Por José de Alencar (1875)
A todos os pormenores dessa comezinha operação, no dobrar a folha de papel, encerrá-la na capa, derreter o lacre e imprimir o sinete, a moça deliberadamente aplicava a maior atenção e esmero.
Ou essa carta era destinada a quem tudo lhe merecia, ou nesse apuro e cuidado buscava Aurélia disfarçar a hesitação que a surpreendera no momento de realizar uma idéia anteriormente assentada.
Depois de sobrescrita a carta, a moça tirou do segredo da secretária um cofre cor de sândalo embutido de marfim.
Havia ali entre cartas e flores murchas um cartão de visita, já amarelo, que ela escondeu no bolso do roupão, depois de guardado na sua carteirinha de veludo.
Ao som do tímpano apareceu um criado. Aurélia entregou-lhe a carta com um gesto vivo e a voz breve e receosa de súbito arrependimento.
- Para o Sr. Lemos! Depressa!
Sentiu então Aurélia essa quietude que sucede às lutas do coração. Ela tinha afinal resolvido o problema inextricável de sua vida; e em vez de abandonar-se ao acaso e deixarse levar pelo turbilhão do mundo, achara em sua alma a força precisa para dirigir os acontecimentos e dominar o futuro.
Daí provinha a calma de que revestia-se ao deixar o toucador e que outra vez imprimia à sua beleza uma doce expressão de melancolia e resignação.
D. Firmina como de costume, esperava que Aurélia dispusesse a maneira por que passariam a manhã, pois a viúva não tinha outra ocupação que não fosse agradar à menina, fazer-lhe companhia e prestar-se a todas as suas vontades e caprichos.
Para isto recebia além do tratamento uma boa mesada que ia acumulando para os tempos difíceis, como já os havia passado logo depois da perda do marido.
- Você não sai hoje, Aurélia?
- Pode ser. Mas não se constranja por meu respeito.
- Há de ficar sozinha?
- Tenho em que empregar o tempo. Um negócio grave! Tornou a menina sorrindo.
- É já alguma penitenciazinha?
- Ainda não; é a profissão de noviça.
Nessa ocasião e no meio das risadas da menina, anunciaram o sr. Lemos, que foi imediatamente introduzido na sala.
- Recebi sua carta em caminho; ia ao Machado. Estou às suas ordens, Aurélia.
Era o senhor Lemos um velho de pequena estatura, não muito gordo, mas rolho e bojudo como um vaso chinês. Apesar de seu corpo rechonchudo tinha certa vivacidade buliçosa e saltitante que lhe dava petulâncias de rapaz, e casava perfeitamente com os olhinhos de azougue.
Logo à primeira apresentação reconhecia-se o tipo desses folgazões que trazem sempre um provimento de boas risadas com que se festejam a si mesmos.
Quando o Lemos na qualidade de tio fora pelo juiz de órfãos encarregado da tutela de Aurélia, deu-se um incidente que desde logo determinou a natureza das relações entre o tutor e sua pupila.
Pretendia o velho levar a menina para a companhia de sua família.
Opôs-se formalmente Aurélia; e declarou que era sua intenção viver em casa própria, na companhia de D. Firmina Mascarenhas.
- Mas atenda, minha menina, que ainda é menor.
- Tenho dezoito anos.
- Só aos vinte e um é que poderá viver sobre si e governar-se.
- É a sua opinião? Vou pedir ao juiz que me dê outro tutor mais condescendente.
- Como diz?
- E tais argumentos lhe apresentarei, que ele há de atender-me.
A vista desse tom positivo, o Lemos refletiu, e julgou mais prudente não contrariar a vontade da menina. Aquela idéia do pedido ao juiz para remoção da tutela não lhe agradara. Pensava ele que às mulheres ricas e bonitas não faltam protetores de influência.
Logo depois dos cumprimentos, D. Firmina retirou-se para deixar a moça em liberdade. Bem desejos tinha a viúva de assistir a essas conferências que o Lemos costumava Ter de vez em quando com a pupila acerca de contas da tutela; mas neste ponto Aurélia era de extrema reserva e não gostava que ninguém entendesse com o que ela chamava seus negócios.
- Faça favor, meu tio! Disse a moça abrindo uma porta lateral.
Essa porta dava para um gabinete elegantemente mobiliado; o centro era ocupado por uma banca oval, como o resto dos trastes, de erable e coberta com um pano azul de franjas escarlates. Sobre a mesa, em salva de prata, havia o tinteiro e mais preparos de escrever.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.