Por José de Alencar (1872)
- Não disse? exclamou a moça desatando a risada com extremo prazer.
- Iuh!... iuh!... fez a mestra arremedando o português. Que quer dizer iuh?...
Neste momento um cavaleiro a galope assomou na curva do caminho, e encontrou-se de frente com a moça e sua comitiva. Era Fábio que voltava do seu passeio gorado; ao avistar o grupo, moderou o andar do animal para melhor examinar as pessoas, com especialidade a gentil amazona.
Cumprimentou respeitosamente a moça, que retribuiu-lhe com uma inclinação da fronte, bastante graciosa para revelar a fina educação, mas tão reservada e altiva que não permitia a quem recebesse dirigir-lhe uma palavra, ou aproximar-se.
O “Galgo” e o formoso isabel também se cortejaram: o cavalo brasileiro, vivo, ardente e prazenteiro, enfreando-se garboso e soltando um ligeiro nitrido de prazer; o cavalo do Cabo, com o cumprimento protetor que um ministro enfatuado se digna deferir a um deputado novel.
Como o jovem deputado, o jovem corcel, vendo aquela fatuidade, sentiu certo prurido na pata, mas pelo respeito ao cavaleiro que o montava, pela decência devida à boa sociedade, e sobretudo pela educação que lhe dera o dono, desprezou a arrogância do colega.
- É este o moço, menina? perguntou a inglesa motejando.
- Não, Mrs. Trowshy. Este é outro: é rival do primeiro, replicou a moça. Não viu que cumprimento lhe fez? Creio que teremos duelo! É como há de acabar o romance!
E o riso que se escondera nas covinhas da face, quando se aproximara um estranho, voltou de novo ao lábio da moça.
- Hop! hop! exclamou ela, desaparecendo em um tempo de galope.
III
A pouca distância, Fábio tendo apressado a marcha do animal, ouviu uma voz sua conhecida que recordava à surdina um tema da Norma.
- Ainda estás por cá, Ricardo? disse ele. Parece que não te lembras do almoço?
Ricardo, que estava embrulhando os lápis e fechando o álbum para ir-se, ergueu a cabeça surpreso.
- Oh! E o piquenique?
- Ora! Não me fales! Os tais sujeitos fiaram-se uns nos outros, e afinal querendo ser muito espertos ficaram todos logrados, e me lograram a mim. Apenas percebi a coisa, mosquei-me a toda pressa para não perder o magro cafezinho da tia.
- E vieste num galope desesperado? disse Ricardo passando a mão pelos peitos do cavalo, umedecidos de suor, assim como o ventre.
- Qual? Isso é calor: o sol está muito quente e o “Galgo” é tão fogoso! Sua por nada.
- Eu creio que tu ainda és mais fogoso que ele, Fábio! Disse Ricardo ganhando o caminho na direção em que viera. Fábio apeou-se, e atirando as rédeas ao pescoço do “Galgo”, seguiu ao lado do amigo.
- Viste quem passou aqui?
- Uma moça? disse Ricardo sorrindo.
- Conheceste?
- Não.
- É a Guida!... A filha dos Soares.
- Soares... Um ricaço?
- Um milionário, um bezerro de ouro, uma espécie de Midas, que tem o dom de transformar tudo em dinheiro.
- Começando pela própria consciência? observou Ricardo.
- Ah! Ele era capaz de vender-se aproveitando a alta, para comprar-se depois na baixa, ganhando alguns contos de réis na operação.
- Já vejo que é uma grande cabeça em finanças. É pena que não se aplicasse à política; seria o criador de uma situação!
- Mas vem cá, Ricardo. No fim de contas hás de confessar que isso de consciência é traste de pobre. Eu a comparo a uma mala de couro, ou uma canastra de pau. Numa casa rica seria sumamente ridículo!...
- Queres então dizer...
- Entendo que ninguém pode enriquecer, deixando-se levar pelos conselhos da tal velha rabugenta, que se agasta com a menor coisa e de tudo se aflige.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.