Por Joaquim Manuel de Macedo (1858)
Beatriz – Eis aí o que é falar bem: cá eu sempre fui inimiga de canalha.
Pantaleão – Sim... é isso mesmo: essa gente que não tem real de seu é uma verdadeira canalha!... Mas agora deixa-me só, que ouço os passos do meu inquilino farroupilha: anda, vai-te!
Beatriz – Eu sou uma criada sempre pronta a obedecer a Vossa Senhoria por cuja felicidade rezo sempre nas minhas bentas contas! (À parte) é um jagodes muito ordinário; mas é preciso fazer-lhe cortesias, porque dizem que tem dinheiro, como farinha! (A PANTALEÃO) Sou uma criada de Vossa Senhoria Excelentíssima... (Vaise)
CENA IX
Pantaleão e Adriano desesperado
Pantaleão – Usemos do meu direito de proprietário para tratar a este mequetrefe como convém.
Adriano (Atirando com o chapéu, e um rolo de músicas) – Estúpido editor! Falta-me à palavra! Recusa minhas músicas!... é necessário, diz ele, que eu tenha um nome... um nome!... um nome preciso eu para qualificar tão indigno procedimento!... e eu, que calculava com isso. (Sentidamente) obrigado a empenhar o meu relógio... a última lembrança de minha mãe! (põe uma clareza ou papel sobre a mesa) Porém, ele está seguro, e apenas puder tirá-lo do Monte de Socorro...
Pantaleão – Penso que, enfim, o senhor se resolverá a prestar-me dois minutos de atenção!
Adriano – Ah! É Vossa Senhoria, senhor Pantaleão?... perdoe-me, não o tinha visto... chegou muito a propósito...
Pantaleão – A propósito?... então está de maré cheia?...
Adriano – Sim; em maré cheia de tristeza... de angústias... de cólera... de...
Pantaleão – É moeda que não corre em minhas propriedades.
Adriano – Pois vejamos: o que quer o senhor de mim?...
Pantaleão – Duas coisas muito simples: primeira, despedi-lo de inquilino de uma das minhas propriedades; segunda, despedi-lo de mestre de música de minha filha Ifigênia Pantalôa.
Adriano (À parte) – Como via tudo a melhor! Queda!... em cima de queda, coice... em cima de coice... um dardo, que atravesse a esta súcia toda! Estou bonito! Estou mesmo a ver jurar testemunhas!... ( A PANTALEÃO) Suponho que tenho o direito de perguntar-lhe os motivos de duas despedidas tão súbitas, como intempestivas. Pantaleão – Pois não! Eu lhe satisfaço: não me convém que o senhor continue a dar lições de música à minha filha, porque vejo que ela nenhum progresso faz; gasto em sua educação seiscentos mil réis por ano, e isto dura já há dez anos, o que perfaz a quantia de seis contos de réis, que com juros compostos, iam muito longe, e minha filha se vai tornando muito cara!
Adriano – E tenho eu a culpa de que Dona Ifigênia não tenha disposições para a música?...
Pantaleão – Quê! Pois a filha de um homem rico, de um homem que já teve duas vendas e que é hoje senhor de tantas propriedades, deixaria de ter disposições para a música?... ela tem habilidade... mesmo habilidade rara, o que lhe falta é um mestre de capacidade.
Adriano (À parte) – E ature-se lá um estúpido destes! (A PANTALEÃO) Então é este o único motivo por que sou despedido?...
Pantaleão – Além disso ela tem coração... esse coração tem suas fraquezas... e eu tenho reparado que minha filha quando olha para o senhor fica sempre vermelha como um camarão.
Adriano – Sim?... talvez aperte muito o espartilho.
Pantaleão – Em suas lições de desenho ela não faz um nariz, uma orelha, um olho, que eu não encontre o seu mesmo nariz, a sua mesmíssima orelha, e até o seu mesmíssimo olho!... em bom português: desconfio que minha filha está se apaixonando pelo senhor.
Adriano – É possível... e realmente isso não me faz mal nenhum.
Pantaleão – Mas a mim faz muito: eu, que já tive duas vendas, e que sou hoje senhor de tantas propriedades; eu que tenho uma certa posição, que sou capitão da guarda nacional, não havia de ir entregar minha linda filha a um pobre músico, que nem ao menos paga o aluguel da casa em que mora.
Adriano – Não briguemos por isso: pagarei o aluguel desta casa...
Pantaleão – Pagarei, pagarei, e pagarei, está o senhor a me dizer há três meses!... e eu devo afirmar-lhe que por este terceiro andar acabam de me oferecer mais quatro mil réis por mês, além do que o senhor me devia pagar, e portanto...
Adriano – Pois
bem, eu cedo; dê-me um pequeno quarto, uma mansarda qualquer em relação com os
meus poucos meios, e amanhã mesmo estarei mudado; pode crer: dou-lhe palavra de
honra que em menos de um quarto de hora mudarei toda a minha mobília... a minha
louça... os meus trastes de luxo... enfim, tudo... tudo...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O Primo da Califórnia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16670 . Acesso em: 6 jan. 2026.