Por Bernardo Guimarães (1872)
- Em quê? Em muita coisa. O senhor bem sabe que as cavalhadas não são mais do que uma imagem, um simulacro das antigas justas e torneios. mas esses divertimentos bárbaros, em que se derramava sangue, e que muitas vezes custavam a vida aos justadores, não podem compadecer-se com as luzes e costumes da civilização atual, e admira que, mesmo nos sanguinários tempos da média idade, fossem tolerados entre povos cristãos. A cavalhada, porém, ficou como uma imitação daquelas lutas cavalheirescas, que, não custando o sangue nem a vida a ninguém, oferece um brilhante e nobre espetáculo aos olhos do povo. A equitação é uma arte útil, necessária mesmo; ninguém o pode contestar. A cavalhada produz estímulo e emulação entre os moços para se exercerem nesta vantajosa e nobre arte, dando-lhes ocasião de alardear o seu garbo e destreza em dirigir um possante e fogoso ginete aos olhos do público, e às vezes também de uma amante querida, que do fundo do seu palanque o anima com um olhar, ou com um sorriso. Dizendo estas últimas palavras, Elias lançou furtivamente sobre Lúcia um olhar rápido.
-triste meio de agradar às belas, fazendo papel de truão! , exclamou com uma gargalhada o jovem negociante.
- É mais nobre e cavalheiresco- retorquiu Elias- do que o namoro nos bailes e nas igrejas, que é tão comum hoje. E ainda nisto a cavalhada é uma semelhança dos antigos torneios, nos quais os campeões tinham sempre uma dama dos seus pensamentos, pela qual iam romper lanças na sanguinosa liça.
- Oh! meu senhor! Já lá se foi o tempo dos D. Quixote e das Dulcinéias- disse o negociante.
- É verdade; hoje estamos no tempo dos melcatrefes e dos bonecos almiscarados; duvido que melhorássemos nesse ponto. O uso de correr cavalhadas também produziria ainda uma outra vantagem, e seria inspirar aos nossos fazendeiros o gosto pela criação de bons e bonitos animais, tendo mais capricho na escolha e apuração das raças cavalares, coisas de máxima importância, e que em nosso país se trata com o maior desleixo. A cavalaria é uma das armas mais poderosas, principalmente nas guerras da América, onde ela é indispensável, e sem bons cavalos e bons cavaleiros não pode haver boa cavalaria. Quando a arte for uma arte inútil, quando a carreira militar for uma profissão ignóbil e desprezível, então a cavalhada será um espetáculo só próprio para bobos e crianças.
- Não creia que hão de ser as cavalhadas, que se correm de anos em anos, quando se correm, que nos hão de dar bons cavaleiros, nem bons cavalos. Infelizes de nós, se não houvesse outros meios de obtê-los, como as escolas de equitação, as corridas de parelhas. . .
-mas onde está nada disso entre nós? As escolas de equitação seriam úteis, sem dúvida; mas as cavalhadas e todos os espetáculos eqüestres seriam um complemento delas, porque estimulariam os moços a se exercerem nessa arte oferecendo-lhes ocasião de exibirem em público sua agilidade e galhardia. Ninguém freqüentaria as escolas de música ou de qualquer outra arte agradável, se não houvesse ocasião de apresentar em público, em ocasiões solenes como nas igrejas e nos teatros, seu talento e maestria. Para nós, porém, que desde a infância andamos a cavalo, essas escolas são muito dispensáveis, e mesmo sem elas sabemos, não só governar, como domar e doutrinar os mais fogosos animais, e quando é ocasião de nos apresentarmos em público; em breve o senhor poderá julgar se somos ou não bons cavaleiros.
Ah! pelo que vejo, o senhor também é um dos corredores da cavalhada? Nesse caso peço-lhe mil perdões pelo que tenho dito; mas, meu amigo, a falar-lhe com franqueza, não lhe invejo o gosto.
- Embora! . . . O senhor acha ridícula a cavalhada; mas, pergunto eu, qual será mais ridículo, uma cavalhada ou um baile? Quem se presta mais ao debique público: aquele que dirige e sopeia um generoso corcel no meio da liça, sopesando uma lança ou brandindo uma espada, ou aquele que ao lado de uma dama arrasta os pés em um salão, fazendo mesuras, trejeitos e requebros? Qual será a prenda mais útil e mais nobre, a dança ou a equitação? Qual será mais proveitoso ao país, um bom dançarino ou um bom cavaleiro?
O negociante sentiu-se algum tanto desconcertado com as calorosas tiradas do jovem sertanejo em defesa das cavalhadas, e que eram interrompidas continuamente pelos aplausos e animadores apartes do Major. Lúcia, que não supunha Elias tão instruído e bem falante, o escutava com íntima satisfação e aplaudia, ora com um gesto, ora com um sorriso.
-seja como quiser, meu caro senhor- disse o negociante. - Não sabia que era cavaleiro e tão entusiasta; agora que o sei, não me animo mais a contrariá-lo. Fique cada um com sua opinião que não vale a pena questionar sobre semelhante coisa.
E, dirigindo-se ao Major, mudou bruscamente de conversação.
No entanto, Elias teve ocasião de dirigir timidamente a Lúcia algumas palavras sem importância, só pelo prazer de falar com ela e de lhe ouvir a voz. Por fim sempre se animou a pedir permisão para oferecer-lhe a primeira argolinha que tirasse nas corridas do primeiro dia.
No dia 7 houve pela manhã a missa cantada, o Te- Deum e a parada de costume. Tudo era farda: no meio daquela multidão de uniformes, os homens vestidos à paisana formavam uma minoria imperceptível. As famílias que queriam ir à igreja eram conduzidas pelas crianças e escravas, pois os pais e os irmãos adultos por via de regra estavam debaixo de forma. Assistindo-se aos festejos de gala nas vilas do interior, dir-se- ia que não há povo mais militarizado que o nosso. Entretanto, não há povo mais essencialmente pacífico, menos propenso à carreira das armas.
A lei lhe impõe o dever de envergar uma farda e entrar em forma em certos dias do ano, e eis em que consiste o militarismo a missão única da guarda nacional.
À tarde tiveram lugar as cavalhadas.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.