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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Mas um terror importuno tolhia-a; sentia como um palpite de que ele vinha, Era melhor não se pôr a escrever, talvez!... Ergueu-se, foi à sala devagar, sentou-se no divã; e, como se o contato daquele largo sofá e o ardor das recordações que ele lhe trazia da véspera lhe tivesse dado a coragem das ações amorosas e culpadas, voltou muito decidida ao escritório, escreveu rapidamente:

Não imaginas com que alegria recebi esta manhã a tua carta...

A pena velha escrevia mal; molhou-a mais, e ao sacudi-la, como lhe tremia um pouco a mão, um borrão negro caiu no papel. Ficou toda contrariada; pareceu-lhe aquilo um mau agouro. Hesitou um momento - e coçando a cabeça, os cotovelos sobre a mesa, sentia Juliana varrer fora o patamar, cantarolando a Carta Adorada. Enfim, impaciente, rasgou a folha muitas vezes em pedacinhos miúdos - e atirou-os para um caixão de pau envernizado com duas argolas de metal, que estava ao canto junto à mesa, onde Jorge deitava os rascunhos velhos e os papéis inúteis; chamavam-lhe "o sarcófago"; Juliana decerto, descuidara-se de o esvaziar no lixo, porque transbordava de papelada:

Escolheu outra folha, recomeçou:

Meu adorado Basílio.

Não imaginas como fiquei quando recebi tua carta, esta manhã, ao acordar. Cobri-a de beijos...

Mas o reposteiro franziu-se numa prega mole, a voz de Juliana disse discretamente:

- Está ali a costureira, minha senhora.

Luísa, sobressaltada, tinha tapado a folha de papel com a mão.

- Que espere.

E continuou:

... Que tristeza que fosse a carta e que não fosses tu que ali estivesses! Estou pasmada de mim mesma, como em tão pouco tempo te apossaste do meu coração, mas a verdade é que nunca deixei de te amar. Não me julgues por isto leviana, nem penses mal de mim, porque eu desejo a tua estima, mas é que nunca deixei de te amar e ao tornar a ver-te, depois daquela estúpida viagem para tão longe, não tu superior ao sentimento que me impelia para ti, meu adorado Basílio. Era mais forte que eu, meu Basílio. Ontem, quando aquela maldita criada me veio dizer que tu te vinhas despedir, Basílio, fiquei como morta; mas quando vi que não, nem eu sei, adorei-te! E se tu me tivesses pedido a vida dava-ta, porque te amo, que eu mesma, me estranho... Mas para que foi aquela mentira, e para que vieste tu? Mau! Tinha vontade de te dizer adeus para sempre, mas não posso, meu adorado Basílio! É superior a mim. Sempre te amei, e agora que sou tua, que te pertenço corpo e alma, pareço-me que te amo mais, se é possível...

- Onde está ela? Onde está ela? - disse uma voz na sala.

Luísa ergueu-se, com um salto, lívida. Era Jorge! Amarrotou convulsivamente a carta, quis escondê-la no bolso, - o roupão não tinha bolso! E desvairada, sem reflexão, arremessou-a para o sarcófago. Ficou de pé, esperando, as duas mãos apoiadas à mesa, a vida suspensa.

O reposteiro ergueu-se - e reconheceu logo o chapéu de veludo azul de D. Felicidade.

- Aqui metida, sua brejeira! Que estavas tu aqui a fazer? Que tens tu, filha, estás como a cal...

Luísa deixou-se cair no fauteuil1, branca e fria; disse com um sorriso cansado:

-`Estava a escrever, deu-me uma tontura...

- Ai! Tonturas, eu! - acudiu logo D. Felicidade. - É uma desgraça, a cada momento a agarrar-meaos móveis; até tenho medo de andar só. Falta de purgas!

- Vamos para o quarto! - disse logo Luísa. - Estamos melhor no quarto.

Ao erguer-se, as pernas tremiam-lhe.

Atravessaram a sala; Juliana começava a arrumar. Luísa ao passar, viu na pedra da consola, debaixo do espelho oval, uma pouca de cinza; era da véspera, do charuto dele! Sacudiu-a - e ao erguer os olhos, ficou pasmada de se ver tão pálida.

A costureira vestida de preto, com um chapéu de fitas roxas, esperava sentada à beira da causeuse, com um olhar infeliz e o seu embrulho nos joelhos; vinha provar o corpete de um vestido composto; assentou, pregou, alinhavou, falando baixo, com uma humildade triste e uma tossinha seca; e apenas ela saiu, leve, com o seu andar de sombra, o xale tinto muito cingido às omoplatas magras - D. Felicidade começou logo a falar dele, do Conselheiro. Tinha-o encontrado no Moinho de Vento. Pois, senhores, nem lhe viera falar! Fizera-lhe uma cortesia muito seca, por demais, e tique-taque por ali fora, que se diria que ia fugido! Que te parece? Ai! Aquelas indiferenças matavam-na. E não as compreendia, não realmente não as compreendia...

- Porque enfim - exclamava - eu bem me conheço, não sou nenhuma criança, mas também nãosou nenhum caco! Pois não é verdade?

- Certamente - disse Luísa distraída. Lembrava-lhe a carta.

- Olha que aqui onde me vês com os meus quarenta, decotada, ainda valho. O que são ombrose colo é do melhor!

- Luísa ia erguer-se. Mas D. Felicidade repetiu:

- Do melhor! Tomaram-no muitas novas!

- Creio bem - concordou Luísa, sorrindo vagamente.

- E ele também não é nenhum rapazinho novo...

- Não...

(continua...)

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