Por José de Alencar (1878)
— Estava eu resolvido a passar algum tempo em Paris para dedicar-me aos estudos de minha profissão. Apressei a partida para levar Carlos comigo e distraí-lo. Nem a viagem, nem o turbilhão da vida parisiense produziram o resultado que eu esperei. Continuava indiferente a tudo; nada o interessava; nada prendia-lhe a atenção.
— Então, doutor, sempre houve alguma coisa?
— Sem dúvida, mas não demência. O estado de Carlos era simplesmente uma insensibilidade moral: um desprendimento do mundo, que o tornava impassível ao movimento social. Vivia em si e de si, das recordações que enchiam sua alma. Nunca, porém, eu notei no seu espírito a menor vacilação, e muito menos um desvario. Quanto aos estranhos, viam nele um homem frio, concentrado, de poucas falas, mas de juízo seguro e talento refletido.
— O senhor defende seu amigo com tanto calor que me faz desconfiar da justiça da causa, doutor, disse Amália a sorrir.
— A crítica é espirituosa, minha senhora, e eu já a tinha lido em seus lábios antes que eles a proferissem. Mas eu quero a este amigo como a um irmão; e dói-me profundamente essa suspeita de loucura, que alguns malévolos se incumbiram de espalhar. Felizmente Carlos restabeleceu-se; aquela impassibilidade que me assustava dissipou-se como por encanto.
— Em Paris? perguntou Borges com ar de dúvida, apenas de leve dissimulado pela cortesia.
— Em Paris, numa visita que fizemos ao Louvre. Carlos sempre teve gosto e inclinação para as artes; lembrei-me um dia de mostrar-lhe o museu de pintura e escultura. Deixei-o um instante para falar a alguém que encontrara na sala; quando o procurei fui achá-lo diante de um quadro, creio que a Ester ou a Suzana do Veronese. Voltou-se; já não era o homem absorto e sombrio que ali entrara: tinha no semblante e em toda a sua pessoa a expressão afável dos mais belos dias de sua vida. Vi em seu olhar uma interrogação e pensando que ela se referia à tela, improvisei admiração, que não sentia, pois, surpreso e contente daquela transfiguração, eu nenhuma atenção prestava ao quadro. Não obstante prodigalizei elogios ao desenho, ao colorido, à criação do grande pintor. "Não; não é isto!... disse-me ele. Mas tu não podes compreender a beleza que este quadro tem para mim". Eu percebi que ele achara nessa imagem uma reminiscência de sua Julieta.
— Ora, descobriu-se afinal a fênix dos maridos! exclamou Amália com uma risada expansiva dirigindo-se à amiga. Nenhum poeta até hoje, que eu saiba, animou-se a inventar um Penélope masculino. Estava reservada esta glória ao Dr. Teixeira.
— Antes de mim um poeta, e dos mais ilustres, criou esse no Frei Luís de Sousa, que a senhora talvez não conheça, porque é escrito em nossa língua.
—Até o vi representar, o que deve parecer-lhe ainda mais admirável, depois que os senhores fizeram do Rio de Janeiro um pequeno Paris de bulevar. Mas esse marido que voltou ao cabo de vinte anos de exílio foi o amor da mulher que o trouxe, ou a lembrança da pátria, a saudade de seu velho Portugal?
— Não se lembra de seu desespero por encontrar a mulher unida a outro? É uma das cenas mais tocantes.
— Esse amor caduco e de cabelos brancos, pois tinha mais de vinte anos...
— Como o de Penélope, acrescentou Teixeira em nota.
— Esse fóssil conjugal é um monstro ideado por Garrett para complicar a situação das duas metades, que o aparecimento do primeiro marido veio separar. O drama está nessa separação, realmente incômoda, para quem não gosta de sair de seus hábitos. Assim o romeiro, bem longe de ser o herói, não passa de um pretexto, de um incidente, de um motivo. Faz aí o mesmo oficio de pai cruel, que não deixa a filha casar-se democraticamente com qualquer cidadão da rua.
A chegada de uma senhora a quem Amália foi receber, cortou a réplica do doutor, que ria da malícia da moça.
— Mas então o Hermano desde aquela visita do Louvre restabeleceu-se? perguntou o Borges, que via a conversa apartar-se do tema.
— Completamente. Daí em diante foi outro, ou antes, foi o mesmo homem que todos conheceram na época de seu casamento. Aquele painel tinha operado nele uma verdadeira ressurreição.
Amália, que tomara o seu lugar, interrompeu de novo o médico para insinuar uma observação maliciosa.
— Foi o painel, ou alguma estátua?
— Nós estávamos na sala de pinturas, minha senhora.
— Pergunto se não seria alguma estátua viva que operou o milagre da ressurreição. Alguma Madalena que passava?
— Não o conhece!
— Ou talvez o seu amigo seja como certos escultores que compõem a sua estátua, tirando de cada modelo as belezas que ele possui e combinando-as entre si.
O Doutor Henrique Teixeira fitou a moça com alguma surpresa. A candura do sorriso que brincava nos lábios faceiros convenceu-o de que Amália não compreendia o alcance das palavras que proferia.
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.