Por José de Alencar (1875)
Ajoelhou então o sertanejo à beira do canapé; tirando do peito uma cruz de prata, que trazia ao pescoço, presa a um relicário vermelho, deitou-a por fora do gibão de couro. Com as mãos postas e a fronte reclinada para fitar o símbolo da redenção, murmurou uma avemaria, que ofereceu à Virgem Santíssima como ação de graças por haver permitido que ele chegasse a tempo de salvar a donzela.
Terminada a oração, volveu a vista em torno como se temesse que as paredes se crivassem de olhos para espiá-lo, e perscrutou o semblante da donzela com uma expressão pávida e suplicante. Afinal, trêmulo, pálido, qual se cometesse um crime, curvou-se e beijou a franja que guarnecia o fraldelim do roupão, como se beija a mais santa das relíquias.
Tênue suspiro exalou dos lábios já rosados da donzela; a mão esquerda moveu-se com um brando gesto que a aproximara do peito. O mancebo retraíra-se vivamente par ao lado da cabeceira: e à medida que os sinais do recobro se manifestavam na menina, ele, sempre voltado para o canapé, sem tirar-lhe os olhos do semblante, se afastava de costas em direção à varanda. Cada movimento de D. Flor era um passo que êle dava, pronto a desaparecer da sala como uma sombra.
Já próximo à porta, violenta comoção o abalou. Dos lábios frouxos da donzela se desprendera em mavioso queixume um nome, e esse nome era o seu:
– Arnaldo!
Irresistível impulso arrojou-o para a donzela; mas, como o cedro que o vento inclina, sem arranca-lo do solo onde lançou a profunda raiz, o sertanejo tinha dentro d’alma um poderoso sentimento, que lhe encadeava os assomos da paixão, e o soldava ao pavimento.
Foi lentamente e com supremo esfôrço tornando do primeiro elance, até que, arrancando-se enfim ao encanto que alí o prendera, desapareceu da sala.
Levantara-se então um grande alarido no terreiro da casa.
III – Chegada
Quando o capitão-mór reconheceu os primeiros sinais do incêndio, preveniu a gente de sua
escolta.
— Queimada, Agrela? disse êle surpreso. Neste tempo e nestas paragens, não pode ser.
— É que vem de longe, observou o tenente fincando as esporas no cavalo. Toca avante a escolta.
O trôço de cavaleiros disparou com a machada em punho, desbastando o mato de uma e outra banda para formar um largo aceiro que impedisse o fogo do propagar-se pela floresta.
Enquanto êles abatiam as maravalhas e ramadas altas que facilmente concebiam a chama e a comunicavam, os peões, chamados a tempo, arredavam para longe todo êsse chamiço, isolando os grossos troncos, que se não podiam facilmente derrubar na ocasião.
No meio dessa faina que o capitão-mór dirigia em pessoa e animava com a palavra e o exemplo, soou um grito de aflição. Partira de D. Genoveva, a quem de repente acudiu a idéia do perigo que podia correr a donzela nesse instante, se é que já não fôra vítima da horrível catástrofe.
— Minha filha!… Flor!… bradava a desolada mãe.
E ora queria atravessar por dentro da mata abrasada, levada pelo desespêro à busca da menina; ora voltava-se para o marido com as mãos postas, suplicando-lhe que a amparasse naquela ânsia.
Rápida contração frisou o rosto grave e plácido do capitão-mór, que logo dominou-se. Podia medir-se a energia que recalcou a primeira impulsão, pela fôrça com que o velho se firmou na sela, vergando ao seu pêso o espinhaço da cavalgadura à feição de um arco.
— Não se assuste, D. Genoveva! disse com voz sossegada. Nossa filha não corre perigo.
— De-certo, acudiu Agrela; a doninha passou antes que o fogo chegasse ao caminho, senão teria voltado.
— Esteja descansada, minha mulher. D. Flor já chegou à nossa casa, observou o capitãomór e tomou ao serviço: Aguenta, rapazes!
— Quem sabe, sr. Campelo; Flor é tão animosa! Talvez teimasse em passar para mostrar que não tem mêdo.
— Mas, senhora dona, insistiu o Agrela, se tivesse acontecido alguma coisa, do que Deus nos livre e guarde…
— Amém! disse a dama.
O capitão-mór tirou o chapéu, gesto que toda a escolta imitou.
— Por fôrça que se havia de ouvir!
— Com êsse barulho do fogo, que parece uma trovoada!…
— Lá o grito da doninha, não digo nada, mas o rincho do cavalo chega longe; e então quando o fogo começasse a chamuscar-lhe a pele!
— Convença-se do que lhe digo, senhora, acrescentou o capitão-mór.
— A prova aí está! Não ouve, senhora dona? Um cavalo que está rinchando lá em casa?
— É verdade! exclamou D. Genoveva.
Agrela aplicou o ouvido.
— E não é outro senão o baio!
— Está vendo, D. Genoveva?
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.