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#Crônicas#Literatura Brasileira

Alfarrábios: o Ermitão da Glória

Por José de Alencar (1853)

— Aqui está o preço da balandra e vosso quinhão da presa como dono, concluiu Ayres deitando sobre a meza duas bolsas cheias de ouro.

— Mas isto vos pertence, pois é o premio de vosso denodo. Eu nada arrisquei sinão algumas taboas velhas, que não valiam uma onça.

— Valiam mil, e a prova é que sem as taboas velhas, continuarieis a ser um pobretão, e eu teria a esta hora acabado com o meu fadario, pois já vos disse uma vez : a ampulheta de mi-

nha vida é uma bolsa; com a derradeira moeda cahirá o ultimo grão de areia.

— Porque vos habituastes á riqueza; mas a mim a pobreza, apezar de sua feia catadura, não me assusta.

— Assusta-me a mim, Duarte de Moraes, que não sei que ha de ser de nós quando se acabar o resto das economias! acudiu Ursula.

— Bem vêdes, amigo, que não deveis sujeitar a privações a companheira de vossa vida, por um escrupulo que me offende. Não quereis reconhecer que esta somma vos é devida, nem me concedeis o direito de obsequiar-vos com ella; pois sou eu que vos quero dever.

— A mim, Ayres!

— Faltou-me referir uma circumstancia do combate. A mulher do corsario francez arrojouse ao mar, apoz o marido, deixando-me nos braços sua filhinha de collo. Roubei a essa innocente criança pai e mãi; quero reparar a orphandade a que voluntariamente a condemnei. Si eu

não fosse o estragado e perdido que sou, lhe daria meu nome e a minha ternura!... Mas para um dia córar da vergonha de semelhante pai!.. Não! Não póde ser!...

— Não exagereis vossos pecados, Ayres; foram os ardores da juventude. Aposto eu que já vão arrefecendo, e quando essa criança tornar-se moça, tambem estareis de todo emendado! Não pensas como eu, Ursula?

— Eu sei!... Na duvida não me fiava; acudiu a linda carioca.

— O pai que eu destino a essa criança sois vós, Duarte de Moraes, e vossa mulher lhe servirá de mãi. Ella deve ignorar sempre que teve outros, e que fui eu quem lh'os roubei. Aceitem pois esta

menina, e com ella a fortuna que lhe pertencia. Tereis animo de recusar-me este serviço, de que preciso para repouso de minha vida ?

— Disponde de nós, Ayres, e d'esta casa.

A um apito de Ayres, appareceu o velho Bruno, carregando nos braços como ama secca, a filha do corsario. Era um lindo anjinho louro, de cabellos annelados como os vellos do cordeiro, com

os olhos azues e tão grandes, que lhe enchiam o rosto mimoso.

— Oh! que seraphim! exclamou Ursula tomando a criança das mãos rudes e callosas do gageiro, e cobrindo-a de caricias.

N'essa mesma noite o velho Bruno por ordem do capitão regalava a maruja na taberna do Simão Chanfana, ao beco da Fidalga.

Ayres ahi appareceu um momento para trincar uma saude com os rapazes.

VII

O BAPTISMO

Domingo seguinte a bordo da escuna tudo era festa.

No rico altar armado á popa com os mais custosos brocados, via-se a figura de Nossa Senhora da Gloria, obra de um entallhador de S. Sebastião que a esculpíra em madeira.

Embora fosse tosco o trabalho, sahíra o vulto da Virgem com um aspecto nobre, sobretudo depois que o artifice tinha feito a encarnação e pintura da imagem.

Em. frente ao altar achavam-se Ayres de Lurcena, Duarte de Moraes e a mulher, além dos convidados da função. Ursula tinha nos braços, envolta em alva toalha de crivo, a linda criancinha loura, que adoptára por filha.

Mais longe, a maruja commovida com, a ceremonia, fazia alas, esperando que o padre se paramentasse. Este não se demorou, com pouco appareceu no convez e subiu ao altar.

Começou então a ceremonia do benzimento da Virgem, que prolongou-se conforme o ceremonial da igreja. Terminado o acto, todos até o ultimo dos grumetes foram por sua vez beijar os pés da Virgem.

Em seguida se passou ao baptismo da filha adoptiva de Duarte de Moraes. Foi madrinha Nossa Senhora da Gloria, de quem recebeu a menina o nome que trouxe, pela razão de a ter Ayres salvado no dia d'aquella invocação.

Esta razão porém calou-se; pois a criança foi baptisada como filha de Duarte de Moraes e Ursula; e a explicação do nome deu-se com ter ella escapado de grave doença no dia 15 de Agosto. Por igual devoção tomou-se a mesma Virgem

Santissima para padroeira da escuna, pois á sua divina e milagrosa intercessão se devia a victoria sobre os hereges e a captura do navio.

Depois da benção e baptismo da escuna, acompanharam todos em procissão o sacerdote que de imagem alçada dirigiu-se á prôa onde tinham de antemão preparado um nicho.

Por volta do meio dia, terminou a ceremonia, e a linda escuda desfraldando as velas bordejou pela bania em signal de regosijo pelo seu baptismo e veiu deitar o ferro em uma sombria e formosa enseiada que havia na praia do Catette, ainda n'aquelle tempo coberta da floresta que deu nome, ao lugar.

(continua...)

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