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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Sentia o peito dilatar-se a cada pensamento elevado, o coração tinha sobressaltos entusiásticos que não permitiam descanso aos nervos excitados. O movimento e a ação tornavam-se necessários como diversão à atividade desordenada do espírito, o alvoroço interior tinha de traduzir-se forçosamente na agitação externa. Mal percebeu que raiava o dia, saltou fora da rede, e foi acordar Macário que roncava todo envolvido nas varandas da maqueira.

Abrindo a porta do quarto, que dava para o terreiro, entrou por ela o dia, um esplêndido dia de agosto, cheio de vozes de pássaros na floresta e de ruído de peixes no rio. O sol parecia sair de um banho voluptuoso com os raios brilhantes mitigados pelas umidades da atmosfera, impregnada de vapores aquosos que surgiam do Canumã. As árvores, o capinzal, o terreiro estavam cobertos de abundante orvalho. As árvores da beirada recendiam. A natureza amazônica revivia com mais pujança aos beijos do sol bem-amado.

Padre Antônio exaltado por um sentimento religioso ante o espetáculo daquela manhã, dirigiu-se ao porto a chamar os camaradas, que deviam ter pernoitado na canoa. Na superfície calma e lisa do lago, na esteira sombria do furo do Uraná, abrigado da luz matutina pelas árvores da beira, nenhuma embarcação se divisava. O porto estava deserto. O vigário e o sacristão, numa terrível ansiedade, correram pela margem, chamando em altas vozes os remeiros pelos nomes, mas somente o eco lhes respondia, o eco da outra banda, entrecortado pela gargalhada zombeteira da maritaca.

A situação era clara como o dia que se levantava por entre os aningais da vargem.

Os tapuios haviam fugido na igarité de padre Antônio, levando-lhe a roupa, as previsões, tudo.

Passados os primeiros assomos de indignação e o abalo da surpresa, o sacristão a custo continha 'a alegria, apesar da perda da roupa e de um belo chicote de tabaco de Irituia, furtado pelos camaradas. O João e o Pedro teriam sido perfeitos e mereceriam todos os aplausos se tivessem esquecido à beira da água a roupa e o tabaco. Mas, em todo o caso, que valia um tal prejuízo em comparação com o malogro da insensata tentativa do senhor vigário? Logo que voltasse a Silves iria ao tenente Valadão, queixar-se do furto, e obteria a reparação do agravo, apesar da moleza habitual do subdelegado. Macário era esperto e havia de descobrir o paradeiro dos ladrões, ainda que tivesse de recorrer à Chica da Beira do Lago para fazer a sorte do balaio. Descobriria tudo porque os maués eram uns pacovas sem habilidade alguma, capazes de ir oferecer a igarité ao próprio Valadão. Então Macário vestiria a sua roupa e fumaria o seu tabaquinho cheiroso do Tapajós muito a salvo dos tais mundurucus, gente da sua especial ojeriza, se gente se podia chamar. Isto de missões e catequeses não fora feito para um homem pacato e temente a Deus, que nada mais queria do que levar a sua vida descansada. Metera-se a acompanhar a V. Rev.ma naquela inaudita excursão pastoral, pelo receio de perder com a recusa o emprego rendoso e cômodo. Mas desde que a Providência arranjara tudo do melhor modo, com um macavelismo invejável, salvando o amor-próprio do padre e livrando o sacristão de ser comido por selvagens, o que na verdade era pior do que perder dois ternos de riscadinho e um chicote de tabaco, Macário devia, como bom cristão, curvar-se ao decreto divino e resignar-se à modesta ventura de não vir a figurar no calendário romano. Não devia imitar o desespero de padre Antônio de Morais, que cismava encostado a uma árvore do porto, com o olhar embebido na superfície do lago, procurando ali a solução de um problema insolúvel. Para Macário estava claro. Não havia outra solução senão voltar para Silves. Para cortejar a dor do senhor vigário, como moço bem-criado, mostrou-se contrariado com o resultado daquela infeliz viagem. Tomou um ar de resignado desgosto e um tom de irremediável pesar:

— Então, senhor padre vigário, não há remédio senão voltar para a vila?

— Não, nunca! exclamou padre Antônio, como se acabasse de tomar uma resolução enérgica.

E vendo o efeito da negativa no rosto de Macário, desculpou-se:

— E como voltar sem canoa?

— E como continuar a viagem sem canoa? perguntou o sacristão meio desanimado.

— Deus Nosso Senhor providenciará, sentenciou padre Antônio, com muita confiança.

(continua...)

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