Por Padre Antônio Vieira (1674)
Assim respondeu Davi pela parte superior do Jordão que parou e reverenciou a Arca. Mas pela parte inferior, que correu ao mar e lhe voltou as costas, como foi ação tão irracional, tão precipitada e tão feia, condenou-a, e afrontou-a o profeta com a admiração da sua mesma indignidade, perguntando-lhe por que fugia de Deus: Quid est tibi mare, quod fugisti? Mas se era rio, por que lhe chama mar? E se era o Jordão, por que lhe não chama Jordão? O nome que lhe tirou e o que lhe deu, ambos foram declaração da censura que merecia. O rio que corre ao mar seguindo a própria natureza, vai buscar sua perdição: ali perde o nome e o ser, porque já não é rio, é mar. Assim foi buscar o seu naufrágio e o seu castigo aquela indigna parte do Jordão que voltou as costas à Arca. E posto que esta razão bastava para lhe negar o profeta o nome de Jordão, ainda o fez com maior mistério e mais claro documento e repreensão dos que nestes dias o imitam. Jordanis quer dizer fluvius judicii: o rio do juízo. E como podia ser digno de tal nome uma parte do mesmo rio tão precipitada, tão furiosa e sem juízo, que por seguir o ímpeto e costume da natureza, deixou de assistir à Arca de Deus, e fugiu de sua presença? Prezem-se agora de entendidos e discretos os que se apartam ou fogem da mesma presença para ver e autorizar; com a sua, as loucuras do mundo nos dias em que ele mais que nunca perde o siso. E se quereis ver quão alheia de juízo é semelhante resolução, ponderai-a comigo debaixo da alegoria do mesmo rio, e ouvi-me falar com ele com as mesmas palavras do profeta.
Quid est tibi mare, quod fugisti? Rio precipitado e infeliz, que te deixaste arrebatar da fúria da corrente e fugiste da presença da Arca de Deus, dize-me de que foges tu, e por quê? Que mal te tem feito aquele Senhor, para fugir dele? De um Deus que te busca, que vem em pessoa a santificar-te, de um Deus que, sendo tu dos amorreus, te quer fazer seu, de um Deus que te quer livrar da servidão da gentilidade, de um Deus que se mete todo dentro de ti mesmo: deste Deus tão amoroso foges tu? Dize-me, assim eu te veja tomar atrás: Quid est tibi? Que fruto, que proveito, que interesse tens em deixar e te apartar de Deus? Se te move o costume inveterado da tua corrente, não vês tu que é melhor e mais são conselho emendar os costumes maus antes de chegar ao Mar Morto, onde tu caminhas? Se te leva o ímpeto e inclinação natural, não vês que a outra parte de ti mesmo, sendo da mesma natureza: Conversus est retrorsum? Se ele não seguiu teu exemplo, por que não imitarás tu o seu? Se o não fazes por virtude, ao menos o deves fazer por reputação e por honra.
Não vês que aquele Jordão que teve mão em si e parou à presença da Arca, quanto mais está parado, tanto mais cresce e se exalta? Não vês que ele é o milagroso, o admirado, o reverenciado, o louvado, o chamado santo? Que é logo o que te leva? Que é o que vais buscar aonde tão arrebatadamente caminhas: Quid est tibi more, quod fugisti?
§V
O Mar Morto, Vallis Salinarum, e o carnaval. A tentação do riso e o sacrifício de Isac. Roma e Sara, mãe dos crentes.
Naquela palavra mare temos todo o quid est, ou todo o porquê da admiração do profeta, e isso mesmo tanto para admirar e estranhar, que apenas se pode dizer sem indecência. Mas não é muito que se diga, pois se vê. Aquele mar, aonde foi parar a parte do Jordão que não parou, é o que nós hoje chamamos Mar Morto, e naquele tempo se chamava Vallis Salinarum, porque sendo estéril de pescado e de toda a coisa vivente, só se tirava dele sal. Pois para correr ao Vale do Sal, se há de deixar a presença e reverência da Arca? Para correr ao Vale do Sal se há de fugir de Deus? Assim é. Para correr ao Vale do Sal, e do sal que algumas vezes é assaz mordaz e picante. Tudo o que vai ver e ouvir a passatempo e gosto vão destes dias, que outras coisas são senão aquelas que a antiga Roma chamava sales, e a moderna sali. Graças, chistes, motes, facécias, bufonarias, metamorfoses de trajos, equívocos de pessoas, transfigurações dos sexos e da espécie, máquinas jocosas, invenções ridículas, enfim quanto sabe excogitar o engenho, a sutileza e a ociosidade para mover a riso. Que diria a severidade do vosso Catão se tal visse? Para isto se vêem cheias as praças, as ruas, os balcões, os teatros; todos a rir, e tudo para rir. E que sendo em suma tão leve e tão ridícula a tentação, triunfe contudo o mundo de nós, e pareça que triunfa do mesmo Deus! Senhor, Senhor, quase estava para vos representar a minha dor, que seria maior decência de vossa divina autoridade retirar-vos ao Sancta Sanctorum de vossos sacrários, que aparecer em público nestes dias. Seja riso aquele riso, mas não seja irrisão vossa. Riam-se os homens do que vêem e do que fazem, mas não pareça que se riem de vós, pois fazem tão pouca conta de vossa presença. Saibam porém os que assim deixam a Deus e o trocam ou vendem por tão vil preço, que Deus, como pregou S. Paulo, non irridetur23 e que lá está guardado um Vae da divina justiça para este riso: Vae vobis qui ridetis, quia plorabitis!24
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.