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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

. ..E só agora, três dias depois da partida do Zuza, é que Maria do Carmo sentia a dor do seu abandono, ao mesmo tempo que adquiria a certeza esmagadora de que estava para ser mãe; sim, para ser mãe de um filho espúrio, concebido num momento de desvario, mal acordada de um pesadelo horrível. Era demais, era! Se dissesse que ela tinha deixado o seu quarto para ir ter à rede do padrinho, oferecendo-se-lhe como uma fêmea desavergonhada, vá; era justo que caísse sobre si toda a cólera dos homens, mas, ao contrário, ele, o infame do padrinho é que fora alta noite ao seu quarto, provocar-lhe, impor-lhe, para bem dizer, uma coisa daquelas, e ela, coitada, tão inexperiente, tão tola que nem ao menos tivera coragem para dar um escândalo, expulsando-o, como se expulsa um ladrão, dandolhe com a mão no focinho, embora com sacrifício de sua vida.

Chegavam a seus ouvidos, indistintamente, como um surdo rumor de cochichos, os ecos de maledicência. Na Escola Normal as outras raparigas atiravam-lhe indiretas fortes, que ela já não tinha ânimo de repelir como dantes.

Viam-na triste, para um canto, muito desconfiada, com grandes olheiras. Todas notavam as alterações de sua fisionomia, e certo desleixo no trajar, que faziam dela uma outra Maria do Carmo, albardeira e insociável, inimiga da convivência das companheiras, egoísta, intratável.

— Aquilo é coisa... comentavam maliciosamente as normalistas. A Maria viu alma do outro mundo, não é possível.

— Que o quê, menina, são desgostos de família. Dizem que o padrinho a maltrata.

— Quem, o João da Mata? Um grandíssimo miserável. Daí talvez seja isso mesmo.

— Não se iludam, meninas, insinuou a zarolha, a Maria ficou assim depois que o Sr. Zuza foi-se embora. Ela dantes era até uma rapariga muito alegre, vocês não se lembram?

— Coisas deste mundo, mulher, coisas deste mundo. Ninguém deve fazer mau juízo das pessoas.

O diretor um dia maltratou-a. Ao chegar viu desenhada na pedra da aula, a giz, uma obscenidade. Ficou furioso, disse muitas grosserias às raparigas e quis saber quem era a autora de semelhante indecência.

Silêncio profundo. Ninguém se atrevia a responder.

— Tenham a bondade de dizer quem fez isto! repetiu o diretor, e, de relance, viu, na última fila, um dedo que apontava para Maria do Carmo. — Ah! foi a senhora, D. Maria do Carmo?

Maria empalideceu.

— Eu, não senhor!

— Tenha a bondade, faça o favor de vir apagar isto.

— Mas não fui eu, Sr. diretor, tornou ela erguendo-se.

— Embora, venha sempre: a senhora paga pelas outras.

— Não senhor, não posso responder por uma falta que não cometi.

— Não vem?

— Não senhor.

Toda a aula estava voltada para Maria do Carmo, medindo-a de alto a baixo, como se vissem nela uma transfiguração extraordinária.

— Então a senhora não vem? repetiu o homem fazendo uma carranca medonha.

— Não senhor...

— Retire-se da aula! fez ele apontando a porta. A senhora é uma insubordinada, desobedeceu à primeira autoridade deste estabelecimento. Vamos, retire-se!

Houve um silêncio grave, e Maria, tomando os livros, séria e resignada, sem olhar para as colegas, retirou-se taciturna, ouvindo atrás de si o atrito da esponja na pedra.

E tudo mais era assim, sucediam-se as contrariedades como um castigo. Crescia-lhe na alma o desgosto, como uma nuvem que sobe no horizonte vagarosamente alastrando pouco a pouco toda a vasta cúpula do céu para se desfazer em chuva caudalosa. Tinha pena de não ser, como as “outras mulheres”, indiferente a tudo, até nos momentos mais difíceis da vida. Vinham-lhe às vezes alegrias intermitentes, uma resignação infinita animava todo seu ser, e dispunha-se a enfrentar todas as conseqüências do seu desatino com uma calma heróica, sem dar mostra da mais leve tristeza.

Nesses momentos abria-se em efusões de ingênua bondade para com D. Terezinha, procurando-a, puxando conversa, oferecendo-se-lhe para pentear o cabelo, gabando-lhe os vestidos, com uma humildade de escrava. Mas a madrinha, seca e indomável, aborrecia-se com aquilo, enfadava-se, sempre de cara fechada, respondendo por monossílabos às perguntas da afilhada. Quando amanhecia malhumorada, com as suas desconfianças, enquizilava-se demais. — “Deixe-me, criatura, deixe-me, por amor de Deus, oh!” Maria não dizia palavra, recolhia-se ao silêncio do seu quarto a costurar ou a ler o Almanaque das senhoras por desfastio, para se distrair.

Entretanto João da Mata progredia no vício de beber aguardente. Andava agora muito chegado ao Perneta e ao Guedes, de quem se dizia amigo do coração.

A bodega do Zé Gato continuava a ser o ponto de suas reuniões, onde se demoravam às vezes até alta noite a jogar a bisca num esquecimento absoluto de família e de deveres, saturados de álcool, lívidos à luz de um miserável candeeiro de querosene. O triste ordenado que lhes pingava no bolso em cada fim de mês escorria-lhes por entre os dedos como azougue, transformando-se em fichas na banca do jogo e desaparecendo como por encanto, sem que eles próprios soubessem como.

Quantas vezes sucedia entrar em casa sem um real no bolso para mandar à feira no dia seguinte!

(continua...)

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