Por Martins Pena (1845)
Carlos — A história vai interessando-me, continue.
Rosa — Eu já estava desenganada, quando um sujeito que foi aqui do Rio disse-me que meu marido ainda vivia e que habitava na Corte.
Carlos — E nada mais lhe disse?
Rosa — Vossa Reverendíssima vai espantar-se do que eu disser...
Carlos — Não me espanto, diga
Rosa — O sujeito acrescentou que meu marido tinha-se casado com outra mulher.
Carlos — Ah, disse-lhe isso?
Rosa — E muito chorei eu, Reverendíssimo; mas depois pensei que era impossível, pois um homem pode lá casar-se tendo a mulher viva? Não é verdade,
Reverendíssimo?
Carlos — A bigamia é um grande crime; o Código é muito claro.
Rosa — Mas na dúvida, tirei as certidões do meu casamento, parti para o Rio, e assim que desembarquei, indaguei onde ele morava. Ensinaram-me e venho eu mesma perguntar-lhe que histórias são essas de casamentos.
Carlos — Pobre mulher, Deus se compadeça de ti!
Rosa — Então é verdade?
Carlos — Filha, a resignação é uma grande virtude. Quer fiar-se em mim, seguir meus conselhos?
Rosa — Sim senhor, mas que tenho eu a temer? Meu marido está com efeito casado?
Carlos — Dê-me cá uma das certidões.
Rosa — Mas...
Carlos — Fia-se ou não em mim?
Rosa — Aqui está. (Dá-lhe uma das certidões.)
Ambrósio, dentro — Desçam, desçam, que passam as horas.
Carlos — Aí vem ele.
Rosa — Meu Deus!
Carlos — Tomo-a debaixo da minha proteção. Venha cá; entre neste quarto.
Rosa — Mas Reverendíssimo...
Carlos — Entre, entre, senão abandono-a. (ROSA entra no quarto à esquerda e CARLOS cerra aporta.)
CENA XI
Carlos, só — Que ventura, ou antes, que patifaria! Que tal? Casado com duas mulheres! Oh, mas o Código é muito claro... Agora verás como se rouba e se obriga a ser frade...
CENA XII
Entra Ambrósio de casaca seguido de Florência e Emília, ambas de véu de renda preta sobre a cabeça.
Ambrósio, entrando —Andem, andem! Irra, essas mulheres a vestirem-se fazem perder a paciência!
Florência, — Estamos prontas.
Ambrósio ,vendo Carlos — Oh, que fazes aqui?
Carlos principia a passear pela sala de um para outro lado — Não vê? Estou passeando; divirto-me.
Ambrósio — Como é lá isso?
Carlos, do mesmo modo — Não é da sua conta.
Florência — Carlos, que modos são esses?
Carlos — Que modos são? São os meus.
Emília, à parte — Ele se perde!
Florência — Estás doudo?
Carlos — Doudo estava alguém quando... Não me faça falar...
Florência — Heim?
Ambrósio — Deixe-o comigo. (Para CARLOS:) Por que saíste do convento?
Carlos — Porque quis. Então não tenho vontade?
Ambrósio — Isso veremos. Já para o convento!
Carlos — rindo-se com força — Ah, ah, ah !
Ambrósio — Ri-se?
Florência, ao mesmo tempo — Carlos!
Emília — Primo!
Carlos — Ah, ah, ah!
Ambrósio, enfurecido — Ainda uma vez, obedece-me, ou...
Carlos — Que cara! Ah, ah! (AMBRÓSIO corre para cima de CARLOS.)
Florência, metendo-se no meio — Ambrosinho!
Ambrósio — Deixe-me ensinar a este malcriado.
Carlos — Largue-o, tia, não tenha medo.
Emília — Carlos!
Florência — Sobrinho, o que é isso?
Carlos — Está bom, não se amofinem tanto, voltarei para o convento.
Ambrósio — Ah, já?
Carlos — Já, sim senhor, quero mostrar a minha obediência.
Ambrósio — E que não fosse.
Carlos — Incorreria no seu desagrado? Forte desgraça!...
Florência — Principias?
Carlos — Não senhora, quero dar uma prova de submissão ao senhor meu tio... É, meu tio, é... Casado com minha tia segunda vez... Quero dizer, minha tia é que se casou segunda vez.
Ambrósio, assustando-se, à parte — O que diz ele?
Carlos, que o observa — Não há duvida...
Florência , para Emília — O que tem hoje este rapaz?
Carlos — Não é assim, senhor meu tio? Venha cá, faça-me o favor, senhor meu rio. (Travando-lhe do braço.)
Ambrósio —Tira as mãos.
Carlos — Ora, faça-me o favor, senhor meu tio, quero-lhe mostrar uma coisa; depois farei o que quiser. (Levando-o para a porta do quarto.)
Florência — O que é isto?
(continua...)
PENA, Martins. O Noviço. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17004 . Acesso em: 29 jan. 2026.