Por Eça de Queirós (1870)
Ficou assim por um momento na mudez de uma dor intraduzí vel, pausa terrível emque a alma emerge de um abismo de lágrimas e se debate violentamente antes de aparecer na voz. Tinha os lábios entreabertos como os de quem vai soltar um grito, e o queixo, trémulo,oscilava-lhe como o das crianças subjugadas pelo terror no instante de lhes rebentar o pranto. Por fim, disse-me lentamen te, com palavras pesadas, firmes, entrecortadas como se estivesse retalhando o coração e dando-mo em bocados:
— Peço-lhe que não me condene pelas primeiras palavras que vai ouvir. E, em voz baixa, depois de um breve silêncio, acrescentou: — Eu matei um homem.- Que diz? — gritei eu estupefacto. — Está louca! Enlouque ceu!
— Não. Não estou louca — tomou ela grave e serenamente. — Não enlouqueci ainda. E admiro isto. Como têm decorrido estas horas, minuto por minuto, segundo por segundo, semque a minha razão sucumbisse nesta desgraça infinita, sem remédio, sem ter mo, sem remissão! Matei um homem.. Involuntariamente, sim, mas matei-o. Quero entregar-me aostribunais, estou pronta, es tou deliberada. Estendo os olhos ao meu futuro e não vejo senão uma esperança, senão um lenitivo único no prazer de morrer em tormentos, que eu abençoarei como os maiores beneficies do Céu, de morrer de fome, de desprezo, de miséria,prostrada no fundo de uma enxovia, no porão de um navio, ou abandonada numa praia da
África, abrasada pelo sol, sobre as areias ardentes, roída pelo can cro, devorada pela sede epela febre. Por mim uma só coisa temo: a loucura que um momento em minha vida me consinta a alegria horrível de cuidar que ainda sou amada e feliz; ou a morte repen tina que me arrebate a consolação única que Deus concede aos grandes culpados: a liberdade desofrer. Mas ele... O seu nome des coberto! O seu cadáver profanado! O seu segredo traído!...
E falando, como num sonho, abstractamente:- Desventurado homem! Que fatal destino o encaminhou para mim, arremessando-o de encontro ao meu coração, em que estava a sua morte? Porque não amou outras mulheres que o mereciam mais do que eu? Porque não se deixou amar por Cármen Puebla, que oadorava e que morreu por ele? Que cego, que imprudente, que desgraçado que foi!...
E escondendo a face nas mãos, desatou a chorar num pranto convulso e desfeito, em que a vida parecia despedaçar-lhe o seio e jorrar para fora em borbotões de lágrimas e desoluços.
— Vamos — disse-lhe eu quando esta crise abrandou -, sere nemos um momento, epensemos no que importa fazer. É então positivo que o conde está morto? — O conde?... — interrogou ela, erguendo-se de súbito e enxu gando os olhos. — Sim, tem razão, eu ainda lhe não disse tudo... O homem que eu matei não é meu marido.E, postando-se defronte de mim, fitou-me com um olhar alu cinado, e acrescentou com voz demudada e profunda:- É o meu amante.
Em seguida ficou imóvel, esperando as minhas palavras na postura de um réu que vai escutar a sentença da boca de um juiz.A sensação que experimentei ao ouvir essa confissão breve, se ca, inesperada, foi a da surpresa primeiro, de uma instintiva repul são depois. Ergui-me maquinalmente e dei algunspassos na casa. A condessa permanecia na mesma posição, numa insensibilidade que tanto podia ser a prostração do arrependimento como o cinis mo da culpa. Eu estava surpreendido e revoltado. Aquela mimosa e pura estátua, à qual eu levantara quase um altar no meu cora-ção, assim repentinamente baqueada num lamaçal, causava-me horror. Poderia suportá-la criminosa; não podia considerá-la prostituída. Medi-a com um olhar em que senti dardejar odesprezo que ela nesse momento me inspirava, e depois de um silêncio repassado de mágoa:
— É horrível isso! Ela estremeceu, cerrou desfalecidamente os olhos e amparou-- se vacilante ao espaldar de uma cadeira.
— Estranha talvez a lástima e o horror que me causa? — insisti eu. — É natural. Tendoouvido que, em Lisboa, a sociedade vê be nevolamente essas quedas como incidentes triviais da existência doméstica. Eu, porém, que sou um selvagem, eu que me criei no princípio de que a fidelidade é no carácter de uma mulher um dever tão sarado como a honra no carácter de um homem, eu protes to, em nome das únicas mulheres que a minha inexperiência me tem permitido conhecer no mundo — em nome daquela que me gerou e em nome daquela que eu amo — contra semelhante inter pretação da liberdad e de amar. Não compreendo que caiaem tal erro uma pessoa limpa. O adultério é uma indecência e uma por caria. Matar um homem em tais circunstâncias, é mais do que faltar ferozmente ao respeito devido à inviolabilidade da vida humana; é faltar igualmente a respeito da morte... É atirar umcadáver a um cano de esgoto... É trágico — e coisa ainda mais hor rível — é sujo...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.