Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

Ele queria dar a entender como não tendo escrito coisa alguma, o fato do rapaz não ter publicado artigos nos jornais ou feito mesmo a reportagem dos Telégrafos. O pensamento comum dos empregados em jornais é que eles constituem, formam o pensamento do nosso país, e não só o formam, mas "são a mais alta representação dele". Fora deles, ninguém pode ter talento e escrever, e, por pensarem assim, hostilizam a todos que não querem aderir à sua grei, impedem com a sua critica hostil o advento de talentos e obras, açambarcam as livrarias, os teatros, as revistas, desacreditando a nossa provável capacidade de fazer alguma coisa digna com as suas obras ligeiras e mercantis.

Por acaso, se o trabalho consegue vencer a hostilidade de semelhante gente, sempre cheia de preconceitos, eles ficam a matutar, pois não admitem esforço e honestidade intelectual em ninguém: de quem o autor copiou?

Os mais hábeis daqueles que estão de fora, porém, quando premeditam a infame ousadia de publicar, arranjam preliminarmente relações de amizade nos jornais, de modo a obter um bom acolhimento para o seu trabalho. Isso acontece com os de pequeno nascimento, com os que vêm dos Estados; mas autor que nasceu no Rio, de certa camada, que tenha títulos e empregados, pode estar seguro que a critica anônima dos jornais lhe será unânime em elogios e animação.

N'O Globo, as coisas corriam assim. O secretário recebia o volume e dava-o a Floc. Quimera, romance, Abílio Gonçalves, lia Floc alto, e logo perguntava:

— Quem é este Abílio Gonçalves?

— Não conheces? É o filho do senador Gonçalves, de São Paulo.

Floc olhava outra vez o livro e voltava:

— É formado?

— É, retorquia Leporace; é engenheiro de minas.

— Hum! fazia Floc com segurança, mudando a primitiva antipatia que se lia na contração dos lábios, para um breve sorrir de benevolência.

No dia consagrado, o folhetim aparecia cheio de blandícias, de elogios, fosse o livro bom ou mau, fosse o pai senador da oposição ou do Governo.

Houve uma ocasião em que Floc, para mais erguer o filhote criticado, forjou um elogio de um autor francês como tendo sido feito a um livro que aparecera há duas semanas no Rio de Janeiro.

Se o nome do autor era obscuro, se as informações colhidas lhe não davam de pronto um estado civil decente, Floc adiava a notícia e esperava que os grandes nomes da critica se pronunciassem. Se eram favoráveis ao livro, ele repetia os elogios, ampliava as observações; se eram desfavoráveis, 0 elegante e viçoso critico dava curso à sua natural hostilidade aos nomes novos que não surgiam nos jornais. Havia, porém, uma casta de autores, que ele sempre elogiava; eram os diplomatas. Um destes senhores publicou certa vez uma compilação de naturalistas e de receitas agrícolas com fingimentos de Maeterlinck, sobre as frutas nacionais. Floc não se conteve: desandou um folhetim inteiro sobre o volume, elogiando a sua virtuosidade artística, o seu estilo límpido e sereno, mostrou o pensamento panteístico que o animava, só porque o primeiro secretário da Legação de Caracas dissera que o mamão era terno e resignado.

Dado que o livro tratasse do assunto que ele desconhecesse inteiramente, o processo era outro. Ele fazia como o abissínio faz com o boi em que viaja montado: tirava pedaços da própria obra e criticava.

Eu não quis dizer tudo isso ao poeta de Anelos. Era melhor mantê-lo na ilusão de que pudesse haver alguma independência e espontaneidade no julgamento dos jornais; e quando Floc chegou, com o seu grande queixo atirado para diante como um aríete e os seus bigodes de azeviche, dei-lhe o livro. Depois de manuseá-lo um instante, falou com azedume:

— Que nome! Félix da Costa! Parece até enjeitado! É algum mulatinho?

— Não. É mais branco que o senhor. É louro e tem olhos azuis.

— Homem, você hoje está zangado...

Ele não compreendia, que eu também sentisse e sofresse.

E arredou o livro para a ponta da mesa e pôs-se a escrever. Era a sua tortura; era o seu

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5960616263...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →