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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

A benigna influência do planalto que atingíramos fez desaparecer completamente a epidemia. Restabeleceram-se do pronto os doentes: não tornamos a ver aquelas terríveis dormências, sinais precursores do mal que tantas vítimas causara.

CAPÍTULO III

Nioac. O coronel Carlos de Morais Camisão. O guia José Francisco Lopes.

Fora a vila de Nioac abandonada pelo inimigo a 2 de agosto de 1866. Por toda a parte ali se viam vestígios do incêndio. Poupadas, apenas, duas casas e uma pequena igreja de pitoresca aparência. À primeira vista agrada o aspecto geral do lugar. De um lado, o povoado e um ribeirão chamado Orumbeva; do outro, o rio Nioac, cujas águas confluem cerca de 900 metros, para trás da igreja, deixando livre, em torno desta, à direita e à esquerda, um espaço duas vezes maior. Pequena colina fica-lhe em frente, a pouca distância.

Ali chegamos às 11 horas de 24 de janeiro de 1867 acampando, em ordem de batalha, com a direita encostada à margem direita de Nioac; e a esquerda à mata do Orumbeva. Instalaram-se o quartel-general e o trem à retaguarda, no local da vila, ocupando o hospital as pequenas casas salvas do fogo e um grande galpão que às pressas se construiu.

Serviu a nave da igreja — de onde se retirara tudo quanto ainda havia de símbolos do culto — de depósito ao cartuchame e a todas as munições.

Ergueram-se, de todos os lados, ranchos de palha, gurbis como lhes chamam na Argélia, e, dentro em pouco, oficiais e soldados ali se acharam tão bem instalados quanto as circunstancias o permitiam. Um bem-estar, desde vários meses ausente, o renovamento da existência um sentimento de plenitude de vida a todos nós exaltava, e em todos se transmutava na ânsia de sobressair, graças a algum brilhante feito d'armas que chamasse a atenção do país para uma expedição desde muito inativa. Reinavam no acampamento a esperança e a alegria.

Perigo havia, contudo, neste entusiasmo; e os que conheciam o chefe, de si para si, indagavam, com secreto desassossego, qual lhe seria a demonstração da iniciativa.

Ia-lhe no peito amarga lembrança que não conseguia remover da mente. Ao abandonar o coronel Oliveira, comandante das armas da província, a praça de Corumbá (1), embora estranho às primeiras deliberações motivadoras desta precipitada retirada, figurara neste triste episódio o coronel Camisso na qualidade de comandante do segundo batalhão de artilharia; e, por tal motivo, vira-se acoimado de solidariedade com este ato de fraqueza. Contra ele servira-se a malevolência destas vozes cruéis, circulando, em tal época, um soneto impresso, acerbo estigmatizador dos defensores de Mato Grosso. Dentre os nomes nele apontados, lera o próprio...

Subsistia a dor da afronta, profundamente magoado como se lhe achava o pundonor militar. Com verdadeira paixão aceitara o comando da expedição. Seria, a seu ver, o modo de se reabilitar perante a opinião pública e, desde tal momento, concebera o projeto não de se manter na defensiva, como o critério o indicava, dada a exigüidade dos recursos de que podia dispor, e sim de levar a guerra ao território inimigo, fossem quais fossem as conseqüências.

Dia a dia. cada vez mais, tal idéia o empolgara. Sob, a influência de legítimo ressentimento, tomou a feição da fixidez, apesar da inata indecisão do caráter. Sinistro fadário o impelia ao infortúnio.

Encontrava-se no arquivo da coluna um ofício do Ministro da Guerra recomendado a marcha sobre o Apa logo que as conjunturas a tanto se prestassem.

Ali enxergou, não o que exatamente havia, uma indicação facultativa, mas a ordem de avançar, forma peremptória. Por mais que se lhe fizessem observações: cego, graças a doentia suscetibilidade, levava a mal que de menos contestável se lhe objetasse.

Uma frase depreciativa a seu respeito pronunciada, imprudentemente repetida, ainda lhe acirrou a inflexibilidade, tornando-o surdo a quanto parecesse desviá-lo do projeto de invasão. Não era que lhe não sopesasse as dificuldades; via, porém, os soldados cheios de entusiasmo e já aguerridos; embalava-se na esperança de, à sua testa, praticar grandes feitos; adestrava-os às manobras, por meio de freqüentes exercícios, levava-os a empenhar combates simulados, em que a artilharia representava ruidoso papel; e desta agitação geral resultava uma animação de que ele próprio compartia.

Entretanto, algumas vezes também, percebia nitidamente que apenas dispunha de uma vanguarda de exército em campanha; e era obrigado a reconhecê-lo. As hesitações lhe voltavam então, e, chegado o dia por ele próprio fixado para a arrancada das forças, achava sempre motivo para o adiamento, embora precisasse invocar as razões na véspera repelidas. Ora oficiava ao Ministro que nada podia empreender sem cavalaria, e ora pretendia poder dispensá-la; dolorosos embates entre a autoridade da razão clara e as inspirações do orgulho magoado.

(continua...)

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