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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Uma hora depois Lourenço e Marcelina tomavam para o Bujari. Não se meteu muito que o padre Antonio com seu escravo José deixou como eles a estrada, seguindo porém diferente direção. Era madrugada velha quando entrou pelo Cajueiro o Tunda-Cumbe com sua gente. Pedro de Lima bateu com o coice do bacamarte sobre a porta da casa de Francisco, e como daí ninguém lhe respondeu, foi ele o primeiro que pôs fogo nela. Outros bandidos o imitaram, tomados da volúpia feroz que caracteriza os celerados. A casa do padre foi poupada por ser de quem era. Mal sabiam eles que poucas horas antes tinham voltado daí, inteiramente frustrados em sua expectativa e sem poderem explicar o fato que profundamente os contrariaria, dois parciais dos mascates mandados por Antonio Coelho com todo o necessário para acompanharem o padre à Paraíba.

Ao clarão do incêndio, penetraram os malvados na mata, caminho do engenho, supondo que iam surpreender o sargento-mór. Este porém, advertido desde muitos dias atrás por diferentes circunstâncias, suspeitas e até boatos, tinhase passado àquela tarde para o sobrado que costumava ocupar, quando festas publicas ou negócios particulares exigiam a sua estada temporária na vila. Marcelina e Lourenço, não tendo encontrado a família na casa grande, foram reunir-se com ela em Goiana.

O sobrado estava situado no quarteirão fronteiro à igreja do Carmo. Ficava olhando para o cruzeiro de pedra que aí se vê e do qual se diz que em seus alicerces se acha enterrado grande tesouro destinado pelo instituidor à reedificação do convento, se suceder que venha a cair em ruínas.

Esta tradição existia já em 1711 porque, por ocasião de um dos oitos motins de que, durante a guerra dos mascates, foi teatro Goiana, um bando da gente do Tunda-Cumbe atirou-se ao cruzeiro, e a uso dos vândalos, que tudo destruíam, mutilou parte da larga e solida peanha, sobre a qual ainda hoje se mostra assente a cruz, e fez profundas escavações, afim de ver se davam com o cabedal oculto. Não se sabe se a sua expectativa foi satisfeita ou iludida. Neste ponto a tradição anda adiante.

Com o sargento-mór tinha ido para Goiana grande parte da escravatura; o restante ficara no engenho para o guardar e defender, sob as ordens de alguns moradores, entre os quais se apontava o Victorino, cuja intrepidez era por todos conhecida. A mudança fora súbita.

Quando a coluna invasora chegou ao engenho, já era aí esperada; e por isso foi recebida com todas as honras. A defesa tinha sido bem organizada por Victorino e seus companheiros. A casa grande semelhava uma cidadela fortificada. Mas, infelizmente, o animo que sobejava nos moradores, faltava nos escravos. Enquanto aqueles faziam prodígios de valor, estes defendiam as entradas frouxamente. Dentro em pouco tempo conheceram os assaltantes, superiores aos assaltados não só em numero, mas no manejo das armas, que a praça não tardaria em cair debaixo do seu poder. Cônscio desta verdade, o Tunda-Cumbe chamou de parte o Padre Lima e o Gonçalo Ferreira, deu-lhes ordens à puridade, e, pondo as pernas ao cavalo, desapareceu por entre uns canaviais que do lado direito vinham morrer no cercado. Victorino, que de uma das janelas tinha debaixo das vistas o movimento inimigo, viu aos primeiros clarões do amanhecer, tomar o caminho de sua casa o chefe da quadrilha.

Não foi preciso mais para compreender a intenção do bandido.

A honra de suas filhas, único tesouro, único dote delas e principal orgulho da família, afigurou-se-lhe, não sem razão, ameaçada de iminente desastre. O almocreve esqueceu o sobrado pela palhoça. Naquele estava uma fortuna de grande valor, consistente em jóias, moveis e outros muitos objetos preciosos; nesta havia a pureza de duas graciosas donzelas, que representavam a seus olhos anos de trabalho, de sacrifícios, e de bem querer. Em seu coração, em sua alma, tinham muito mais peso os risos gentis, as graças meigas, o amor modesto, de Marianinha e Bernardina, do que toda a prata, todo o ouro, todos os brilhantes de João da Cunha e de d. Damiana. Victorino desceu a modo de impelido por sopro de tempestade, montou em seu cavalo, que, por cautela, retivera amarrado no vão do sobrado, e por uma aberta que fez na cavalariça pode ganhar os canaviais sem ser visto pelos assaltantes.

Antes de chegar à casa, encontrou-se com Joaquina que já vinha, como louca, em procura dele.

- - Corre, corre, Victorino, que talvez ainda pegues o malvado, o Tunda-Cumbe, que nos vai roubando a nossa filha, gritou a pobre mulher, os cabelos desgrenhados, as faces cobertas de lagrimas, e no semblante os traços violentos do maior desgosto que ela tinha sentido até esse momento na vida. Eu tudo vi da casa grande, disse ele. Miserável!

E logo acrescentou, descobrindo umas cinquenta braças adiante de se o Tunda-Cumbe, já a perder-se de vista, pela veloz corrida do cavalo, por entre o mato com a Bernardina atravessada sobre as pernas:

- Ou tu me matas, ou tu morres!

- Ah! minha filha, minha querida filha! dizia Joaquina, carpindo-se na sua grande aflição. E onde está Marianinha? Ó Marianinha? chamou a agoniada mãe.

(continua...)

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