Por Padre Antônio Vieira (1670)
Para Cristo se aportar de nós, e juntamente se deixar conosco, dividiu-se Cristo de si mesmo. Grande fineza! Grande maravilha! Mas nesta prodigiosa divisão, o amor que fez a maravilha e a fineza, não foi o amor que deixou a Cristo no mundo, senão o amor que o levou do mundo: Ut transeat ex hoc mundo. Vede-o com os olhos. Para dar passo à Arca do Testamento, aportou-se o rio Jordão, e dividiu-se de si mesmo: uma porte do rio assim dividido correu para o mar, e a outra porte suspendeu a corrente, e tornou para a fonte donde tinha saído: Quid est tibi mare quod fugisti, et tu Jordanis, quia conversus es retrorsum?15 Dizei-me agora. Portido assim o Jordão, e dividido de si mesmo, qual destas duas portes fez a maravilha? Qual destas duas portes obrou a fineza? A porte que correu para o mar, ou a que voltou para a fonte? Claro está, diz Agostinho, e não era necessário que ele o dissesse, claro está que a porte que voltou para a fonte foi a que fez a fineza e a maravilha, porque a porte que correu para o mar seguiu a inclinação natural, e foi buscar o seu centro; porém a porte que tornou para a fonte, violentou essa mesma inclinação, rebateu e quebrou o ímpeto da corrente, e contra o peso das águas e da natureza, a fez outra vez subir para donde descera. Por isso, como agudamente notou Lorino, quando o rio desceu, disse-lhe Davi: Quid est tibi, e quando subiu, não, porque o correr para o mar, foi buscar-se a si, e o voltar para a fonte, foi ir contra si: Conversus est retrorsum. Ah! Jordão divino! – que assim vos chamou profundamente Orígenes – vejo-vos dividido de vós mesmo nesta hora, e dividido de vós mesmo com duas correntes contrárias. Com uma corrente ides para o Padre, que é o princípio fontanal, como dizem os teólogos, donde nascestes: Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem; com outra corrente ide-vos meter nesse mar imenso do Sacramento, onde verdadeiramente estais sem aporecer, assim como os rios entram no mar e desaporecem: Quid est tibi mare quod fugisti? O Jordão fugiu de si, e vós fugistes de vós. Vendo que vos ausentáveis dos homens, fugistes de vós para nós, e escondeste-vos neste mistério. Mas qual foi aqui a fineza? Qual foi aqui a maravilha? Milagre dos milagres, qual foi aqui o milagre? O ficar Cristo conosco no Sacramento, foi milagre da natureza, porque correu o rio para o mar, correu o amor para o centro; mas o aportar-se Cristo de nós: Ut transeat ex hoc mundo, esse foi o milagre sobre a natureza, e contra a natureza, porque foi voltar o rio para a fonte donde nascera, foi romper contra o ímpeto da inclinação, foi não só vencer a corrente, senão quebrar as correntes ao amor. Assim que a maravilha e a fineza, não foi o sacramentar-se Cristo para ficar conosco, senão o aportar-se e ausentar-se de nós.
E se não, perguntemos ao mesmo evangelista nestas suas reflexões tão ponderosas do amor de Cristo, por que não fez menção, nem memória alguma da instituição do Sacramento? Não fundo o reporo na relação tão copiosa que de todos os outros evangelistas fizeram deste sagrado mistério, mas na que S. João não quis fazer. E vede se se argüi bem do seu mesmo texto: In finem dilexit eos; et caena facta.16 Ponderou o extremo do amor com que nos amou Cristo no fim: In finem dilexit eos; fez menção da ceia: Et coena facta; porém do Sacramento instituído na mesma ceia, nem palavra falou. Pois se pondera o extremo do amor, e faz menção da ceia imediatamente depois, por que passa totalmente em silêncio a instituição de um mistério tão soberano, tão admirável, tão amoroso? Porque falou e calou como divino retórico que era. Disse o que fazia ao seu intento, e calou o que não servia. O intento de S. João neste Evangelho não era só provar o amor de Cristo, senão realçar a fineza do mesmo amor: Cum dilexisset, infinem dilexit. E a instituição do Sacramento, ainda que foi amor, e grande amor, em rigor não era fineza. Por isso não diz que se sacramentou, senão que se ausentou; por isso não diz que se deixou conosco, senão que se aportou de nós; por isso não diz que ficou no mundo, senão que se foi do mundo: Ut transeat ex hoc mundo; logo concluiu: In finem dilexil eos, porque ainda que o sacramento foi amor, o ausentar-se foi fineza; ainda que o deixar-se foi amor, o deixar-nos foi o extremo; ainda que o ficar conosco foi amor, o aportar-se de nós foi amor sobre amor: Cum dilexisset, dilexit.
V
Foi maior fineza de Cristo aportar-se de nós que morrer por nós. A despedida de Cristo no Horto, mais violenta que sua própria morte. Os dois cálices da paixão de Cristo: o do Horto e o do Calvário. O cálix da morte e o da ausência.
Temos rendido o
braço do escudo; só nos resta o da espada, que é a morte. Muito confia nesta
espada o amor, porque traz escrito e gravado nela: Majore charitatem nemo
habet, ut animam suam ponat quis pro amicis suis.17 Mas saiba a morte e o amor,
se o não sabem, que o nemo não compreende a Cristo. Nemo te condemnavit,
mulier; neque ego.18 O ego singular de Cristo, não se compreende debaixo do
universal de nemo. O nemo, em respeito do Filho, é como o omnes em respeito da
Mãe. Nem o omnes faz argumento contra a pureza da Mãe, nem o nemo contra a
caridade do Filho. E para que julgue a mesma vista dos olhos, de que carece a
morte e o amor, quanto maior fineza foi no amor de Cristo o aportar-se de nós
que o morrer por nós, ponhamos o Horto defronte do Cal vário, e ajuntemos o
teatro da despedida com o teatro da morte.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.