Por Aluísio Azevedo (1895)
Não, com certeza, ninguém compreenderia! Não obstante, esse casamento, singular embora, era perfeitamente lógico e era essencialmente humano! Em que e por que o amor e os reclamos da alma valem e merecem menos que as sensuais necessidades do corpo?... Acaso a solidariedade da carne, instinto de todo animal, é mais digna que a solidariedade do espírito, privilégio exclusivo do homem?... Pois tão facilmente aceitavam todos e compreendiam a conveniência de um companheiro para os nosso sentidos inconscientes, e não compreenderiam a razão de um companheiro para o nosso espírito, que é a parte racional do ser humano, o que o sobreleva dos brutos e o que o aproxima de Deus?...
Não, ninguém compreenderia!... Entretanto, aquele casamento seria de grande utilidade, nem só para o meu velho amigo, como para mim própria. Cansada já, precisava ter mais perto o meu auxiliar na obra da felicidade matrimonial de Palmira; precisava de um substituto imediato para as faltas, que eu seguro iria fazer agora no meu posto de vigia. De resto, e talvez principalmente, a expectativa de ter César a meu lado neste último quartel da vida, enchia-me o coração de uma inefável esperança de completa felicidade moral.
Mas, que diria meu genro?... que pensaria minha filha?...
Oh! para esses ficaria tudo, mais tarde, explicado neste manuscrito, que em tempo lhes chegaria às mãos! E, quanto ao mais — já muito fazia eu em dar-lhe a pública satisfação do casamento!
Sim! estava resolvido — César viria acabar seus dias a meu lado!
E comecei a pensar na disposição da casa para acomodá-lo convenientemente, e até em nosso futuro modo de viver.
Havia um aposento magnífico para ele, e o meu quarto de trabalho, que era vasto, passaria a ser comum entre nós dois. Seria o nosso ponto principal de convivência: Enquanto César aí estivesse ocupado lá com os seus trabalhos, estaria eu costurando, lendo ou escrevendo; e isso não impediria que minha filha continuasse a passar nessa mesma sala, as horas que costumava passar comigo.
E via já o meu velho camarada, ao almoço e ao jantar, assentado ao lado de meu neto, a rirem-se os dois um com o outro, a brincarem, como duas crianças. E via-o depois passeando conosco, nas belas manhãs de Petrópolis, levando-me pelo braço, feliz com aquela família toda inteira e completa, que eu lhe dava, como um presente de bodas, para consolação do resto da sua existência. E via-o à noite, na sala, de cabeça coberta e lenço ao pescoço, jogando comigo antes do chá, enquanto Palmira ao piano acompanhava o enamorado e choroso bandolim do marido. E via-o afinal estendido no seu leito extremo, já prestes a deixar a vida, guardando as minhas mãos nas suas, e entregando-me o último suspiro da sua alma irmã da minha, tão generosa, tão adorável e tão pura.
Mas o sono não vinha e a minha indisposição crescia vivamente. Dolorosos calefrios obrigavam-me a encolher-me toda debaixo dos cobertores. Sentia doer-me o lado da cintura, a boca seca, o estômago ansiado. Compreendi que não podia dormir. Tateei o tímpano, vibrei e pedi à criada uma chávena de chá bem quente. Ao tomar os primeiros goles, vomitei logo, e senti dores no estômago.
Quando minha filha, alvoroçada com a notícia do meu incômodo, me procurou aflita, eu ardia em febre e não podia conter os gemidos. Meu genro veio também pouco depois, todo de luto, já preparado para o enterro de D. Etelvina, que seria à tarde. Apesar do sofrimento, falei-lhes no abandono em que ia ficar o nosso Dr. César e no estado de desconsolo em que eu o deixara ao lado do cadáver da irmã, último parente que lhe fugia para debaixo da terra.
Leandro prometeu-me que lhe faria uma visita logo em seguida ao almoço e ficaria com ele até as horas do saimento. Pedi-lhe mais que depois do enterro, o não deixasse sozinho naquele casarão triste e solitário; que, em meu nome, o persuadisse de vir para junto de nós, ao menos por esses primeiros dias; e lhe dissesse que eu não podia ir lá com Palmira, como prometera e tencionava, mas que viesse ele; entregasse a casa aos serventes e trouxesse de companhia o seu velho criado Antônio. Era isso o bastante.
Recebidas estas disposições, Leandro saiu do quarto, e minha filha começou a tratar de mim, convencida, como eu, de que era passageiro o mal. Não valia a pena chamar médico; César viria à tarde ou à noite e daria as providências necessárias. A despeito da minha crescente indisposição, perguntei a Palmira que tal lhe parecia a idéia de convidarmos o meu velho amigo para ficar morando indefinidamente conosco. Ela não se abalou com o alvitre, como esperava eu.
— Ali, disse, todos queriam e estimavam tanto o Dr. César, que este era para a família menos um estranho que um parente.
Recomendei-lhe então falasse a esse respeito com Leandro e desse-me depois sincera conta da impressão que semelhante idéia produzisse no ânimo dele.
— Ora! respondeu minha filha. Leandro é deveras amigo do velho César. Mamãe bem sabe que ele o estima e respeita como a um pai! Há de sem dúvida ficar satisfeito com a notícia...
Sim, mas fala-lhe, porque talvez não fiquem as coisas neste ponto.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.