Por Padre Antônio Vieira (1669)
Iam para Emaús os dois discípulos praticando com grande tristeza na morte de seu Mestre (Lc. 24), e foi coisa maravilhosa que aparecendo-lhes o mesmo Cristo, e indo caminhando e conversando com eles, não o conhecessem. Alguns quiseram dizer que a razão deste engano, ou desta cegueira, foi porque o Senhor mudara as feições do rosto, e ainda a voz ou tom da fala. Mas esta exposição, como bem notou Santo Agostinho, é contra a propriedade do texto, o qual diz expressamente que o engano não foi da parte do objeto, senão da potência; não da parte do visto, senão da vista. Oculi illorum tenebantur, ne eum agnoscerent.14 Como é possível logo que não conhecessem a quem tão bem conheciam, e que não vissem a quem estavam vendo? Na palavra tenebantur está a solução da dúvida. Diz o Evangelista que não conheceram os discípulos ao mesmo Senhor que estavam vendo, porque tinham os olhos presos. Isto quer dizer tenebantur. E da mesma frase usa o evangelista falando da prisão de Cristo: Ipse est: tenete eum. Tenuerunt eum. Non me tenuisti.15 Mas se os olhos estavam presos, como viam? E se viam, como estavam presos? Não estavam presos pela parte da vista, estavam presos pela parte da advertência. Iam os discípulos divertidos na sua prática, e muito mais divertidos na sua tristeza: Qui sunt hi sermones, quos confertis ad invicem et estis tristes?16 E esta diversão do pensamento era a que lhes prendia a advertência dos olhos. Como tinham livre a vista, viam a Cristo; como tinham presa a advertência, não conheciam que era ele. E desta maneira, estando os olhos dos discípulos juntamente livres e presos, vinham a ser um composto de vista e de cegueira: de vista com que viam, e de cegueira com que não viam. Vede a força que tem o pensamento para a diversão da vista. Os olhos estavam no caminho com Cristo vivo, o pensamento estava na sepultura com Cristo morto; e pode tanto a força do pensamento, que o mesmo Cristo ausente, em que cuidavam, os divertia do mesmo Cristo presente que estavam vendo. Tanto vai de ver com atenção e advertência, ou ver com desatenção e divertimento.
Por isso Jeremias bradava: Attendite, et videte (Sam. 1, 12): Atendei, e vede. Não só pede o profeta vista, mas vista e atenção, e primeiro a atenção que a vista, porque ver sem atenção é ver e não ver. Ainda é mais próprio este ver e não ver, do que o modo com que viam e não viam aqueles cegos tão cegos nos dois casos milagrosos que referimos. Eles não viam o que viam, porque lhes confundiu Deus as espécies. Nós, sem confusão nem variedade das espécies, não vemos o que vemos, só por desatenção e divertimento da vista. Agora entendereis a energia misteriosa e discreta com que o profeta Isaías nos manda olhar para ver: Intuemini ad videndum (Is. 41, 18). Quem há que olhe senão para ver? E quem há que veja senão olhando? Por que diz logo o profeta, como se nos inculcara um documento particular: Intuemini ad videndum: Olhai para ver?
Porque assim como há muitos que olham para cegar, que são os que olham sem tento, assim há muitos que vêem sem olhar, porque vêem sem atenção. Não basta ver para ver; é necessário olhar para o que se vê. Não vemos as coisas que vemos, porque não olhamos para elas. Vemo-las sem advertência e sem atenção, e a mesma desatenção é a cegueira da vista. Divertem-nas a atenção os pensamentos, suspendem-nos a atenção os cuidados, prendem-nos a atenção os desejos, roubam-nos a atenção os afetos, e por isto, vendo a vaidade da mundo, imas após ela, como se fora muito sólida; vendo o engano da esperança, confiamos nela, como se fora muito certa; vendo a fragilidade da vida, fundamos sobre ela castelos, como se fora muito firme; vendo a inconstância da fortuna, seguimos suas promessas, como se foram muito seguras; vendo a mentira de todas as coisas humanas, cremos nelas, como se foram muito verdadeiras. E que seria se os afetos que nos divertem a atenção da vista fossem da casta daqueles que tanto divertiram e perturbaram hoje os escribas e fariseus? Divertia-os o ódio, divertiaos a inveja, divertia-os a ambição, divertia-os o interesse, divertiaos a soberba, divertia-os a autoridade e ostentação própria, e como estava a atenção tão divertida, tão embaraçada, tão perturbada, tão presa, por isso não viam o que estavam vendo: Ut videntes caeci fiant.
§IV
Segunda espécie de cegueira, causada pela paixão: a dos cegos que vêem uma coisa por outra. O cego do Evangelho que via os homens como árvores. A cegueira de nossos primeiros pais e dos falsos profetas da República dos Hebreus. Enganos dos moabitas, do rei Assuero e dos apóstolos perturbados por paixões diversas.
A cegueira da
segunda espécie, ou a segunda espécie da cegueira dos escribas e fariseus, era
serem tais os seus olhos que não viam as coisas às direitas, senão às avessas;
não viam as coisas como eram, senão como não eram. Viam os olhos milagrosos, e
diziam que era engano; viam a virtude sobrenatural, e diziam que era pecado;
viam uma obra que só podia ser dos braços de Deus, e diziam que não era de
Deus, senão contra Deus: Non est hic homo a Deo. De maneira que não só não
viam as coisas como eram, mas viam-nas como não eram, e por isso muito mais
cegos que se totalmente as não viram.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 23 ago. 2026.