Por Padre Antônio Vieira (1669)
Mas se o ver em Pedro foi ocasião de negar, e o negar foi a causa de chorar, por que não chorou Pedro quando negou, senão depois que saiu: Egressus foras flevit? Negou a primeira vez, e ficou com os olhos enxutos como dantes; negou a segunda vez, e ficou do mesmo modo; negou a terceira vez, e nem ainda então chorou. Sai Pedro finalmente fora, e depois que saiu, então saíram também as lágrimas: Egressus foras flevit amare. Pois, se Pedro chora porque negou, por que não chora quando negou, ou depois de negar, senão quando saiu, e depois de sair? Porque, enquanto Pedro não saiu fora, persistia na ocasião de ver e querer ver, e os olhos, enquanto vêem, não podem chorar. O ver e o chorar, como dizíamos, são os dois ofícios dos olhos, mas são ofícios incompatíveis no mesmo tempo: enquanto vêem, não podem chorar, e se querem chorar, hão de deixar de ver. Por isso saiu fora Pedro, não só para chorar, senão para poder chorar, porque para os seus olhos exercitarem o ofício de chorar, haviam de cessar do exercício de ver.
Notável filosofia é a dos nossos olhos no chorar e não chorar. Se choramos, o nosso ver foi a causa, e se não choramos, o nosso ver é o impedimento. Como estes nossos olhos são as portas do ver e do chorar, encontram-se nestas portas as lágrimas com as vistas: as vistas para entrar, as lágrimas para sair. E porque as lágrimas são mais grossas, e as vistas mais sutis, entram de tropel as vistas, e não podem sair as lágrimas. Vistes já nas barras do mar encontrar-se a força da maré com as correntes dos rios? E porque o peso do mar é mais poderoso, vistes como as ondas entram e os rios param? Pois o mesmo passa nos nossos olhos. Todos os objetos deste mar imenso do mundo, e mais os que mais amamos, são as ondas, que umas sobre as outras entram pelos nossos olhos, e ainda que as lágrimas dos mesmos olhos tenham tantas causas para sair, como o sentido do ver pode mais que o sentimento do chorar, vemos quando havíamos de chorar, e não choramos, porque não cessamos de ver. Vejamos tudo nos olhos de Davi, que do ver nos deixou tantos desenganos, e do chorar tantos exemplos.
Morto lastimosamente o príncipe Abner, mandou Davi que todo o exército vestido de luto e arrastando as armas, o acompanhasse até a sepultura, e o mesmo rei o acompanhou também: Porro David sequebatur feretrum (2 Rs. 3, 31). Desta maneira foi marchando e continuando o enterro até o lugar do sepulcro, mas ninguém chorava. Tiram o corpo do esquife, e ainda aqui se não viram nem ouviram lágrimas; metem finalmente o cadáver na sepultura, cerram a porta, eis que começa Davi a rebentar em lágrimas, e todos como ele em pranto desfeito: Cumque sepellissent Abner levavit David vocem suam, et flevit super tumulum: fievit autem et omnis populus (2 Rs. 3,32). Pois se no enterro, e antes de enterrado Abner, nem Davi, nem o exército chora, por que chora tanto Davi, e choram todos com ele no mesmo ponto em que foi metido na sepultura? Porque no enterro, e antes de enterrado, viam a Abner; depois de enterrado, já o não viam. Como a ação de chorar se impede pela resistência do ver, enquanto os olhos viram, estiveram represadas as lágrimas; tanto que não tiveram que ver, começaram as lágrimas a sair. Não puderam chorar os olhos enquanto viram; tanto que não viram, choraram. Sirvam as letras humanas às divinas, e ouçamos aquele engenho, que melhor que todos soube exprimir os afetos da dor e da natureza: Iamque oculis ereptus eras, tum deni que flevi.40 A história pode ser fabulosa, mas a filosofia é verdadeira. Enquanto Ariadne pôde seguir com os olhos a Teseu, estiveram as lágrimas suspensas, embargadas pela vista; mas tanto que já o não pôde ver: Iamque oculis ereptus eras, tirado o impedimento da vista, começaram as lágrimas a correr: Tum denique flevi.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.