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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

Não se demoraram muito; em breve se atracaram e rolaram pela areia do jardim. Ricardo saiu da luta deitando sangue pela boca e foi levado para um hotel próximo. Veio o médico e eu fiquei a seu lado, dando-lhe a poção de hora em hora.

Acalmou-se e pareceu dormir. Deixei-o só, mas voltei logo. Acordara e, de braços na borda da cama, com a boca semicerrada, olhava fincadamente o chão. Cismava na vida e considerava a terra. Animei-me:

— Precisa alguma coisa, doutor?

— Preciso.

— O quê, doutor?

E virou-se para o lado sem me responder...  

XII

— O senhor é da redação?

— Sim, senhor.

— Trago este volume de versos — Anelos — para oferecer ao jornal...

— Pode deixá-lo.

O poeta falava-me de pé, desconfiado e com longas interrogações no olhar. Na sala, não havia ninguém da redação, propriamente, e, quando me perguntou se eu o era, respondi-lhe afirmativamente, por pura vaidade.

O rapaz não me entregou logo o livro. Manteve-o na mão, olhando muitas vezes as coleções de jornais, os retratos das paredes, a sala toda como se procurasse guardar de cor aquele aspecto e familiarizar-se inteiramente com ele.

— É o senhor o autor da obra? perguntei.

— Sou, pois não. O senhor sabe: ninguém pode nunca estar certo de ter ou não habilidade. Escreve-se, os amigos gostam; mas, se não se tem coragem para sujeitar um volume à critica, fica-se na dúvida se é a simples amizade dos camaradas que louva as nossas produções, ou se há mérito, de fato, nelas... Sou muito moço, tenho vinte e dois anos, faço versos desde os dezoito; agora, fiz uma escolha e publiquei este volume... Queria que os senhores dissessem alguma coisa, que notassem os defeitos, para eu me corrigir, caso fosse possível.

— Isso é com o crítico literário.

— Quem é?

— É o Floc, não conhece?

— Muito! Leio-o sempre. Até tenho aqui uma opinião dele que achei muito acertada. Creio que é do folhetim da semana passada...

O jovem poeta descansou o chapéu sobre uma mesa, puxou a carteira e esteve a procurar entre os papéis o retalho de Floc, sempre perseguido por um cacho de cabelos louros que teimava em lhe cobrir o olho direito. O cacho caia, ele retirava-o com a mão; teimava em voltar, ele sacudia a cabeça para levá-lo para cima, e assim custou a achar o pequeno retângulo de papel, perdido entre uma porção de cartas, cartões e versos de que estava pejada a carteira.

Encontrando-o, não se demorou em lê-lo; tinha a secreta intenção de me convencer do grande apreço em que tinha o talento do viçoso Floc. Leu: - “Para mim, a verdadeira Arte é aquela que consorcia o ideal com o real; é aquela que, não desprezando os elementos representativos da realidade, sabe pelo ideal arrebatar as almas aos paramos do incognoscível”.

Guardou a carteira com a valiosa opinião do esteta viajado em Quito; e continuou já um tanto desembaraçado:

— Concordo plenamente com ele. Nos Anelos, se o senhor ler, há de ver que sempre procurei não me afastar desse ponto de vista... E acho que deve ser assim real e ideal, juntos é verdade, mas este espiritualizando aquele, dominando-o e vencendo-o... Gosto imensamente do Senhor Floc; acho-o um critico sagaz, ilustrado, cujo julgamento sobre os meus versos eu receberia com especial agrado... O senhor falará a ele, não é?

Prometi-lhe e o cândido poeta Félix da Costa saiu satisfeito, apertando-me a mão demoradamente, oferecendo-me a casa e os préstimos. Folheei um instante o livro; era uma plaquette de cento e tantas paginas, povoadas de sonetos e outras poesias soltas. Depositei-o sobre a mesa do secretário. De antemão, sabia que Floc não se deteria na sua leitura. Os livros nas redações têm a mais desgraçada sorte se não são recomendados e apadrinhados convenientemente. Ao receber-se um, lê-se-lhe o titulo e o nome do autor. Se é de autor consagrado e da facção do jornal, o critico apressa-se em repetir aquelas frases vagas, muito bordadas, aqueles elogios em cliché que nada dizem da obra e dos seus intuitos; se é de outro consagrado mas com antipatias na redação, o cliché é outro, elogioso sempre mas não afetuoso nem entusiástico. Há casos em que absolutamente não se diz uma palavra do livro. Acontecia isso com três ou quatro autores. Um deles era Raul Gusmão, a quem o diretor invejava o talento de escrever; além dele, havia um grande poeta, respeitado em todo o Brasil, e um outro moço que se rebelara contra a ditadura do jornal. Com os nomes novos não havia hesitações; calava-se, ou dava-se uma notícia anódina, “recebemos, etc.”, quando não se descompunha.

Aos olhos dos homens da imprensa, publicar um livro é uma ousadia sem limites, uma temeridade e uma pretensão inqualificáveis e dignas de castigo.

— Como é, disse certa vez Oliveira, que este sujeito publicou um livro?... Um desconhecido! Um idiota magro! Um tipo que nunca escreveu coisa alguma...

(continua...)

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