Por Eça de Queirós (1870)
Ela escutava-me em silêncio, extática, como que hipnotizada pela minha instintiva mascruel grossaria. De repente, sem uma exclamação, sem um grito, sem um ges to, caiu desamparadamente no chão, fulminada, inerte, como se estivesse morta.Quis chamar alguém, ia a tocar no botão de uma campainha, quando me ocorreu a inoportunidade de qualquer intervenção nes ta cena. Fui para ela, que ficara estirada decostas sobre o tapete. Levantei-lhe a cabeça. Não lhe senti o pulso. Ergui-a em peso, to mei-a nos braços. A fronte dela pendeu sobre o meu ombro, fican do perto dos meus lábios a sua face desmaiada.Aproximei-me de um sofá. Depois, por um sentimento supers ticioso de respeito, coloquei-a numa cadeira de braços, e corria os aposentos contíguos àquele em queestávamos. O quarto próximo era um gabinete de vestir. Trouxe um frasco de água-decolónia que estava num lavatório. Humedecilhe as fontes e os pulsos, fiz-lhe respirar o álcool. Auscultei-a. O coração começava a bater. O pulso reaparecia.Eu tinha-me ajoelhado junto da poltrona em que ela jazia e contemplava melancolicamente a sua figura exânime.
Os olhos cerrados, a boca entreaberta deixando ver os dentes miúdos e cor de pérola, acabeça reclinada no espaldar, davam ao seu rosto, assim em escorço, a expressão de uma figura de anjo, as cendendo de um túmulo. Os pés estreitos e finos, calçados em meias deseda e sapatos de cetim preto, sobressaíam da orla do ves tido numa imobilidade sepulcral. Uma das mãos, através de cuja lividez se via a rede ténue e azul das veias, tendo no dedo anular um círculo de grossos brilhantes entremeados de rubis, repousa va-lhe no regaço, e doseu roupão de rendas pretas exalava-se o mesmo perfume, o perfume dela, que me ficara na mão a primeira vez que a vi.Lembrei-me então da sua figura entrevista de noite, ao gás de um candeeiro dama, tomada a ver depois, à luz do dia, no Rossio, passando em carruagem descoberta. E estas coisas, tão vivas na minha lembrança, faziam-me, todavia, a impressão de haverem passadohá muitos anos.
Ela estava velha!Muitos dos seus cabelos, secos, baços, como mortos, tinham embranquecido nas fontes e no alto da cabeça.
A contracção violenta de todos os músculos da dor transfor mara numa só noite as suasfeições e desfigurara a sua fisionomia. Os cantos da boca tinham descaído ao peso das lágrimas como ao peso dos anos, e dois vincos profundos sulcavam-lhe as faces flácidas namesma direcção oblíqua que tinham tomado os sobro lhos, riscando-lhe a testa em rugas curvilíneas, miúdas e trans versais.
Que medonha, que tenebrosa, que incomparável angústia de via ter passado emalgumas horas por este desgraçado corpo para o devastar assim!
Na rua, a pequena distância, um realejo tocava um pot-pourri de várias óperas, e, aosom desse corrido martelar idiota da mú sica mecânica, pareceu-me ver desfilar em louca debandada no ar, entre mim e a pobre senhora, como numa espécie de evocação ao mesmo tempo trágica e grotesca, todos os grandes símbolos das educações sentimentais, ladainha viva das paixões elegantes, girando sob a manivela desse realejo, num redemoinho fúnebre, de dança dos mortos, em torno desse corpo desfalecido, como as visões da vida passada, figuradas nos velhos retábulos, em torno do leito das monjas moribundas.Era como se, no decorrer dessa música, automática como um andar de sonâmbulo, eu visse perpassar no espaço a grande ron da das tentações que na vida levaram consigo o destino desta criatura; os pálidos Manriques e os febris Manfredos, trazendo sob a capa daspoéticas aventuras a bravura cavaleirosa de campeador Rui de Bivar ou do paladino
Rolando, a melancolia de Hamlet, a exaltação sentimental de Werther, a revolta do Fausto, asaciedade de D. João, o tédio de Childe Harold; e toda a legião dramática das belas mulheres amadas: Francesca, Margarida, Julieta, Ofé lia, Virgínia e Manon.
E, em grinaldas de beijos secos, de beijos de pau, matraquea dos no instrumento dama,todas essas figuras de amorosas legen das bailavam misteriosamente ao som da Traviata, da Lúcia, do Ballo in maschera.
«Amor! amor! amor!», tal foi decerto a letra da grande ária que constantemente lhecantaram através de toda a sua existência de mulher bela, elegante, instruída e rica.
Foi nesse mundo moral que a sua imaginação habitou e que se fez o seu pobre espíritode linda criatura ociosa e desejada. Como poderia ela adivinhar a honesta serenidade dos destinos simples no meio de umaexistência tão complicadamente artificial como a sua? Fora dos interesses da elegância, da moda, talvez da arte, que conhecia ela de sério e de grave na vida, senão a religião e o amor? Tinha um missal és um marido. É pouco para oequilíbrio de uma alma, principalmente desde que o missal cessa de convencer e o marido cessa de amar.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.