Por Eça de Queirós (1901)
E tanta energia lhe comunicava o seu novo Otimismo, tão ansiosamente aspirava a criar, que logo, arrastando o Silvério e o Melchior pôr cabeços e barrancos, largou a percorrer a Quinta toda, para determinar onde cresciam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e se ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os currais elegantes. Com a esplêndida segurança dos seus cento e nove contos de renda, não surgia dificuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou exclamada, com respeitoso pasmo, pelo Silvério, que ele não afastasse brandamente, com jeito leve, como um galho de roseira brava atravessado numa vereda.
Aquelas rochas, além, empecendo? Que se arrancassem! Um vale importuno dividia dois campos? Que se atulhasse! O Silvério suspirava, enxugando sobre a escura calva um suor quase de angústia. Pobre Silvério! Rijamente sacudido na doce pachorra da sua administração, calculando despesas que se afiguravam sobre-humanas à sua parcimônia serrana, forçado a arquejar, sem descanso, sob soalheiras de Junho, o desgraçado retomara na Serra o jeito que Jacinto deixara em Paris – e era ele que corria pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados... Enfim uma tarde desabafou comigo, a um canto da varanda, enquanto Jacinto, na livraria, escrevia a um seu amigo de Holanda, o conde Rylant, Mordomo-Mor da Corte, pedindo desenhos, e planos, e orçamentos duma queijeira perfeita.
-Pois, Sr.Fernandes, se toda esta grandeza vai pôr diante, sempre lhe digo que o Sr. D. Jacinto enterra aqui na serra dezenas de contos,,, Dezenas de contos!
E como eu aludia à fortuna do meu Príncipe, a quem todas essas obras tão vastas, que alterariam o antiquíssimo rosto da serra, não custavam mais que a outros o conserto dum socalco – o bom Silvério atirou os longos braços para as coxas, ainda mais desolado:
-Pois pôr isso mesmo, Sr. Fernandes! Se o Sr. D. Jacinto não tivesse a dinheirama, recuava. Assim, é zás, para diante; e eu não o censuro pela idéia. Lograsse eu a renda de S. Exª, que me atirava também a uma lavoura de capricho. Mas não aqui, Sr. Fernandes, nestas serranias, entre alcantis. Pois um senhor que possui aquela linda propriedade de Montemor, nos campos de Mondego, onde até podia plantar jardins de desbancar os do Palácio de Cristal do Porto! E a Veleira? Isso é um condado! E uma terra chã, boa terra, toda junta, ali em volta da casa, com uma torre. Um regalo, Sr. Fernandes. Mas sobretudo Montemor! Lá é que eram prados e manadas de vacas inglesas, e queijeira e horta rica, de fartar, e aí trinta perus na capoeira...
-Então que quer, Silvério? O Jacinto gosta da serra. E depois este é o solar da família, e aqui começaram no século XIV os Jacintos...
O pobre Silvério, no seu desespero, esquecia o respeito devido à secular nobreza da casa.
-Ora! até ficam mal ao Sr. Fernandes essas idéias, neste século da liberdade... Pois estamos lá em tempos de se falar em fidalguias, agora que pôr toda a parte tudo em República? Leia o Século, Sr. Fernandes! leia o Século, e verá! E depois eu sempre quero ver o Sr.D. Jacinto, aqui no Inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela manhã, e a friagem a traspassar os ossos, e ventanias que atiram carvalheiras de raízes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a serra!... Olhe, até mesmo pôr amor da saúde o Sr. D. Jacinto, que é fraquinho e acostumado à cidade, necessita sair da serra. Em Montemor, em Montemor é que Sua Exª estava bem. e o Sr. Fernandes, tão amigo dele e assim com tanta influência, devia teimar, e berrar, até que o levasse para Montemor.
Mas, infelizmente para quietação do Silvério, Jacinto lançara raízes, e rijas, e amorosas raízes na sua rude serra. Era realmente como se o tivessem plantado de estaca naquele antiquíssimo chão, de onde brotara a sua raça, e o antiquíssimo húmus refluísse e o penetrasse todo, e o andasse transformando num Jacinto rural, quase vegetal, tão do chão, e preso ao chão, como as árvores que ele tanto amava.
E depois o que o prendia à serra era o Ter nela encontrado o que na Cidade, apesar da sua sociabilidade, não encontrara nunca – dias tão cheios, tão deliciosamente ocupados, dum tão saboroso interesse, que sempre penetrava neles, como numa festa ou numa glória.
Logo de manhã, às seis horas, eu, no meu quarto, mexendo ainda regaladamente o meu corpo nos colchões de fresco folhelho, sentia os seus rijos sapatões pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas ditoso como o dum metro. Em poucos instantes escancarava com fragor a minha porta, já de chapéu desabado, já de bengalão de cerejeira, disposto com reservado fervor para os trilhos conhecidos da serra. E era sempre a mesma nova, quase orgulhosa:
-Dormi hoje deliciosamente, Zé Fernandes. Tão bem, com uma tal serenidade, que começo a acreditar que sou um justo! Um dia lindo! Quando abri a janela, às cinco horas, quase gritei de puro gosto!
Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando eu repetia a risca mal começada do cabelo, aquele antigo homem das trinta e nove escovas protestava contra esse desbarato efeminado dum tempo devido aos fortes gozos da terra.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.