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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

— Pois a Senhora não quer ser Átala? – perguntou Azevedo a Sinhazinha.

Teve tão boa vida!...

— E até uma boa morte.

— E você mesma há de ser, Sinhazinha – disse Eugênia.

— Não quero.

— Perdão, minha senhoras. Átala não era feia, nem velha para que alguma de V.Exas. se julgue desdouro em representá-la.

— Mas morreu sem casar – observou Azevedo.

— E acabemos logo com isto que a sopa está esfriando.

— Se me concedem autoridade para cortar a contenda, isto acaba já.

— Tem toda a autoridade para isso D. Maurícia – disseram os homens.

— Vá sentar-se defronte de mim, Sinhazinha.

— Muito bem,

Quando Sinhazinha se encaminhou para a outra cabeceira da mesa, ouviu-se a voz de Salustiano:

— Mas o Chactas, o Chactas é que quero saber quem será.

— O Chactas não aparece. Está no mato – disse Azevedo. Sentemo-nos, e vamos à sopa antes que ela chegue, que era capaz de engolir mangueiras e tudo.

— E nós o que ficamos sendo? – perguntou ingenuamente D. Rosa, que a todo transe queria o seu papel na representação.

— As senhoras ficam sendo as ninfas da gruta – disse Azevedo rindo-se.

E nesse riso foi acompanhado por quase todos os que estavam presentes. D. Rosa suspeitando de segunda intenção no que dissera Azevedo, contrariou o gracejo como se tratasse de ir para o inferno.

— Credo! Antes uma boa morte.

— E nós, nós homens? – perguntou Salustiano.

— Vocês são os selvagens, os Moscogulgas – acudiu incontinente Azevedo.

A hilaridade foi geral.

CAPÍTULO IV

As grutas, as ninfas, os selvagens, a deusa fabulosa, a jovem cristã, foram temas durante todo o jantar a mil gracejos, que não concorreram pouco para aumentar a animação da festa natalícia, belíssima pintura a que a Natureza, ajudada de um pouco de fantasia, servia de quadro encantador.

Quando finalizou o jantar, Martins propôs o passeios de costume pelo sítio, mas pediu que o dispensassem dele, por ter de ir à Encruzilhada a falar com dois músicos. A festa não podia acabar senão em dança.

— É quase sol posto, mas antes de anoitecer, estarei de volta.

A companhia dividiu-se, sendo Ângelo, Maurícia, Eugênia, D. Rosa e D. Sofia os que menos apressados se mostravam em deixar a entrada da galeria, onde haviam ficado, enquanto as outras senhoras e rapazes se dirigiam para a estrada.

— Onde é que fica a cajazeira – perguntou Ângelo – em que o ano passado Martins entalhou a canivete, em honra de seu aniversário, um verso de Virgílio, D. Eugênia?

— Daquele lado, já ao chegar ao Beco das Almas. É a última árvore do sítio, e está encostada à cerca, Virgínia sabe onde é.

Maurícia chamou, então, pela filha, que ia com Sinhazinha nas pisadas dos outros em direitura para a estrada.

— Ora, mamãe – disse Virgínia – Sinhazinha está ali esperando por mim para irmos à Conceiçãozinha, onde há, aqui a pouco, um casamento.

— Pois vá, minha filha. Iremos com Eugênia.

— Vá nesta direção e tome depois para a direita, que há de dar com a cajazeira – disse a menina. — Olhe: de lá se vê a capelinha. Nós podemos ver-nos dos nossos lugares; e se mamãe não me vir é que fomos à casa de D. Teodora saber se Terezinha já chegou de Boa Viagem.

A menina foi juntar-se à amiga, enquanto Maurícia voltava-se para convidar Eugênia a servir-lhe de companhia. Mas já não a encontrou; tinha desaparecido pelo outro lado da galeria com as duas senhoras a quem fora mostrar uma leira onde o coentro pululava cheio de viço, não obstante ser seca a estação.

— Deixaram-nos a sós – disse Maurícia – mas não importa. Podemos ir, que havemos de acertar com a árvore.

— Não deve ser muito distante – disse Ângelo.

— Mas o sítio é tão largo que daqui não vemos a cerca. — Pelas pontas das árvores, podemos orientar-nos.

Ângelo assim falando e andando, pôs-se a procurar com a vista os ramos superiores da cajazeira, mas foi-lhe impossível o que um momento antes lhe parecera fácil. Cajueiros ramalhudos, mangueiras copadas interpunham-se entre eles e a árvore desejada.

Seguiram, entretanto, na direção que a menina indicara.

— Como eu invejo a felicidade de Martins, D. Maurícia – disse Ângelo.

— E eu a de Eugênia – acrescentou Maurícia.

— É verdade. Vivem exclusivamente um para o outro. Parece que nos laços que os estreitam nunca se deu o menor estremecimento.

— Para ser agradável à mulher, Martins anda sempre inventando festas em que sua fantasia tem grande e feliz intervenção, como acaba de ver.

(continua...)

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