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#Romances#Literatura Brasileira

A Escrava Isaura

Por Bernardo Guimarães (1875)

— Oh! princesa de meu coração! — exclamou ele atracando-se ás pernas da pobre escrava, que fraca como estava, quase foi à terra com a força daquela furiosa e entusiástica atracação. Era para fazer rebentar de riso, a quem não soubesse quanto havia de trágico e doloroso no fundo daquela ímpia e ignóbil farsa.

— Isaura!... não olhas para mim? aqui tens a teus pés este teu menor cativo, Belchior!... olha para ele, para este teu adorador, que hoje é mais do que um príncipe... dá cá essa mãozinha, deixa-me comê-la de beijos...

— Meu Deus! que farsa hedionda obrigam-me a representar! -murmurou Isaura consigo, e voltando a face abandonou a mão a Belchior, que colando a ela a boca no transporte do entusiasmo, desatou a chorar como uma criança.

— Olha que palerma! — disse André para Rosa, que observava de parte aquela cena tragicômica. — E venham cá dizer-me que não é o mel para a boca do asno!

— Eu antes queria que me casassem com um jacaré.

— Este meu sinhô moço tem idéias do diabo! quem havia de lembrar-se de casar uma sereia com um boto?

— Invejoso!... você é que queria ser o boto, por isso está aí a torcer o nariz. Toma!... bem feito!... agora o que faltava era que o nhonhô te desse de dote à Isaura.

— Isso queria eu!... aposto que Isaura não vai casar de livre vontade! e depois... nós cá nos arranjaríamos... havia de enfiar o boto pelo fundo de uma agulha.

— Sai daí, tolo!... pensa que Isaura faz caso de você?...

— Não te arrebites, minha Rosa; já agora não há remédio senão contentarme contigo, que em fim de contas também és bem bonitinha, e... tudo que cai no jequi, é peixe.

— É baixo!... agüente a sua tábua, e vá consolar-se com quem quiser, menos comigo.

CAPÍTULO XXI

— Então, Leôncio, — dizia Malvina a seu esposo no outro dia pela manhã, — deste as providências necessárias para arranjar-se esse negócio hoje mesmo?

— Creio que é a centésima vez que me fazes essa pergunta, Malvina, — respondeu Leôncio sorrindo-se. — Todavia pela centésima vez te responderei também, que as providências que estão da minha parte, já foram todas dadas. Ontem mesmo mandei um próprio a Campos, e não tardarão a chegar por aí o tabelião para passar escritura de liberdade a Isaura com toda a solenidade, e também o padre para celebrar o casamento. Bem vês que de nada me esqueci. Tratem de estar todos prontos; e tu, Malvina, manda já preparar a capela para se efetuar esse casamento, que pareces desejar com mais ardor, — acrescentou sorrindo, - do que desejaste o teu próprio.

Malvina saiu do salão, deixando Leôncio em companhia de um terceiro personagem, que também ali se achava, por nome Jorge, a quem o leitor ainda não conhece. Dizendo que era um parasita, ainda não temos dito tudo.

Este gênero contém muitas variedades, e mesmo cada indivíduo tem sua cor e feição particular. Era um homem bem apessoado, espirituoso serviçal, cheio de cortesia e amabilidade, condições indispensáveis a um bom parasita. Jorge não vivia da seiva e da sombra de uma só árvore; saltava de uma a outra, e assim peregrinava por longas distâncias, o que era da sua parte um excelente cálculo, pois proporcionava-lhe uma vida mais variada e recreativa, ao mesmo tempo que tornava sua companhia menos incômoda e fatigante aos seus numerosos amigos. Conhecia e entretinha relações de amizade com todos os fazendeiros das margens do Paraíba desde São João da Barra até São Fidélis. A crer no que dizia, andava sempre cheio de afazeres e dando andamento a mil negócios importantes, mas estava sempre pronto a prescindir deles a convite de qualquer desses amigos para passar uns oito ou quinze dias em sua companhia.

Na solidão em que Leôncio se achou depois de seu rompimento com Malvina, Jorge foi para ele um excelente recurso quando se achava na fazenda. Servia-lhe de companheiro não só à mesa, como ao jogo e à caça: entretinha-o a contar-lhe anedotas divertidas e escandalosas, aplaudia-lhe os desvarios e extravagâncias, e lisonjeava-lhe as ruins paixões, enquanto Leôncio, que o acreditava realmente um amigo, fazia dele o seu confidente, e comunicava-lhe os seus mais íntimos pensamentos, os seus planos de perversidade, e os mais secretos negócios de família.

Para melhor entrarmos no mistério dos planos atrozes e ignóbeis, das satânicas maquinações de Leôncio, ouçamos a conversação íntima, que vão tratar estes dois entes dignos um do outro.

— Até que por fim, Jorge, achei um meio engenhoso e seguro de aplanar todas as dificuldades. Desta maneira espero que tudo se vai arranjar ás mil maravilhas.

— Seguramente, e já de antemão te dou os parabéns pelos teus triunfos, e aplaudo-te pela feliz combinação de teus planos.

(continua...)

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