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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

Sucede a esta embriaguez do amor o mesmo que à embriaguez do álcool. A princípio basta-lhe o vinho fino e aristocrático; depois carece da aguardente; e por fim já não a satisfaz a infusão do gengibre em rum, isto é, a larva de um vulcão preparada à guisa de grogue.


CAPÍTULO  IV

Ao mesmo tempo que o nosso leão, entrava Leopoldo de Castro na modesta habitação que então ocupava na Glória.

Quando lhe fugira a celeste visão, o mancebo foi seguindo com o passo e com os olhos o carro que levava sua alma presa àquele rosto encantador. O passo era rápido e o olhar ardente; um ansiava por chegar; o outro quisera atrair pela força da paixão, pelo ímã das centelhas magnéticas que desferia a alma.

Fosse ilusão dos sentidos perturbados pela comoção interior, ou breve e confusa percepção da realidade, julgou o moço ver, no momento do dobrar o carro pela Rua Sete de Setembro, um talhe esbelto inclinar-se para a frente, e aparecer de relance um rosto alvo, donde escapou-se vivo e rápido olhar.

Leopoldo não tinha o intento de alcançar, nem mesmo seguir, o carro que fugia com velocidade; mas embalava-o a esperança de que um obstáculo qualquer, impedindo por instantes o livre transito, lhe permitisse outra vez contemplar a moça. Quando, porém, isso não sucedesse, consolava-o a idéia de conhecer a direção que tomaria a linda vitória.

— Se eu soubesse ao menos para que lado mora ela!... Esse ponto seria o meu horizonte, o meu céu. Me voltaria para ali quando adorasse a Deus e quando conversasse com ela. Amaria as estrelas, as nuvens e até as borrascas dessa banda do firmamento; amaria as ruas, as calçadas e até a poeira desse arrabalde da cidade.

O mancebo vagou assim durante duas horas, percorrendo as ruas sem destino. Não era tanto a esperança de ver a moça, ou somente o carro, como a necessidade de ocupar seu espírito, o que o impelia nessa perseguição de uma sombra.

— Eu tornarei a vê-la, pensava ele consigo; e ela me há de amar, tenho convicção. O amor é um magnetismo; eu acredito que o magnetismo se resume nele; que a lei da atração não é senão a lei da simpatia; os pólos são a cabeça e o coração, na terra como no homem. Se ela for a mesma que eu vi com os olhos de minha alma, a mesma que se revelou à minha paixão, aquela a que devo unir-me eternamente para formar um ser mais perfeito, eu caminharei para ela, como ela para mim, impelidos por uma força misteriosa, por mútua aspiração.

Com o animo repousado por essa convicção que nele se derramara, entrou Leopoldo em casa. Aí o esperava o isolamento em que se ia escoando sua vida, depois da perda de uma irmã a quem adorava.

Nessa irmã tinha ele resumido todas as afeições da família, prematuramente arrebatada à sua ternura; o amor filial, que não tivera tempo de expandir-se, a amizade de um irmão, seu companheiro de infância, todos esses sentimentos cortados em flor, ele os transportara para aquele ente querido, que era a imagem de sua mãe.

Essa perda deixara um vácuo imenso no coração de Leopoldo; a princípio enchera-o a dor, depois a saudade; agora essa mesma terna saudade sentia-se desamparada na profunda solidão daquele coração ermo. O mancebo carecia de uma afeição para povoar esse deserto de sua alma, de uma voz que repercutisse nesse lúgubre silêncio. É tão doce partilhar sua melancolia, ou seu prazer, com um outro eu, com um amigo ou uma esposa. São dois ombros para a cruz, e dois peitos para a alegria; alivia-se o peso, mas duplica-se o gozo.

Ao cair da tarde, quando o crepúsculo já desdobrava sobre a cidade o véu de gaza pardacenta, Leopoldo, sentado à janela  de peitoril de sua casa, fumava um charuto, com os olhos engolfados no azul diáfano do céu, onde cintilava a primeira estrela.

A seus pés desdobrava-se a baía plácida e serena como um lago, com a sua graciosa cintura de montanhas, caprichosamente recortadas.

O espírito do moço não se embebia decerto na perspectiva dessa encantadora natureza, sempre admirada e sempre nova. Ao contrário, abandonavase todo às recordações de seu encontro pela manhã e aos enlevos que lhe deixara a contemplação da linda moça. Passava e repassava em sua memória, como em um cadinho, todas as circunstâncias mínimas deste grande e importante acontecimento, desde o momento em que assomou a visão até que desapareceu por último ao dobrar o canto da rua.

Achava nisso o mesmo prazer que um menino guloso experimenta em chupar novamente os favos já saboreados: lá ficou um raio de mel, que o lábio ávido colhe. Para Leopoldo esses raios de mel eram os olhares, os movimentos, os sorrisos da moça, avivados pela maior contensão do espírito.

Houve uma ocasião em que o mancebo quis representar em sua lembrança a imagem da moça; naturalmente começou interrogando sua memória a respeito dos traços principais. Como era ela? Alta ou baixa, torneada ou esbelta, loura ou morena? Que cor tinham seus olhos?

(continua...)

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