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#Autos#Literatura Portuguesa

Auto da Festa de São Lourenço

Por José de Anchieta (1587)

AIMBIRÊ

Cala a boca, beberrão, só por isso és tão valente, moleirão impertinente!

SARAVAIA

Ai de mim, me prenderão, mas vou por te ver contente.

E a quem vamos devorar?

AIMBIRÊ

A algozes de São Lourenço.

SARAVAIA

Aqueles cheios de ranço? Com isto eu vou mudar meu nome, de que me canso.

Muito bem! Suas entranhas sejam hoje o meu quinhão.

AIMBIRÊ

Vou morder seu coração.

SARAVAIA

E os que não nos acompanham sua parte comerão.

(Chama quatro companheiros para que os ajudem.) Tataurana, traze a tua muçurana. Urubu, jaguaruçu, traz a ingapema. Sús Caborê, vê se te inflama pra comer estes perus.

(Acodem todos os quatro com suas armas)

TATAURANA

Aqui estou com a muçurana e os braços lhe comerei; A Jaguaraçu darei o lombo, a Urubu o crânio,

e as pernas a Caborê

URUBU

Aqui cheguei! As tripas recolherei, e com os bofes terei a panela a derramar. E esta panela verei minha sogra cozinhar.

JAGUARUÇU

Com esta ingapema dura as cabeças quebrarei, e os miolos comerei. Sou guará, onça, criatura, e antropófago serei.

CABORÊ

E eu que em demandas andei aos franceses derrotando, para um bom nome ir logrando, agora contigo irei estes chefes devorando.

SARAVAIA

Agora quietos! De rastros, não nos viram. Vou à frente. Que não escapem da gente.

Vigiarei. No tempo exato

ataquemos de repente.

(Vão todos agachados em direção a Décio e Valeriano que conversam)

DÉCIO

Amigo Valeriano minha vontade venceu. Não houve arte no céu que livrasse do meu plano o servo do Galileu.

Nem Pompeu e nem Catão nem Cesar, nem o Africano, nenhum grego nem troiano puderam dar conclusão a um feito tão soberano.

VALERIANO

O remate, grão-Senhor desta tão grande façanha foi mais que vencer Espanha. Jamais rei ou imperador logrou coisa tão estranha.

Mas, Senhor, esse quem é que vejo ali, tão armado com espadas e cordel, e com gente de tropel vindo tão acompanhado?

DÉCIO

É o grande deus nosso amigo, Júpiter, sumo senhor, que provou grande sabor com o tremendo castigo da morte deste traidor.

E quer, para reforçar as penas deste rufião, nosso império acrescentar com sua potente mão, pela terra e pelo mar.

VALERIANO

Mais me parece é que vem

a seus tormentos vingar, e a nós ambos enforcar. Oh! que cara feia tem!

Começo a me apavorar.

DÉCIO

Enforcar? Quem a mim pode matar, ou mover meus fundamentos? Nem a exaltação dos ventos, Nem a braveza do mar, nem todos os elementos!

Não temas, que meu poder, o que os deuses imortais me quiseram conceder, não se poderá vencer pois não há forças iguais.

De meu cetro imperial pendem reis, tremem tiranos. Venço a todos os humanos, e posso ser quase igual a esses deuses soberanos.

VALERIANO

Oh, que terrível figura! Não posso mais aguardar, que já me sinto queimar! Vamos, que é grande loucura tal encontro aqui esperar.

Ai! ai! que grandes calores!

Não tenho nenhum sossego. Ai, que poderosas dores! Ai, que férvidos ardores, que me abrasam como fogo!

DÉCIO

Oh, paixão! Ai de mim, que é o Plutão chegando pelo Aqueronte, ardendo como tição a levar-nos de roldão

ao fogo do Flegetonte.

Oh, coitado que me queimo! Esse queimado me queima com grande dor! Oh, infeliz imperador! Todo me vejo cercado

de penas e de pavor,

pois armado o diabo com seu dardo mais as fúrias infernais, vêm castigar-nos demais. Já nem sei o que hei falado com angústias tão mortais.

VALERIANO

O Décio, cruel tirano!

Já pagas, e pagará Contigo Valeriano, porque Lourenço cristão assado, nos assará.

AIMBERÊ

Ô Castelhano!

Bom Castelhano parece! Estou bem alegre mano, que Espanhol seja o profano que no meu fogo padece.

Vou fingir-me castelhano e usar de diplomacia com Décio e Valeriano, porque o espanhol ufano sempre guarda a cortesia.

Oh, mais alta majestade! Beijo-vos a mão mil vezes, por vossa grã-crueldade pois justiça nem verdade guardastes, sendo juizes.

Sou mandado por São Lourenço queimado, levá-los à minha casa,

onde seja confirmado vosso imperial estado em fogo, que sempre abrasa.

Oh, que tronos e que camas eu vos tenho preparadas, nessas escuras moradas de vivas e eternas chamas de nunca ser apagadas!

VALERIANO

Ai de mim!

AIMBIRÊ

Vieste do Paraguai?

Que falais, em Carijó.

Sei todas línguas de cor.

Avança aqui, Saravaia!

Usa tu golpe maior!

VALERIANO

Basta! Que assim me assassinas, não tenho pecado nada! Meu chefe é a presa acertada.

SARAVAIA

(continua...)

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