Por Raul Pompéia (1888)
Graças ao estudo do outro ano, alcancei sofrivelmente o meu atestado de vernaculismo, garantido pela competência oficial; graças também às tinturas do latim, em que me iniciara o padre-mestre Frei Ambrósio, respeitável, de nariz entupido, gesticulando com o Alcobaça, rezando a artinha com a entonação oca e funda das missas contadas, consumidor de rapé por um convento, culpado, assim, de cheirar-me ainda hoje a Paulo Cordeiro o magnífico idioma do qui, quoe, quod, e produzir-me espirros uma simples reminiscência de Salústio.
Era costume no Ateneu licenciar-se um pouco do regimento da casa a estudante de certa ordem, que estivesse em véspera de exame. Saia-se então para o jardim com os livros e a comodidade do trabalho a bel-prazer. Companheiros sempre, aproveitávamos, eu e o Egbert, com toda vontade, a regalia consuetudinária. Antes da data memorável do francês, muito passeamos pelas avenidas de sombra Chateaubriand, Corneille, Racine, Molière. O teatro clássico dava para grandes efeitos de declamação. Quanta tragédia perdida sobre as folhas secas! Quanto gesto nobre desperdiçado! Quantas soberbas falas confiadas à viração leviana e passageira!
Um era Augusto, outro Cina; um Nearco, outro Poliúto; um Horácio, outro
Curiácio, D. Diogo e o Cid, Joas e Joad, Nero e Burro, Filinto e Alceste, Tartufo e Cleanto. O arvoredo era um cenário deveras. Dialogávamos, com toda a força das encarnações dramáticas, a bravura cavalheiresca, o civismo romano, as apreensões de rei ameaçado, o heroísmo da fé, os arrufos da misantropia, as sinuosidades do hipócrita. Uma estátua de deusa anônima, de louça esfolada, verde de velhice, constituía o auditório, auditório atento fixamente, comedido, sem demasias de aplauso nem reprovação, mas constante e infatigável.
Para o desempenho dos papéis femininos havia dificuldades; cada um queria a parte mais enérgica do recitativo. Tirava-se a sorte; e, segundo o acaso, um de nós ou o outro enfiava sem cerimônia as saias de qualquer dama e ia perfeita a toilette do sentimento, noivado de Chimène, desespero de Camila, luto de Paulina, ambição de Agripina, soberania de Ester, astúcia de Elmira, dubiedade de Celiméne. Outro papel custoso de distribuir era o de Burro, papel honesto, entretanto, e altamente simpático. Ninguém o queria fazer, o virtuoso conselheiro de Nero.
Melhor que a prerrogativa do estudo livre era uma espécie de prêmio, não catalogado nos estatutos, com que Aristarco gentilmente obsequiava os distintos.
Levava-os a jantar em sua casa, uma honra! à mesma toalha com a Princesa Melica, dos olhos grandes.
Quis o bom fado que obtivéssemos, os dois amigos, a prezada nota, e, registre-se perene! examinados pelo Professor Courroux, o tremendo Catão das bolas pretas, terror universal dos bichos!
O diretor recebeu-me da Instrução com um abraço contrafeito de estilo; percebi que ainda escorria a fístula dos ressentimentos. Convidado Egbert, força era que o fosse eu também, e o fui, de mi vontade, por fórmula. Cumpria-me forjar pretexto e recusar o convite, mas atraia-me certo número de curiosidades, por exemplo: ver como comia a Melica, uma coisa de subido interesse.
Lembro-me, entretanto, que havia f ores sobre a mesa, que estava a queimar a sopa; não reparei sequer se esteve presente a filha rio diretor.
Uma atenção absorveu-me exclusiva e única. D. Ema reconheceu-me: era aquele pequeno das madeixas compridas! Conversou muito comigo. Um fiapo branco pousava-me ao ombro do uniforme; a boa senhora tomou-o finamente entre os dedos, soltou-o e mostrou-me, sorrindo, o fio levíssimo a cair lentamente no ar calmo... Estava desenvolvido! Que diferença do que era há dois anos. Tinha idéia de haver estado comigo rapidamente, no dia da exposição artística...
— Um peraltinha! Interrompeu Aristarco, entre mordaz e condescendente, de uma janela a cujo vão conversava com o Professor Crisóstomo.
Eu quis inventar uma boa réplica sem grosseria, mas a senhora me prendia a mão nas dela, maternalmente, suavemente, de tal modo que me prendia a vivacidade também, prendia-me todo, como se eu existisse apenas naquela mão retida.
Depois da interrupção de Aristarco, não sei mais nada precisamente do que se passou na tarde.
Miragem sedutora de branco, fartos cabelos negros colhidos para o alto com infinita graça, uma rosa nos cabelos, vermelha como são vermelhos os lábios e os corações, vermelha como um grito de triunfo. Nada mais. Ramalhetes à mesa, um caldo ardente, e sempre a obsessão adorável do branco e a rosa vermelha.
Estava a meu lado, pertinho, deslumbrante, o vestuário de neve. Serviam-me alguns pratos, muitas carícias; eu devorava as carícias; Não ousava erguer a vista. Uma vez ensaiei. Havia sobre mim dois olhos perturbadores, vertendo a noite. Parece que me olhava também, não tenho certeza, do outro lado, por entre as flores, o Professor Crisóstomo.
Empossado no seu grande orgulho, que mesmo em casa fazia valer, Aristarco presidia: tão alto, porém, e tão longe, que dir-se-ia um ausente.
De volta ao Ateneu, senti-me grande. Crescia-me o peito indefinidamente, como se me estivesse a fazer homem por dilatação. Sentia-me elevado, vinte anos de estatura, um milagre. Examinei então os sapatos, a ver se haviam crescido os calcanhares. Nenhum dos sintomas estranhos constatei. Mas uma coisa apenas:
(continua...)
POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.