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#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Frederico (À parte) — Foi epigrama; reconheço-o pela segunda edição.


CENA VIII

Os precedentes, Reinaldo e Lúcia, cumprimentos, etc.

Leonina e Hortênsia — Oh! Dona Lúcia! Senhor Coronel!

Maurício — Como vamos, meu caro senhor coronel?...não há que perguntar, sempre remoçando...

Reinaldo (Olhando para Leonina) — Passei o resto da noite cheio de saudades e um dia inteiro anelante de esperanças...

Leonina (Á parte) — Aquilo é comigo. (A Reinaldo). Não precisa dizer mais: o teatro italiano faz-lhe saudades no fim das óperas, e acende-lhe esperanças com os cartazes. Vossa Excelência, creio eu, traz sempre um cartaz no coração!

Reinaldo — Minha senhora, dou-lhe minha palavra de honra que não sei o que se cantou ontem no teatro italiano.

Lúcia — Dona Leonina, meu paizinho levou hoje o dia inteiro a falar no seu fichu à Marie-Antoinette.

Reinaldo — E o seu balão, Excelentíssima! O seu balão é capaz de levar a gente às nuvens!

Leonina (A Filipa) — Você já viu homem mais tolo?...

Filipa (A Leonina) — Homem não, porém mulher, já vi.

Leonina (A Filipa) — Quem é?

Filipa (A Leonina) — A filha, que tem tanto de feia como de desfrutável. ( A Lúcia)

Dona Lúcia, você é adorável!

Lúcia — Por que diz isso?...

Frederico — Perdão; mas é a nós os homens que pertence dizer esse porquê, visto que somos nós os que o sentimos melhor e mais profundamente.

Reinaldo (Que conversava com Maurício) — É possível!...o meu amigo Anastácio?

O bom velho que me dava confeitos, quando eu era cadete?

Hortênsia — É verdade, depois de dezoito anos de ausência, chegou-nos hoje de

Minas o padrinho de Leonina, o meu cunhado Anastácio. (Cumprimentos).

Reinaldo — Ditoso padrinho de tão formosa afilhada! O meu velho amigo!...Minha senhora, amanhã virei pedir-lhe de jantar ...quero jantar com o meu amigo Anastácio.

Hortênsia — Mas Vossa Excelência esquece que o comendador Pereira convidounos para passar o dia de amanhã no Jardim Botânico; convenha pois em que todos, que nos achamos presentes, jantemos juntos depois de amanhã para fazer uma saúde ao meu excelente cunhado.

Pereira (Dentro) — Com a devida vênia!...

Maurício (Indo recebê-lo) — Oh! senhor comendador!


CENA IX

Os precedentes e o Comendador Pereira.

Hortênsia — Senhor comendador, Vossa Excelência gosta demasiadamente de se fazer desejar!

Pereira — Não é isso, minha senhora, não é isso; é que eu venho desesperado...furioso...

Maurício — Então que há?

Pereira — Um atentado que revolta as leis da natureza! (Levantam-se todos).

Reinaldo — Diga depressa, senhor comendador: Vossa Excelência está expondo as senhoras aos ataques nervosos.

Pereira — O mundo está perdido!...

Lúcia — É algum novo cometa, senhor comendador?

Frederico — Qual, minha senhora, os cometas abundam tanto, que já não assustam a pessoa alguma.

Pereira — É coisa muito pior do que dez cometas juntos: é o esquecimento dos deveres mais sagrados, e da honra das famílias.

Hortênsia — Isso então é muito sério; diga o que foi...

Pereira — Mais um passo dado para o descrédito da aristocracia...

Reinaldo — Quem vem lá?...Passe de largo!

Pereira — Lembram-se de Dona Inocência, a filha de um barão, e descendente de uma nobre casa de Portugal?...

Fabiana — Sim...sim...a baronesinha, como todos a chamam...

Pereira — Sangue puro de fidalga! Sangue puro como o de um cavalo árabe!...

Filipa (A Leonina) — A comparação parece de boleeiro.

Pereira — Pois bem...saibam todos: casou-se hoje.

Reinaldo (À parte) — Ai! Tenho uma namorada de menos.

Vozes — Casou-se?...mas com quem?...

Pereira — Com um negociante de retalhos!!!

Hortênsia — De retalhos?!...coitadinha!

Fabiana — Passou de filha de barão a noiva de retalhos! pobrezinha!...

Reinaldo — Mas o pai...matou-se...não é assim?

Pereira — Vergonha das vergonhas! Abraçou o genro.

Reinaldo — É o progresso!...são as luzes do século!...

Hortênsia (Com fogo) — Não pode haver nobreza, onde os nobres se aviltam misturando-se com a canalha!...

Pereira — É inaudito!

Maurício — Paciência; mas esqueçamos aqueles que se esquecem de si mesmos.

Pereira — Nós, porém, lembremo-nos sempre do que somos!...

(continua...)

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