Por Franklin Távora (1876)
— Que diz, Leonor? Ele é um grande assassino. Sua mão tem derramado rios de sangue inocente. Os monstros não tem entranhas mais cruas do que as dele.
— Pobre moço! Para atestar que seu coração não é tão mau, nem sequer lhe vale a expressão de bondade que tem no rosto ! Escute, Cristóvão. Conversávamos aqui há pouco eu e dona Catarina; Gonçalo Pais estava ao nosso lado. Senão quando vieram trazer-nos delícias e despertar em nós saudades comoventes os sons que o prisioneiro extrai com rara delicadeza de seu inspirado instrumento.
Dona Catarina manifestou então grandes desejos de o conhecer.
— E que fizeram ?
— Descemos ao quintal acompanhadas de Gonçalo. Assim que nos viu, ele levantou-se, e nos saudou respeitosamente. "Continue a tocar, Cabeleira", disse-lhe eu. "Ah, senhora, mal posso pegar na viola. Além disso eu não sei tocar coisa capaz, senhora minha. Mas estes sons grosseiros podem melhorar se vossa senhoria, por sua bondade, mandar que me afrouxem um pouco estes laços. A corda penetrou-me na raiz das carnes, e tira-me toda a ação." Fiz sinal a Gonçalo para que satisfizesse o pedido do prisioneiro, mas Gonçalo hesitou.
— Fez bem — disse o capitão-mor.
— "Pode fazer sem susto o que minha senhora manda, sr. tenente. Cabeleira não fugirá porque está cansado de viver", disse o prisioneiro. Faltam-me expressões para lhe dizer, Cristóvão, o que ouvimos então. Notas de órgão inspirado não dizem os mistérios, as melancolias que se debulharam da viola do desgraçado. Vendo-o tão moço, tão artista e tão infeliz, todos nos sentimos comovidos da sua sorte; e ele, o prisioneiro, chorava e soluçava como uma criança.
— Basta, Leonor — disse Cristóvão abalado com a narração que acabava de ouvir.
Dona Leonor, surpreendendo este sentimento do marido, propôs-se tirar dele o maior proveito para o infeliz. Atirou-se a Cristóvão de Holanda, e o cobriu de afagos e carinhos.
Fez mil rogativas para que se amerceasse da sorte do Cabeleira. A seu entender, alguns anos de prisão bastariam para que ele se corrigisse e emendasse.
— Mas quem diz que não será esta a pena que se lhe vai impor ? — perguntou o capitão-mor.
— Não o disse já o senhor, Cristóvão? Sou eu que lhe peço que de escapula ao infeliz.
— Escapula, Leonor, escápula ! — exclamou Cristavão. E minha honra, e meu dever?
— Eles não ficarão manchados com um ato de humanidade. Todos dizem que a maus conselhos e funestas instigações deve o Cabeleira o ter cometido tantos crimes. Pois bem; aquele que o aconselhou e instigou à prática desses crimes, o verdadeiro criminoso, lá está para responder pelo que fez, e mandou o filho fazer. Sua condenação servirá de exemplo à sociedade e ao próprio filho dele; mas a condenação deste será uma grande injustiça, e o céu não permitirá jamais que para ela concorra Cristóvão Cavalcanti que sempre trouxe limpo o brasão que lhe legaram seus avós.
O capitão-mor levantou-se com a palidez na face. A poderosa dialética da consorte o havia feito sentir mais alterações na alma do que seus próprios carinhos no coração. A verdade sobre o Cabeleira era justamente aquela que sua mulher havia resumido em meia dúzia de palavras vivas e violentas.
Depois de ter dado alguns passos pelo terrado Cristóvão caminhou para dona Leonor, que o não tinha perdido de vista.
— Tudo o que disse é verdade, Leonor; mas sou eu acaso juiz ? Não sou mais do que o executor de uma ordem do governador. Acredito que prendi um criminoso, para o qual, se a mim competisse julgá-lo, teria eu uma condenação mais branda. Mas o direito de o mandar ir embora não o tenho eu. Se usasse de semelhante faculdade, Cristóvão de Holanda teria lançado sobre seu nome honrado uma mancha indelével.
Tendo dito estas palavras, Cristóvão de Holanda recolheu-se imediatamente a seu gabinete em companhia de Gonçalo Pais.
tatuando a lua apareceu no céu triste e pálida como os anjos dos sepulcros, a
tropa recebeu ordem para partir no mesmo instante. O capitão-mor precipitava a jornada que havia dilatado para o dia seguinte.
Pouco depois a tropa moveu-se. Dona Leonor, anjo de amor e de benevolência, deixava cair nesse momento, em silencio, algumas lágrimas, límpidas como sua alma.
A respeitável senhora tinha saudades do esposo que novamente se ausentava, e pena do infeliz, que a morte atraía a si na forma de um patíbulo, e em nome da lei.
CAPÍTULO XVIII
Chegou enfim o momento da extrema provação.
Ainda não tinha decorrido um mês, quando se ouviram os duros sons das crebras marteladas, que anunciavam à população do Recife o próximo e fatal fim dos delinqüente. Levantava-se a forca no largo das Cinco Pontas.
Pela segunda vez este instrumento de suplício sobressaltou os ânimos e encheu de dor os corações na vila heróica.
Por grandes que sejam as ofensas que a sociedade tenha recebido de um dos seus membros, a razão pública sente-se abatida diante da sua punição por meio da morte natural.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.