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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Uma tapuia, ainda moça, vestida com uma simples. saia de chita pirarucu, acocorada nos calcanhares, atiçava fogo a uma panela de peixe, e duas crianças nuas, de duras melenas negras caídas sobre os olhos, rojavam-se pelo chão úmido da casa, brincando com três cachorros magros, que se quiseram lançar sobre os visitantes, apenas os avistaram.

— Tá quieto, Jaguar, sossega, Pretinho, tá quieto, Paqueiro, disse a mulher, ameaçando os cães com uma colher de pau.

As crianças cessaram de brincar, pasmando para os dois desconhecidos que tão de improviso as perturbavam. Padre Antônio com a mão direita arredondou no ar o sinal da cruz:

— A paz do Senhor seja convosco, irmã.

— Amen, dico vobis, acudiu Macário com gostosa reminiscência.

A tapuia rojou-se aos pés do padre, balbuciante e trêmula, e veio beijar-lhe a fímbria da batina. Os pequenos, acocorados no chão, olhavam, espantados. Os cães cercavam o sacristão, cheirando-o desconfiados.

Padre Antônio expôs então o motivo da visita. Mas a tapuia o desenganou logo, muito tímida, pedindo mil desculpas. Não era culpa dela! A não ser o marido, o seu Guilherme que estava ausente e só voltaria na outra semana, ninguém por aquela redondeza se atreveria a adiantar-se pelo Abacaxis acima, e menos pelo Canumã, que devia ser agora o caminho preferido, por ficar mais perto, desde que a igarité, em vez de navegar direito pelo Abacaxis, subira até o lago do Canumã. Seu Guilherme fora à salga no furo de Uraná, e ela, a Teresa, ali ficara com os dois filhinhos, sem medo nenhum, já acostumada, porque sabia que os tapuios bravos nunca chegariam à boca do lago, e quando chegassem não lhe fariam mal algum, porque o seu Guilherme era amigo deles, fornecia-lhes aguardente e tabaco a troco de castanhas e de guaraná. O marido conhecia muito bem o caminho do porto dos Mundurucus, e poderia levar o senhor padre até lá, se não estivesse agora na salga do pirarucu.

Padre Antônio agradeceu a boa vontade da Teresa, e voltou a entender-se com o João e o Pedro. Procurou convencê-los a continuar a viagem, dizendo-lhes que não lhes sucederia mal algum. Ele, padre Antônio, ia como missionário a chamar os índios para o grêmio do cristianismo. Ia pregar-lhes a verdadeira religião e o João e o Pedro, associando-se a esta nobre empresa, ligariam para sempre o seu nome à gloriosa catequese dos mundurucus, prestando um grande serviço a Deus Nosso Senhor, que morreu na cruz para nos salvar, a nós todos, brancos e tapuios, das garras do demônio.

Macário seguira os passos de S. Rev.ma e muito resignado, juntou as suas instâncias às exortações de padre Antônio de Morais. Provavelmente morreriam todos naquela santa empresa, disse ele, antes que a palavra de paz e amor que S. Rev.ma levava pudesse chegar aos ouvidos dos mundurucus, porque as flechas andavam mais depressa do que as vozes. Mas uma tal morte seria muito meritória, faria do João e do Pedro santos da Igreja, S. João Maué, S. Pedro do Urubus, tais como os da Matriz de Silves. Demais se morressem iriam para o céu em companhia de S. Rev.ma e dele, Macário de Miranda Vale, que tinha tanto amor à própria pele como qualquer outro.

— Muito bem, Macário, disse padre Antônio, satisfeito e admirado. Nunca esquecerei os teus bons serviços.

— Saberá V. Rev.ma que ainda não fiz nada.

E Macário continuou a apertar com os maués. E como se lhe ocorresse de súbito um argumento de peso, foi à tolda, muniu-se de uma boa ração de fumo e aguardente e ofereceu-a aos endurecidos rapazes.

O João e o Pedro, com lágrimas nos olhos, prometeram continuar a viagem na seguinte madrugada, com a condição, porém, de que se lhes daria licença de voltar logo que avistassem o aldeamento.

O Padre e o sacristão fariam o resto do caminho por terra.

Pela primeira vez naquela viagem padre Antônio conseguira conciliar o sono. Estava prestes a realizar o seu grandioso projeto. Estava contente consigo mesmo. A melancolia desaparecera como por encanto, não mais as tristes idéias de aniquilamento e morte lhe ensombravam a imaginação, não mais estremecia de terror pensando na vida eterna. A fadiga da viagem, a novidade macia da rede e a idéia de estar livre das mesquinhas ocupações da sua modesta vigararia, causavamlhe uma satisfação íntima, uma alegria plácida que o convidavam a um sono tranqüilo.

Quando acordou os primeiros raios do sol douravam os ramos de pindoba nova que cobriam a casa, e enchiam o negro quarto de uma claridade tênue que mal anunciava o dia. A fresca da madrugada induzia a continuar o sono interrompido por força do hábito matinal do Seminário, e as umidades da noite não absorvidas ainda, prendiam o corpo à rede por uma sensação de agradável frio.

Mas dormira muito. Um projeto elevado e nobre engastara-se no seu cérebro, e não dava tréguas à indolência. Não podia ficar entregue a repouso sonolento quem pretendia o martírio na catequese de selvagens bravios.

(continua...)

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