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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Revivíamos o idílio todo, instintivo e puro. “Virginie, elle sera heureuse!...” Animávamo-nos da animação daquelas correrias de crianças na liberdade agreste, gozávamos o sentido daquela topografia de denominações originais — Descobertas da Amizade, Lágrimas Enxugadas, ou de alusões à pátria distante. Ouvíamos palmear a revoada dos pássaros, disputando, ao redor de Virgínia, a ração de migalhas. Percebíamos sem raciocínios a filosofia sensual da mimosa entrevista.

“Est-ce par ton esprit? Mais nos mères en ont plus que nous deux. Est-ce par tes caresses? Mais elles m’embrassent plus souvent que toi... Je crois que c’est par ta bonté... Mais, auparavant, repose-toi sur mon sein et je serai délassé. — Tu me demandes pourquoi tu m’aimes. Mais tout ce qui a été élevé ensemble s’aime. Vois nos oiseaux élevés dans les mêmes nids, ils s’aiment comme nous; ils sont toujours ensemble comme nous. Écoute comme ils s’appellent et se répondent d’un arbre à l’autre...”

Confrangia-nos, enfim, ao voltar das páginas, a dificuldade cruel das objeções de fortuna e de classe, o divórcio das almas irmãs, quando os coqueiros ficavam juntos. E a iminência constritora do austro, da catástrofe, a lua cruenta de presságios sobre um céu de ferro...

E guardávamos do livro, cântico luminoso de amor sobre a surdina escura dos desesperos da escravidão colonial, uma lembrança, misto de pesar, de encanto, de admiração. Que tanto pôde o poeta: sobre o solo maldito, onde o café floria e o níveo algodão e o verde claro dos milhos de uma rega de sangue, altear a imagem fantástica da bondade. Virgínia coroada; como o capricho onipotente do sol, formando em glória os filetes vaporosos que os muladares fumam, que um raio chama acima e doura.

Com o Egbert experimentei-me às escondidas no verso. Esboçamos em colaboração um romance, episódios medievais, excessivamente trágicos, cheios de luar, cercados de ogivas, em que o mais notável era um combate devidamente organizado, com fuzilaria e canhões, antecipando-se de tal maneira a invenção de Schwartz, que ficávamos para todo o sempre, em literatura, a salvo da increpação de não descobrir a pólvora.

Quando ouvi-lhe o nome, à chamada dos comprometidos no processo, sofri como a surpresa de um golpe. Desesperou-me não achar o meio de compartir com ele a vergonha.

Qual a espécie de cumplicidade que se atribuía? Não quis saber; fosse o mais torpe dos réus, era o meu amigo: tudo que sofresse, muito culpado embora, era, no meu conceito, uma provação da fatalidade. E fazia-me estremecer a idéia de que iam maltratar criatura tão mansa, tão complacente, tão amável, feita de sensibilidade e brandura, contra quem o mal seria sempre uma injustiça, que eu prezaria com todos os defeitos, com todas as máculas, na facilidade de perdão das cegueiras sentimentais, estranhezas da preferência, que envolve tudo, no ser querido, a frase límpida do olhar ou o cheiro acre, mesmo impuro, da carne.

Quando nos tornamos a ver, nenhum teve para o outro a mínima palavra; ficamos a um banco, lado a lado, em expansivo silêncio. E nunca, depois, nem por alusão distante, nos referimos ao caso. Coincidência instintiva de um respeito recíproco, ódio talvez comum de uma recordação ominosa.

Desde o mês de julho do ano anterior, cursava os estudos elementares das línguas, alegrando-me a aquisição do vocábulo estrangeiro, comércio com a linguagem dos grandes povos, como se provasse a goles a civilização, como se bebesse a realidade do movimento humano nos países remotos que os cosmoramas pintam, em que vagamente acreditávamos como se acredita em romances.

Seguiu-se a maçada dos intermináveis temas.

Nas aulas superiores, a facilidade adquirida amenizava o trabalho. As páginas sorriam de literatura, com o sorriso conhecido dos objetos familiares.

Os professores eram bons e moderados. O de francês, M. Delille, nome de poeta aplicado a um urso, honrado urso, inofensivo e benévolo; saudoso do terceiro império, cujo desastre o deportara para a vida de aventuras além-mar; barbado como um colchão de crinas, por um vigor de cabelo denso, luxuriante, ruivo queimado no lugar da boca, mais longe preto, através do qual passavam-nos simultaneamente baforadas expressivas de cachaça e regras de Halbout. O professor de inglês, Dr. Velho Júnior, nome de contradição ainda, o melhor dos homens; zeloso, explicador detalhado, sem exaltar-se nunca, calvo como a ocasião, mas que excelente ocasião de se estimar e querer bem!

A companhia do Egbert ultimava a situação e o estudo era uma festa.

O Professor Venâncio lecionava também inglês; escapei-lhe às garras, felizmente: uma fera! chatinho sob o diretor, terrível sobre os discípulos; a um deles arremessou-o contra um registro de gás, quebrando-lhe os dentes. Mânlio, além das primeiras letras, regia a cadeira especial de português.

(continua...)

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