Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)
Estef. Acho-te desassossegada...
Teodora A minha luta com Firmino continua e se agrava.
Estef. No jogo da teima não há mulher que não ganhe a partida ao marido.
Teodora Mas quando não é só o marido a vencer?... Até bem poucos dias, o que me preocupava era que essa teima de Firmino demorava o casamento de Carlos e que a demora podia aproveitar a algum astucioso e feliz pretendente de Corina.
Estef. Com efeito! Os especuladores são tantos!...
Teodora Agora, porém, é o meu maldito enteado que me está ameaçando com as mais temíveis probabilidades da sua vitória...
Estef. Ora... Peregrino... Corina o trata com tanta indiferença...
Teod.
Tu és como minha irmã: a nossa amizade...
Estef. Começou no colégio... (olhando em torno) ninguém nos ouve: começou no Colégio há trinta e cinco anos.
Teod.
É por isso que me animo a dizer-te, pensando no meu pobre Carlos, o que aliás por lealdade também te diria, se teu sobrinho...
Estef. Não falemos em Fortunato: sabemos ambas que se ele um dia pôs-se a requestar dona Corina, soube esta desenganálo para sempre: além disso eu te comuniquei o projeto de casamento que formei desde muito para meu sobrinho.
Teod.
Eu me comprometi a auxiliar-te com todo o esforço nesse empenho. Creio até que tenho feito já alguma coisa.
Estef. Muito: e uma mão lava a outra: ocupemo-nos de Carlos.
Teod.
Vou confiar-te um segredo delicadíssimo e pedir-te um conselho.
Estef. O segredo ficará no coração; o conselho sairá da reflexão.
Teod.
Isto morre aqui: eu suspeitei... e enfim verifiquei que Peregrino... abusando da casa de seu pai... entretinha relações secretas... criminosas com a mísera Corina...
Estef. Oh!... É horrível!... Estás bem certa do que dizes?... Teod. Infelizmente é verdade.
Estef. Que escândalo! Mas então é caso julgado... pobre Carlos!
Teodora Conforme...
Estef. Pois aí há conforme?.. .(cravando os olhos em Teod.) Ah! Sim! Neste mundo tudo é conforme: eu também juraria que dona Corina detestava Peregrino e todavia.. mas.. conforme o que?...
Teod.
Corina é ainda no seu erro tão inocente como tola, e por felicidade no colégio a tornaram fanática: há quatro dias que tive a certeza do seu opróbrio e não tardei em recorrer aos bons ofícios de minha religiosa tia, e a boa da velha reteirou o demônio com tanta eloquência que a triste menina malvadamente enganada, apenas agora compreende o que fez, e abomina Peregrino com sentimento de horror.
Estef. (sorrindo) É um pouco inverossímil: eu, no teu caso, desconfiava.
Teod.
A tia Suzana assegura o arrependimento de Corina, que parece ter sido vítima de sua rude ignorância a certos respeitos...
Estef. Mas o diabo não sai tão facilmente do corpo, em que conseguiu uma vez entrar.
Teodora Julgas que estou sossegada? eu passo as noites velando: temo da influência fatal adquirida por Peregrino... tenho medo de que amanhã, ou em outro dia, Eva de novo atenda à serpente... mas dada a hipótese do arrependimento sincero e essa ignorância do mal que se praticava...
Estef. Entendo... (sorrindo) dada a hipótese...
Teod.
Nestas circunstâncias devo ainda pensar em Corina para esposa de meu filho?... tenho escrúpulos: aconselha-me.
Estef. Tanta inocência da alma obriga a esquecer em dona Corina o erro que foi só da ignorância: não refletes assim?...
Teod.
Confesso que penso desse modo. Sê franca: faço bem em insistir no casamento de Corina com o meu Carlos?...
Estef. Fazes... fazes... Teod. Dizes isso em um tom...
Estef. De quem se admira da hesitação: dona Corina não é só moça bonita... é meio milhão. Teima.
Teod.
Tu me resolves; mas em tal caso preciso do teu concurso. Corina é muito amiga tua; quero que patrocines a causa de Carlos.
Estef. Como se ele fosse meu filho: hei de fazer prodígios. Verás. Teod. (apertando-lhe a mão) Minha Estefânia!...
Estef. Carlos ainda não conseguiu tocar o coração de dona Corina?...
Teod.
Tem perdido o seu tempo em êxtases poéticos: o inocente bate à porta daquele coração a compassos diversos.
Estef. Com uma menina de quinze anos os versos tem seu lugar. Teod. A propósito: aqui está um acróstico do nosso poeta.
Estef. Lê.
Teod.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de Macedo. Uma pupila rica.