Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
ADRIANO – Mas eu te adoro, Dionísia!
DIONÍSIA – Que amor é o seu? ... amor baixo e vil que me abandona e me condena a ser escrava de outro homem!... isso é amor?... que amor é o seu?
ADRIANO – Queres sabê-lo? é o amor violento e fatal, o amor crime, a paixão raiva! oh! é a pesar meu que te amo... adúltero possesso, eu me prendo a teus pés, demônio de fascinação!... maldigo de ti e te adoro, maldigo deste amor e sou teu escravo!...
DIONÍSIA – Que paixão!... eu porém toda do meu amor quis ser, pedi, peço ainda para ser só tua... só tua... e tu... e o senhor me obriga à mais vil infidelidade; porque me deixa em poder de um falso tio... amante que hoje abomino, e que...
ADRIANO – Ah!... tens razão... é para enlouquecer... mas, Dionísia,eu sou casado...e o dever... as conveniências...
DIONÍSIA – Portanto a minha infâmia e a sua hipocrisia!... não me sujeito a tal abjeção... depois que amei... oh! não me sujeito mais: não me queixo... sou o que sou pelo que fui; é irremediável... mas... sua e de Bráulio... .oh!...não! esqueça-me...farei por esquecê-lo...
ADRIANO – Esquecer-te?... eu?... Dionísia, tu me atordoas, me exasperas e sempre me dominas: eu te peço... dá-me algum tempo...
DIONÍSIA – Algum tempo?... para quem o pede?... para Bráulio... ou para si?...sr. Adriano, não acha que isto é indigno e vil?...
ADRIANO – Em oito dias te livrarei deste inferno... serás minha só...
DIONÍSIA – Oito dias?... que pressa! amada por Bráulio, posso esperar um ano...
ADRIANO – Dionísia!
DIONÍSIA (Voltando-lhe as costas.) – Boa noite.
ADRIANO – Pois bem será como quiseres... quando quiseres... amanhã à hora da sesta de Bráulio receber-me-ás e marcaremos o dia...
DIONÍSIA – Amanhã?... sim...venha; mas com a condição de levar-me depois de amanhã para o teto mais humilde, onde caibamos nós dois... e onde eu seja tua só...
depois de amanhã... veja bem... tua só, meu Adriano... sim?...
ADRIANO – Oh!... perdição!...
DIONÍSIA (Abrindo os braços.) – Sim, meu Adriano?... sim?... tua só?...
ADRIANO – Sim!... sim!... (Abraça-a.) tu és como Dejanira e me arrojas ao vulcão! (Curva-se, beija-lhe a mão, Dionísia afaga-lhe os cabelos.)
DIONÍSIA – Fica assim!...como és belo! como te amo! como serei feliz!...
ADRIANO – Feiticeira! fazes-me esquecer tudo! eis os pendentes que ontem me pediste (Tira do bolso uma caixinha e dá-a.) São do teu gosto?...
DIONÍSIA (Abrindo a caixa.) – Magníficos! para que tão ricos?... não quero que te arruínes por mim: lindíssimos!... mas, jura que depois de amanhã...
ADRIANO – Juro-o...
DIONÍSIA (Sorrindo.) – Vem, pois, amanhã à tarde... vem, formoso e feliz ladrão da sesta!... e agora, pobre ladrão da noite, queres beijar-me os olhos que dizes ser tão bonitos? ...
ADRIANO – Oh! minha Dionísia!... (Abraça-a e beija-lhe os olhos.)
CENA X
DIONÍSIA, que vai-se logo, ADRIANO E CINCINATO
CINCINATO – Eu sou míope: podem continuar que não vejo coisa que me espante.
DIONÍSIA – Ah! (Vai-se correndo e rindo.) ADRIANO – Importuno!
CINCINATO – Ainda em cima do serviço que te prestei?... é caso em que água fria na fervura livra de pelação infalível. Esta Dionísia é uma espécie de polvo...
ADRIANO – É uma mulher alucinadora, e irresistível... Cincinato, meu amigo, meu irmão... é a fatalidade!... tem sido e são inúteis os teus conselhos... estou perdido...
CINCINATO – Ainda é tempo.
ADRIANO – É muito tarde... a miséria pelo jogo... o frenesi, a loucura pela paixão criminosa... oh! eu sou um desgraçado... eu reconheço o mal que faço e me arrasto para o abismo.
CINCINATO – Não dou um bilhete das barcas Ferry pelo teu juízo... eu quebro louça, porém, assim não.
ADRIANO (Pensando,) – E depois de amanhã... (Súbito.) vou jogar. (Indo-se.)
CINCINATO – Hoje não jogas: há mouros na costa; o espanhol apurou a ladroeira: Demétrio e outros já estão a toda isca. Adriano! sê homem! foge desta espelunca... e volta para o lado de tua bela e nobre esposa...
ADRIANO – Para que a lembras?... sou algoz... eu sei... mas bem vês que desatino...
CINCINATO – Lá o ninho do amor puro... lá beleza, paciência, suavidade, virtudes... aqui... pior! vou caindo na sensibilidade e saio do meu elemento... Adriano!
sabes onde estamos?...
ADRIANO – Em uma casa de jogo, cujo empresário é um miserável.
CINCINATO – Sim... casa de jogo magistral. Quadro primeiro: sala da frente iluminada a gás; mobília de mogno e piano de jacarandá; personagens, uma velha que toca, e uma moça que canta; a velha representa o papel de bumbo, pratos e campainhas para não se ouvir da rua a balbúrdia do fundo da casa; a moça namorando de dia e cantando de noite representa o papel de alçapão e isca para apanhar passarinhos.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.