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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Dominga da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1655)

Dir-me-eis, como doutos que deveis ser, que no mesmo tempo em que Deus deu uma só presidência e um só hemisfério ao sol, deu três presidências e três hemisférios a Adão. Uma presidência no mar, para que governasse os peixes; outra presidência no ar, para que governasse as aves; outra presidência na terra, para que governasse os outros animais: Et praesit piscibus maris, et volatilibus caeli, et bestiis, universaeque terrae (Gên. 1,26). E o mesmo é governar a animais que governar a homens? E o mesmo é o estado da inocência, em que então estava Adão, e o estado da natureza corrupta e corruptíssima em que estamos hoje? Mas quando tudo fora igual, o exemplo nem faz por vós, nem contra mim. Por vós não, porque naquele tempo não havia mais que um homem no mundo, e era força que ele tivesse muitos ofícios. Contra mim não, antes muito por mim, porque Adão com esses ofícios, bem se vê a boa conta que deles deu (Gên. 3,23). Não eram passadas vinte quatro horas em que Adão servia os três ofícios, quando já tinha perdidos os ofícios, e perdido o mundo, e perdido a si, e perdidos a nós.9 Se isto aconteceu a um homem que saía flamante das mãos de Deus, com justiça original e com ciência infusa, que será aos que não são tão justos, nem tão cientes, e aos que tem outros originais e outras infusões? Não era cristão Platão, e mandava na sua república que nenhum oficial pudesse aprender duas artes. E a razão que dava era porque nenhum homem pode fazer bem dois ofícios. Se a capacidade humana é tão limitada que para fazer este barrete são necessários oito homens de artes e ofícios diferentes, um que crie a lã, outro que a tosquie, outro que a carde, outro que a fie, outro que a teça, outro que a tinja, outro que a tose, e outro que a corte e a cosa; se nas cidades bem ordenadas, o oficial que molda o ouro não pode lavrar a prata, se o que lavra a prata não pode bater o ferro, se o que bate o ferro não pode fundir o cobre, se o que funde o cobre não pode moldar o chumbo nem tornear o estanho, no governo dos homens, que são metais com uso de razão, no governo dos homens, que é a arte das artes, como se hão de ajuntar em um só homem, ou se hão de confundir nele, tantos ofícios? Se um mestre com carta de examinação dá má conta de um ofício mecânico, um homem, que muitas vezes não chegou a ser obreiro, como há de dar boa conta de tantos ofícios políticos? E que não faça disto consciência este homem? Que se confesse pela quaresma, e que continue a servir os mesmos ofícios, ou a servir-se deles, depois da Páscoa? Isto me admira!

Em semelhantes obrigações se viu metida uma hora a Alma Santa, mas vede como ela confessou a sua insuficiência, e depôs o seu escrúpulo: Posuerunt me custodem in vineis; vineam ineam non custodivi: Puseram-me por guarda das vinhas, e eu não guardei a minha vinha (Cânt. 1,6). Pois ao menos, Alma Santa, a vossa vinha, por vossa, por que a não guardaste? Porque a quem entregam muitas vinhas não pode guardar nenhuma. Assim o confessa uma alma que se quer salvar. Confessou a sua insuficiência, e confessa a sua culpa. Se alguém parece que pudera ter desculpa em tal caso, era essa alma, pelo que ela mesma diz: Posuerunt me: Puseram-me. Ainda quando vos pusessem nesses ofícios, tínheis obrigação de depor os ofícios e confessar os erros. E que será quando vós sois o que vos pusestes neles, o que pretendestes, o que buscastes, o que os subornastes, e o que porventura os tirastes a outrem para os pôr em vós? Moisés, aquele grão-ministro de Deus e da sua república, metendo-lhe o mesmo Deus na mão a vara, e mandando-o que fosse libertar o povo, respondeu: Quis ego sum, ut vadam ad pharaonem (Ex. 3,11): E quem sou eu, Senhor, ou que capacidade há em mim para esta comissão? Mitte quem missurus es (Êx. 4,14): Mandai a quem vos possa servir como convém. Oh! ministro verdadeiramente de Deus! Antes de aceitar o cargo, representou a insuficiência, e para que se visse que esta representação era consciência e não cortesia, repugnou uma e outra vez, e não aceitou senão depois que Deus lhe deu Arão por adjunto. Tinha já Moisés muitos anos de governo do povo, muitas cãs e muita experiência; tornou a fazer outra proposta a Deus, e quero referir os termos do memorial, para que se veja quão apertados foram: Non possum solus sustinere omnem hunc populum (Núm. 11,14): Eu, Senhor, não posso só com o peso do governo deste povo. Sin aliter tibi videtui; obsecro, ut inteficias me, et inveniam gratiam in oculis tuis: E quando vossa divina majestade não for servido de me aliviar, peço e protesto a vossa divina majestade, me tire a vida, e receberei nisto muito grande mercê. Não pediu o oficio para toda a vida, nem para muitas vidas, senão que lhe tirasse a vida só para não ter o ofício, e com muita razão, porque melhor é perder o ofício e a vida, que reter o oficio e perder a consciência. E que fez Deus neste caso? Mandou a Moisés que escolhesse setenta anciãos dos mais prudentes e autorizados do povo, e diz o texto que tirou Deus do espírito de Moisés, e repartiu dele por todos os setenta: Auferens de spiritu, qui erat in Moyse, et dans septuaginta viris (Núm. 11,25). Eis aqui quem era aquele homem que se escusou do oficio. De maneira que um homem que vale por setenta homens, não se atreve a servir um só ofício? E vós, que vos fará Deus muita mercê que sejais um homem, atreveis-vos a servir setenta ofícios? Não louvo, nem condeno: admiro-me com as turbas: Et admiratae sunt turbae.

§IV

Quid? O quê? O que faz? Que eleições? O escrúpulo das eleições. A predestinação e a parábola do profeta Isaías. A confissão de Arão e as conseqüências desastrosas do seu pecado.

Quid? Quê? Depois de o ministro examinar que ministro ou que ministros é, segue-se ver o que faz. Um dia do juízo inteiro era necessário para este exame. Quid? Que sentenças? Que despachos? Que votos? Que consultas? Que eleições? Mas paremos nesta última palavra, que é a de maiores escrúpulos e que envolve comumente todo o quid?

(continua...)

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