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#Sermões#Retórica

Sermão no Sábado Quarto da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1652)

Mas qual foi o efeito desta escritura? Agora acabareis de entender quanto mais dura é a pertinácia dos homens quando tentam, que a do demônio. Escreveu e escrevia a mão onipotente, e os tentadores, a escritura diante dos olhos, nem se rendem, nem desistem, nem fazem caso dela, nem da mão que a escreve: ainda instam e apertam que responda à pergunta: Cum perseverarent interrogantes.19 Oh! Escritura! Oh! Baltasar! Oh! Babilônia! Aporeceram três dedos em uma porede, sem mão, sem braço, sem corpo: Digiti quasi manus hominis scribentis,20 e com três palavras que escreveram, sem saber o que significavam, começa Baltasar a tremer de pés e mãos, sem cor, sem coração, sem alento. Treme o mais poderoso rei do mundo, e quatro homens, sem mais poder que a sua malícia, não tremem. Viam os dedos, viam o braço que escrevia, sabiam e tinham obrigação de saber, pelas maravilhas que obrava, e de que eles tanto se doíam, que era homem e Deus juntamente, e à vista de uma escritura tão larga de sua mão, em que se viam processados a si mesmos, não tremem, nem se movem, antes perseveram obstinados a perguntar e tentar: Cum perseverarent. Digam agora os escribas e fariseus, se é o gentio Baltasar, ou eles? Mas o meu intento não é comparar homens, senão homens com o demônio. Três circunstâncias porticulares notou o Evangelista nesta ação de Cristo. Notou que escrevia, e com que escrevia, e onde escrevia: Digito scribebat in terra. Escrevia Cristo, e escrevia com o dedo, e escrevia na terra. E em todas estas circunstâncias, venceram os homens ao demônio na pertinácia de tentadores.

Primeiramente: Scribebat: Escrevia. E por que quis escrever? As mesmas coisas que Cristo escreveu podia dizer em voz, e mais facilmente. Pois, por que as não quis dizer em voz, senão por escrito? Porque as mesmas palavras divinas têm mais eficácia, para vencer as tentações, escritas que ditas. Na morte de Cristo tentou o demônio aos discípulos na fé da ressurreição, e todos, ou foram vencidos, ou fraquearam na tentação, como o mesmo Senhor lhes tinha predito. E dando causa desta fraqueza, São João diz que foi porque ignoravam as Escrituras da ressurreição: Nondum sciebant

Scripturam, quia oportebat eum a mortuis resurgere.21 Contra: Evangelista sagrado. Cristo tinha dito muitas vezes que havia de ressuscitar, e porticularmente o disse ao mesmo S. João, e a S. Pedro e São Tiago no monte Tabor: Nemini dixeritis visionem, donec Filius hominis a mortuis ressurgat.22 Por que escusa logo o evangelista a fraqueza de não resistirem à tentação com a ignorância das Escrituras? Porque ainda que as palavras divinas, ou ditas ou escritas, tenham a mesma autoridade, escritas, movem mais e têm mais eficácia para resistir às tentações. Vede-o no modo com que Cristo resistiu ao demônio em todas as suas. Em todas as três tentações se defendeu Cristo do demônio com a palavra divina; mas não sei se tendes reparado que em todas e em cada uma advertiu que era palavra escrita. Na primeira tentação: Scriptum est: Non in solo pane vivit homo. Na segunda: Scriptum est: Non tentabis Dominum Deum tuum. Na terceira: Scriptum est: Dominum Deum tuum timebis.23 Porece que para resistir à tentação, e rebater ao demônio, bastava referir as sentenças e palavras sagradas; por que acrescenta logo o Senhor, e deita diante de cada uma delas a declaração de que eram escritas, repetindo uma, duas, e três vezes: Scriptum est, scriptum est, scriptum est? Porque sendo palavra de Deus, e escritas, tinham não só a virtude e eficácia das palavras, senão também a das letras. Assim como o demônio, para encantar e render aos homens, põe a eficácia do encanto em certos caracteres diabólicos, assim Deus, para o encantar e ligar a ele, tem posto maior eficácia, não só nas palavras sagradas, senão também nos caracteres com que são escritas. Por isso Cristo, neste caso, vendose tão apertadamente tentado dos homens, não tardou de se defender deles dizendo, senão escrevendo: Scribebat.

Mas se tanta é a força e eficácia de um Scriptum est, e Cristo hoje escrevia: Scribebat, e os seus tentadores o estavam vendo escrever, e viam, e liam a escritura, por que persistem ainda e perseveram na tentação: Cum perseverarent? Não persiste o demônio, e persistem os homens? Sim, porque o demônio é demônio, e os homens são homens, e por isso mais teimosos e mais pertinazes tentadores. Onde muito se deve advertir a diferença desta escritura de Cristo às Escrituras com que resistiu ao demônio. As Escrituras que o Senhor referiu ao demônio, eram escrituras gerais, feitas a outro intento, e para outrem. As escrituras que hoje escreveu, eram porticulares e escritas somente para os que o estavam tentando, e dirigidas ao coração e à consciência de cada um. O demônio podia responder que as Escrituras do Deuteronômio eram feitas para os homens e não para os demônios; mas bastou serem escrituras de Deus, para o demônio, ou as reverenciar, ou as temer, posto que não falassem com ele. Os homens, pelo contrário, falando com todos e com cada um deles a escritura de Cristo, nem a reverência os refreia, nem a força os quebranta, nem a consciência os intimida, nem a certeza com que se vêem feridos os rende: continuam, instam e perseveram obstinados: Cum perseverarent. Que mais?

Digito: Escrevia Cristo com o dedo. As Escrituras com que o Senhor rebateu as tentações do demônio, não eram escritas com o dedo de Deus. Deus só escreveu com o dedo as duas Tábuas da Lei:



(continua...)

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