Podia ter ficado algum caído por fora, Sra. Joana - lembrou timidamente Juliana.
- Vá ver, vá ver, Joana - acudiu Luísa com uma esperança.
Juliana parecia aflita:
- Jesus, senhor! Eu podia lá adivinhar! Mas para que não disse a senhora?...
- Bem, bem, a culpa não é sua, mulher...
- Credo, que até se me está a embrulhar o estômago... E é coisa de importância, minhasenhora?
- Não, é uma conta...
- Valha-me Deus!...
Joana voltou, sacudindo um papel enxovalhado. Luísa agarrou-o, leu:-".. o diâmetro do primeiro poço de exploração..."
- Não, não é isto! - exclamou toda contrariada.
- Então foi pra baixo pra o cano, minha senhora; não está! mais nada.
- Viu bem?
- Esquadrinhei tudo...
E Juliana continuava, desolada:
- Antes queria perder dez tostões! Uma assim! Eu, minha senhora, podia lá adivinhar...
- Bem, bem! - murmurou Luísa descendo.
Mas estava assustada; sentia mesmo uma suspeita indefinida... Lembrou-lhe o bilhete que escrevera na véspera a Basílio, e que metera, todo amarrotado, no bolso do vestido... Entrou no quarto, agitada.
D. Felicidade tirara o chapéu, acomodara-se na causeuse.
- Tu desculpas, hem? - fez Luísa.
- Anda, filha, anda! Que é?
- Perdi uma conta - respondeu.
Foi ao guarda-vestidos; achou logo o bilhete na algibeira... Aquilo serenou-a. A carta tinha ido para o lixo, decerto. Mas que imprudência!
- Bem, acabou-se! - disse sentando-se resignada.
E D. Felicidade imediatamente, baixando a voz muito confidencialmente:
- Ora, eu vinha-te falar numa coisa. Mas vê lá! Olha que é segredo.
Luísa ficou logo sobressaltada.
- Tu sabes - continuou D. Felicidade, devagar, com pausas - que a minha criada, a Josefa, estápara casar com o galego... O homem é de ao pé de Tui, e diz que na terra dele há uma mulher que tem virtude para fazer casamentos que é uma coisa milagrosa... Diz que é o mais que há... Em deitando a sorte a um o homem entra-lhe uma tal paixão que se arranja logo o casamento e é a maior felicidade.
Luísa tranqüilizada, sorriu.
- Escuta - acudiu D. Felicidade -, não te ponhas já com as tuas coisas...
No seu tom grave havia um respeito supersticioso.
- Diz que tem feito milagres. Homens que tinham desamparado raparigas, outros que nãofaziam caso delas, maridos que tinham amigas; enfim toda a sorte de ingratidão... Em a mulher deitando o encanto, os homens começam a esmoecer, a arrepender-se, a apaixonar-se, e estão pelo beiço... A rapariga contou-me isso. Eu lembrei-me logo...
- De deitar uma sorte ao Conselheiro! - exclamou Luísa.
- Que te parece?
Luísa deu uma risada sonora. Mas D. Felicidade quase se escandalizou. Contou outros casos: um fidalgo que desonrara uma lavadeira; um homem que abandonou a mulher e os filhos, fugira com uma bêbeda... Em todos a sorte operara de um modo fulminante, produzindo um amor súbito e fogoso pela pessoa desprezada. Apareciam logo rendidos, se estavam perto; se estavam longe, voltavam, ávidos, a pé, a cavalo, na mala-posta, apressando-se, ardendo... E entregavam-se, mansos e humildes como escravos acorrentados...
- Mas o galego - continuava ela muito excitada - diz que para ir à terra, falar à mulher, levar oretrato do Conselheiro, é necessário o retrato dele, o meu, é necessário o meu; ir falar, voltar quer sete moedas!...
- Oh! D. Felicidade! - fez Luísa repreensivamente.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.