Por Eça de Queirós (1901)
-Ó Zé Fernandes quais são as árvores que crescem mais depressa?
-Eh, meu Jacinto... A árvore que cresce mais depressa é o eucalipto, o feiíssimo e ridículo eucalipto. Em seis anos tens aí tormes coberta de eucaliptos...
-Tudo tão lento, Zé Fernandes...
Porque o seu sonho, que eu compreendia, seria plantar caroços que subissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de ele voltar ao 202, no começo do Inverno...
-Um carvalho!... Trinta anos, antes que seja belo! Desanimo! É bom para deus, que pode esperar... Patiens quia oeternus. Trinta anos! Daqui a trinta anos, árvores só para me cobrirem a sepultura! -Já é um ganho. E depois para teus filhos, Jacinto...
-Filhos! Onde os tenho eu?
-É o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. Não faltam pôr aí terras agradáveis... Em nove meses tens uma planta feita. E quanto mais tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas plantas encantam.
Ele murmurou, cruzando as mãos sobre os joelhos:
-Tudo leva tanto tempo!...
E à borda do tanque nos quedamos, calados, na fresca doçura do anoitecer, entre o cheiro avivado das madressilvas do muro, olhando o crescente da Lua, que surdia dos telhados de Tormes.
E decerto esta pressa de se tornar a Natureza não mais um sonhador, mas um criador, arremessou vivamente o seu interesse para os gados! Repetidamente, nos nossos passeios através da Quinta, ele lhe notava a solidão.
-Faltam aqui animais, Zé Fernandes!
Imaginava eu que ele apetecia em Tormes o ornato elegante de veados e pavões. Mas um Domingo, costeando o largo campo da Ribeirinha, sempre escasso de águas, agora mais ressequido pôr Verão de tanta secura, o meu Príncipe parou a considerar os três carneiros do caseiro, que retouçavam com penúria uma relvagem pobre.
E, de repente, como magoado:
-Justamente! Aqui está o espaço para um belo prado, um imenso prado, muito verde, muito farto, com rebanhos de carneiros brancos gordíssimos como bolas de algodão pousadas na relva!... Era lindo, hem? É fácil, não é verdade, Zé Fernandes?
-Sim... Trazes a água para o prado. Águas não faltam na serra.
E o meu Príncipe, encadeando logo nesta inspirada idéia outra, mais rica e vasta, lembrou quanta beleza daria a Tormes encher esses prados, esses verdes ferregiais, de manadas de vacas, formosas vacas inglesas, bem nédias e bem luzidias. Hem? Uma beleza. Para abrigar esses gados ricos, construiria currais perfeitos, duma arquitetura leve e útil, toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados pela água... Hem? Que formosura! Depois, com todas essas vacas, e o leite jorrando, nada mais fácil e mais divertido, e até mais moral, que a instalação duma queijeira, à fresca moda holandesa, toda branca e reluzente, de azulejos e de mármore, para fabricar os Camemberts, os Bries... os Coulommiers... Para a casa, que conforto! E para toda a serra, que atividade!
-Pois não te parece, Zé Fernandes?
-Com certeza. Tu tens, em abundância, os quatro elementos: o ar, a água, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira!
-Pois não é verdade? E até como negócio! Está claro, para mim o lucro é o deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o paladar, incita a instalações iguais, implanta talvez no pais uma indústria nova e rica! Ora, com essa instalação perfeita, quanto me poderá custar cada queijo?
Fechei um olho, calculando:
-Eu te digo... Cada queijo, um desses queijinhos redondos, como o Camembert ou o Rabaçal, pode vir a custar-te, a ti Jacinto queijeiro, entre duzentos e cinqüenta e trezentos mil-réis.
O meu Príncipe recuou, com os olhos alegres espantados para mim.
-Como trezentos mil-réis?
-Ponhamos duzentos... Tem certeza! Com todos esses prados, e os encantamentos de água, e a configuração de serra alterada, e as vacas inglesas, e os edifícios de porcelana e vidro, e as máquinas, a extravagância, e a patuscada bucólica, cada queijo te custa, a ti produtor, duzentos mil-réis. Mas com certeza o vendes no Porto pôr um tostão. Põe cinqüenta réis para a caixa, rótulos, transporte, comissão, etc. Tens apenas, em cada queijo, uma perda de cento e noventa e nove mil oitocentos e cinqüenta réis!
O meu Príncipe não desanimou.
-Perfeitamente! Faço um desses espantosos queijos pôr semana, ao Sábado, para o comermos nós ambos ao Domingo!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.